15 Aug 2023LUCIANA TADDEO
A vitória do libertário Javier Milei na eleição primária de domingo mexeu com a economia da Argentina. Os títulos do país caíram 12% ontem, na abertura dos mercados em Nova York, o peso se desvalorizou e o Banco Central elevou a taxa de juros em 21 pontos, para 118% ao ano. Além de definir o candidato presidencial de cada coalizão, a primária mede apoios com precisão porque a participação geral é obrigatória. O cenário é de disputa acirrada entre três forças. A primeira é o radicalismo liberal de Milei, que obteve 30% dos votos e rompeu a polarização recente. A segunda é a oposição de centro-direita (28,3% dos votos), representada por uma exministra de Segurança, a linhadura Patricia Bullrich. Em terceiro vem o governo peronista de centro-esquerda (27,3%), cujo candidato é Sergio Massa, ministro da Economia. A eleição será em 22 de outubro, com um possível 2.º turno em 19 de novembro.
Os títulos argentinos caíram entre 3% e 12% ontem, na abertura dos mercados em Nova York, enquanto o peso teve sua maior desvalorização oficial em um dia desde 2019 e o Banco Central aumentou a taxa de juros, após a surpreendente vitória do libertário Javier Milei nas primárias de domingo.
Após as medidas de ontem, o FMI reafirmou seu apoio à Argentina. O Conselho do Fundo se reunirá no dia 23 para liberar os desembolsos acertados com o governo segundo o programa de financiamento. “Acolhemos com satisfação as recentes ações e o compromisso com o futuro para salvaguardar a estabilidade”, disse a diretora de comunicações do FMI, Julie Dozack.
Nas primárias de domingo, os argentinos escolheram os candidatos presidenciais de cada coalizão. As eleições serão no dia 22 de outubro, com um possível segundo turno em 19 de novembro. A votação de domingo, é também considerada um termômetro do desempenho de cada grupo político por que o voto é obrigatório.
Em 2019, por exemplo, Alberto Fernández saiu das primárias com 47,8% dos votos e foi eleito presidente, dois meses depois, com 48,2%. Este ano, a disputa está bem mais acirrada entre três forças políticas: o governo peronista de centro-esquerda, a oposição de centrodireita e o radicalismo liberal de Milei.
SUSTO. O candidato libertário foi o grande vencedor das prévias de domingo, obtendo 30% dos votos, bem mais do que os 20% indicados pelas pesquisas. A coalizão Juntos Pela Mudança, que escolheu Patricia Bullrich, ex-ministra da Segurança de Mauricio Macri, ficou em segundo com 28,3% dos votos. O bloco que representa o governo de centro-esquerda, cujo representante será Sergio Massa, ministro da Economia, teve 27,3%.
O bom desempenho de Milei, um economista de 52 anos que defende a dolarização da economia e a extinção do Banco Central, provocou um choque no mercado. O BC aumentou a taxa de câmbio oficial para 356 pesos por dólar (estava em 298 na sexta-feira) e elevou a taxa de juros em 21 pontos, para 118% ao ano. O dólar negociado no mercado paralelo subiu para 690 pesos (ante 605 na sexta-feira). Foi a maior desvalorização desde 2019.
“O mercado esperava um triunfo moderado da aliança Juntos Pela Mudança”, disse ao Estadão Santiago Manoukian, da consultora Ecolatina. “Esse cenário totalmente diferente cria um desvio muito importante que afetou a economia.”
Jorge Arias, da consultoria Polilat, previu um cenário econômico de altos e baixos, altamente volátil e problemático até as eleições de outubro. “Os mercados serão especulativos, ainda mais do que antes, com um Banco Central e uma economia bastante abaladas”, disse Arias. Segundo ele, Massa, um peronista moderado que tem bons laços com o governo americano e é aceito pelos mercados financeiros, “terá de fazer mágica, como candidato e como ministro da Economia, para reverter a situação”.
Mariano Machado, principal analista da empresa de inteligência de risco Verisk Maplecroft para as Américas, disse que Milei ainda não forneceu detalhes sobre como implementará suas medidas, observando que seu plano pode “atrelar a inflação às taxas de juros dos EUA”.
“A dolarização dos custos pode acabar com a competitividade dos poucos setores que continuam movimentando a economia argentina, como o agropecuário, fundamental para a obtenção de divisas, e os que apresentam oportunidades futuras, como mineração, petróleo e gás”, disse Machado. •
Financiamento Conselho do FMI se reunirá dia 23 para liberar desembolsos acertados com o governo
Fonte: O Estado de S. Paulo


