O diretor de assuntos internacionais e gestão de riscos corporativos do Banco Central (BC), Paulo Picchetti, reforçou que não existe relação mecânica entre o que acontece nos juros externos e nas decisões de política monetária no Brasil. Na última ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o colegiado reiterou essa análise sobre o impacto da política monetária americana na Selic e que, como usual, o comitê focará nos mecanismos de transmissão da conjuntura externa sobre a dinâmica inflacionária interna”.
No caso da política monetária americana, Picchetti lembrou a reprecificação dos cortes e apontou que houve um efeito do retardamento do início do ciclo de cortes que já se transferiu para ativos de vários países. “E o Brasil não é exceção”. Ele participou de evento promovido pela FGV em São Paulo.
O diretor disse que em algum momento a inflação americana vai começar a convergir para a meta. “Vai ter uma queda de taxa de juros, mas provavelmente não para os níveis anteriores pré-pandemia.” Ele comentou que na semana passada o Banco Central europeu (BCE) começou a cortar os juros, mas junto com uma mensagem que “deixou bem claro que esse corte não era o início de um ciclo que seria contínuo”.
Picchetti analisou também os efeitos do mercado de trabalho nos preços globalmente. O diretor do BC ressaltou que na medida que a queda nas taxas de desemprego cria um mercado de trabalho apertado, isso se reflete na dinâmica do mercado e em pressões sobre salários. Assim, “em alguma medida” em lugares diferentes “quando a gente vai ver a pressão de salários está se transmitindo para pressão de serviços em geral nos vários índices de preços”.
Ele afirmou que os números “bem preliminares” de impacto na inflação e na atividade das enchentes no Rio Grande do Sul mostram que “não é um impacto zero, não é um impacto desprezível”. Ele disse que o BC está se debruçando sobre os parâmetros econômicos, assim como consultorias e bancos privados, para tentar avaliar o impacto das enchentes. Segundo ele, há estimativas iniciais de aumento da inflação e alguma diminuição do PIB. “Esses impactos bem preliminares ainda colocam esses números em casas decimais de IPCA para cima e PIB para baixo.”
Picchetti apontou que vai ter um impacto nos preços, “por exemplo de alimentos e de outros produtos”. Além disso, o diretor ressaltou que o impacto no PIB depende da participação do estado no PIB agropecuário e industrial do país.
Picchetti afirmou que o cenário provável é que os cortes nos juros norte-americanos devem acontecer no fim deste ano ou começo de 2025, mas que essa queda “provavelmente não [vai] para os níveis anteriores pré-pandemia que a gente viu no período de estagnação secular”.
“Em algum momento a inflação americana vai começar a convergir para a meta, a política de juros norte-americana vai começar a ver os cortes que a gente está esperando, seja no final do ano, seja no começo do ano que vem, mas provavelmente aquela taxa de juros neutra de longo prazo que a gente viu as várias estimativas, ela não vai voltar no cenário prospectivo o que a gente vê a frente”, disse.
O diretor explicou que existem várias metodologias para o cálculo da taxa neutra e, mostrando gráficos da área do Euro e dos Estados Unidos, disse que antes da pandemia, havia uma “tendência declinante” da taxa de juros neutra. Picchetti ressaltou que entre os fatores há um envelhecimento da população e um período de estagnação secular “onde você não teve grandes inovações tecnológicas e ao mesmo tempo teve aversão ao risco bastante grande”.
Segundo o diretor, tudo isso mudou no passado recente com uma alta na taxa de juros neutra. Picchetti citou alguns fatores que afetam a equação, como as mudanças no comércio global com a “fragmentação” geopolítica, as mudanças climáticas com a demanda por investimentos em transição ecológica e investimentos em inteligência artificial que podem afetar a produtividade.
Fonte: Valor Econômico
