Depois da relativa tranquilidade e do bom humor entre o fim de agosto e a primeira metade de setembro, os ativos brasileiros entram em uma fase mais nervosa. Câmbio e juros ainda preservaram um desempenho melhor que o dos pares. No entanto, com o primeiro turno das eleições batendo à porta, participantes do mercado começam a se preparar para uma etapa em que pequenas mudanças na percepção sobre o cenário eleitoral podem gerar reações desproporcionais nos preços.
Não surpreende que alguns bancos mantenham um viés neutro em relação aos mercados locais e, assim, recomendem apenas posições com algum tipo de “hedge” (proteção) ou que considerem consensuais independentemente do cenário eleitoral. Outros têm adotado a postura de apenas monitorar a dinâmica dos ativos domésticos, na tentativa de verificar o que está embutido nos preços em busca de assimetrias depois das eleições.
Ao menos até agora, o mercado de juros tem mostrado o movimento mais acentuado de descompressão de prêmios de risco entre os mercados locais. Depois de serem vistas como o “patinho feio” desde a eclosão da guerra no Irã, as taxas futuras têm anotado forte queda desde a sensação de uma corrida presidencial mais acirrada. Entre meados de agosto e sexta-feira, as taxas longas caíram em torno de 0,5 ponto percentual, mesmo com a disparada dos juros globais, e o dólar se manteve entre R$ 5,10 e R$ 5,15, apesar do fortalecimento generalizado da moeda americana.
O otimismo em torno do desfecho eleitoral, assim, tem conseguido impor limites à piora externa, mas, daqui em diante, os agentes já se preparam para um ambiente mais instável e diretamente ligado às próximas pesquisas de intenção de voto. “Os mercados ainda não precificam nenhum dos dois resultados eleitorais”, avalia a estrategista de câmbio e juros para Américas do Barclays, Andrea Kiguel. “Acreditamos que os mercados devem continuar incorporando um desfecho incerto até o primeiro turno, uma vez que as pesquisas apontam um segundo turno apertado, com a diferença entre os candidatos dentro da margem de erro.”
Ao longo do fim de semana, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) abriu vantagem em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos mercados preditivos, que são proibidos no Brasil, o que poderia dar margem a uma reação positiva dos ativos brasileiros. O movimento, contudo, não tende a ser significativo, ao menos por ora, justamente por causa da incerteza em torno do resultado dos próximos “trackings” e pesquisas de intenção de voto, que têm sido acompanhados com lupa pela Faria Lima.
O Barclays, por ora, não adota uma posição direcional em nenhum dos ativos locais no momento. A depender do resultado da eleição, porém, Kiguel diz ver espaço para um forte rali, ainda que alerte para possíveis exageros. Para ela, uma eventual vitória de Flávio poderia gerar um “ciclo virtuoso” no câmbio e nos juros, em um movimento que seria mais intenso do que uma eventual desvalorização caso Lula se reeleja.
Ao analisar o comportamento dos mercados em eleições anteriores no Brasil e em outros emergentes, Kiguel estima que os ativos domésticos poderiam precificar uma Selic de 10,50% e avalia que a taxa do DI com vencimento de janeiro de 2029 cairia cerca de 2 pontos percentuais caso Flávio vença as eleições em outubro. Na sexta-feira, ela terminou o pregão negociada a 13,84%. Já uma vitória de Lula em outubro traria um impacto contrário — ou seja, de alta — de cerca de 1 ponto.
“Esse resultado [pós-vitória de Flávio] seria um pouco exagerado para nós, mesmo que esteja alinhado a um ciclo virtuoso e às recentes mudanças eleitorais para a direita nos mercados emergentes”, diz Kiguel, ao apontar que, embora a perspectiva de um ajuste fiscal possa reduzir as estimativas de juro neutro do Brasil (aquele que não comprime nem estimula a demanda), esse processo levaria tempo e, assim, a economia brasileira ainda exigiria juros elevados por algum tempo, “limitando o alcance do rali ao longo do tempo e tornando-o vulnerável a uma correção”.
Um movimento mais cauteloso também é adotado por outras casas estrangeiras, como o Société Générale, que segue sem posições nos ativos locais há algumas semanas. Na sexta-feira, o estrategista para América Latina do banco francês, Brendan McKenna, reduziu de 70% para 55% a probabilidade de vitória de Lula. “De qualquer forma, a eleição continua sendo, na prática, uma questão de sorte — como um cara ou coroa — a poucas semanas do primeiro turno.”
Segundo McKenna, o aumento do Bolsa Família, que gerou volatilidade nos mercados na semana que passou, “é mais um exemplo do motivo pelo qual temos mantido uma posição neutra nos ativos brasileiros às vésperas da eleição”.
“O Brasil tem pouco ou nenhum espaço fiscal para despesas adicionais e, normalmente, quando os ativos locais se descolam das tendências mais amplas observadas na América Latina, a política fiscal doméstica é a responsável. Com ambos os candidatos supostamente ligados a escândalos domésticos e diante de mais uma flexibilização da política fiscal antes da eleição, continuaremos neutros em relação ao Brasil até termos maior clareza sobre como será a plataforma de política econômica após o pleito”, afirma o estrategista do Société Générale.
O câmbio parece ter mais atratividade para algumas casas. O Citi mantém uma visão mais otimista (“overweight”) com o real e mantém posição comprada na moeda dentro de ma cesta destinada a “carry trade”. Já o J.P. Morgan tem posições no real via opções, mas segue com viés neutro.
O Bank of America destoa da cautela de outras casas estrangeiras. Ao avaliar que a eleição “se tornou o principal fator de influência sobre os ativos brasileiros”, os estrategistas Ezequiel Aguirre e Lucas Martin notam que Lula “não conseguiu construir vantagem confortável”. E, no momento em que os juros “parecem altos demais”, o BofA acredita que a eleição “cria um potencial adicional de valorização”, com um rali intenso caso o resultado seja favorável ao mercado.
Nesse sentido, o BofA passou a recomendar a compra da NTN-F para janeiro de 2037. “Essa operação captura os juros reais elevados, um ciclo de flexibilização monetária mais profundo do que o precificado pelo mercado e uma assimetria positiva relacionada à eleição”, dizem os estrategistas, que notam que episódios históricos “mostram que perspectivas críveis de ajuste fiscal podem produzir forte rali nos títulos”.
Fonte: Valor Econômico


