As negociações para uma fusão entre EMS e Hypera, apresentada ontem ao mercado, podem ser o pontapé para uma segunda onda de consolidação entre os laboratórios nacionais.
Há uma expectativa de que outros grupos acelerem uma combinação de negócios após essa transação ter vindo a público, tendo em vista a possibilidade de uma fusão entre duas empresas que juntas têm receita de R$ 16 bilhões e participação de mercado na casa dos 17% – em geral, as fatias das farmas não chegam a 10%.
Os ganhos de escala são grandes. A companhia combinada, por exemplo, ganha poder de negociação com distribuidores e farmácias, fator que tende a impulsionar os negócios.
Fontes do setor, contudo, ainda veem com ceticismo que o negócio possa ser levado adiante.
A visão de pessoas ouvidas pelo Valor é de que não é simples aprovar uma transação, vinda de oferta hostil. Além de o principal acionista da Hypera, João Alves de Queiroz Filho, conhecido como Júnior, ter rechaçado fundir os negócios no passado, visto que não quer se tornar minoritário na companhia combinada, o empresário ter uma participação relevante, de 21,38%, o que traz os desafios de uma ampla adesão, diz uma fonte.
Uma outra pessoa a par do assunto afirma que é raro o sucesso de uma oferta do gênero partindo de uma empresa de capital fechado, já que para o conselho de administração da empresa alvo se sentir confortável em aconselhar o negócio, pode ser necessário uma maior diligência sobre os números da proponente.
Uma das fontes disse que a EMS tenta, ao fazer a oferta hostil, buscar mobilização dos investidores da Hypera, ou seja, pressionar para que o negócio seja aceito. Porém, um efeito colateral pode ser a atração de novos interessados pela Hypera, visto que todos os players dessa indústria estão mirando processos de M&A (fusão e aquisição, pela sigla em inglês). Se isso ocorrer, explicou a fonte, a empresa que se interessar poderá trazer para a mesa o Júnior e tentar uma negociação amigável.
Para se ter uma ideia da potencial transação entre EMS e Hypera, elas ocupam respectivamente a primeira e terceira posições (considerando a Neo Química, da Hypera) em genérico. Esse segmento movimentou cerca de R$ 29,2 bilhões nos últimos 12 meses encerrado em setembro, segundo o Sindusfarma, com base em dados da consultoria IQVIA.
A Hypera tem um grande portfólio de remédios sem prescrição com marcas reconhecidas como Neosaldina, Rinossoro, Lisador e Coristina. O segmento de OTC teve receita de R$ 21,3 bilhões.
Segundo um especialista do setor, as farmas que não conseguirem se juntar tendem a jogar o preço para baixo, preferindo reduzir margem a perder mercado. A indústria farmacêutica movimenta cerca de R$ 200 bilhões.
Segundo Rafael Freixo, diretor da LEK Consulting, se concluída, essa deve a maior operação do setor nos últimos anos. “Essa nova companhia conseguiria dominar várias categorias de produtos. A Hypera tem um negócio muito forte de medicamentos sem prescrição. Ela tem, ainda, uma presença importante no canal farmacêutico, enquanto a EMS é forte em genéricos e similares”.
As ações da farmacêutica Hypera tiveram um dia atípico nesta segunda-feira (21), com as negociações atingindo R$ 1,07 bilhão em meio a volatilidade trazida por dois anúncios que causaram reações opostas nos acionistas. Um programa de otimização do capital de giro amargava o humor do mercado pela manhã, até que uma proposta de combinação de negócios feita pela EMS mudou os ânimos no fim da tarde.
Os papéis fecharam o dia com alta de 1,9%, a R$ 26,16. O volume negociado, de R$ 1,07 bilhão, foi o segundo maior da B3, atrás apenas da Vale, com R$ 1,15 bilhão, e equivale a cerca de sete vezes os R$ 151 milhões movimentados pela Hypera na sexta-feira (18). (Colaboraram Ana Beatriz Bartolo e Felipe Laurence)
Fonte: Valor Econômico