15 Aug 2023 The Economist TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO
Javier Milei batiza suas propostas de “Plano Motosserra”, por serem radicais. Assim, o economista canalizou a frustração argentina.
Hard rock bombava nos alto-falantes conforme milhares de fãs vibravam. Uma imagem gigantesca de um leão rugindo em um círculo de fogo tomou a enorme tela. Saltando ao palco, um homem de jaqueta de couro atiçou a plateia ao frenesi. “Eu sou o leão!”, berrou. “Eu sou o rei em mundo perdido.” Não era um show de rock. Quem falava no microfone era Javier Milei, um libertário que pretende se tornar o próximo presidente da Argentina.
No domingo, Milei foi o candidato à presidência que recebeu mais votos nas eleições primárias. Em razão de o voto ser obrigatório, as prévias são consideradas o melhor indicador a respeito de quem poderá vencer a corrida presidencial – cujo primeiro turno ocorre em 22 de outubro e o segundo, se necessário, em 19 de novembro.
As notoriamente não confiáveis pesquisas argentinas previam que a coalizão Juntos pela Mudança, de centro-direita, receberia a maioria dos votos divididos entre seus principais précandidatos – o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, um moderado; e a aguerrida ex-ministra da Segurança Patricia Bullrich. Sergio Massa, principal pré-candidato do partido peronista, no poder, deveria receber um terço dos votos, e Milei, um quinto.
Em vez disso, Milei recebeu 30% dos votos válidos, em comparação com 28% de Bullrich e Rodríguez combinados. Os peronistas receberam 27%. Mais surpreendentemente, Milei venceu em 16 das 24 Províncias argentinas.
Milei canaliza a frustração de muitos argentinos com a crônica disfunção econômica. A inflação anual é de 116%, mais alta do que em qualquer outra nação do planeta, exceto Venezuela, Zimbábue e Líbano. Impostos altos fazem muitas empresas operar fora dos registros. Controles sobre capital tornam quase impossível para os argentinos comprar legalmente dólares, moeda em que eles preferem poupar – o que ocasionou um gigantesco mercado clandestino de verdinhas, cujo valor é usado como indicador do estado da economia. Hoje, US$ 1 custa mais de 600 pesos no mercado clandestino, o dobro do que custava um ano atrás (o câmbio oficial é metade disso).
Tudo isso tem tornado Milei, que batiza suas propostas de “Plano Motosserra”, por serem radicais, cada vez mais atraente. Milei quer dolarizar a economia, mas os detalhes de sua estratégia não são claros. Ele promete cortar os gastos, abolir controles monetários e sobre preços e “explodir” o Banco Central. Estas políticas parecem desviar a atenção de propostas mais desconcertantes, como banir o aborto, permitir que os argentinos carreguem armas livremente e legalizar um mercado de órgãos humanos.
ATAQUES. Milei não venceu as primárias em razão de suas políticas, mas por seus ataques contra os políticos. Antes de se eleger para o Congresso, em 2021, ele trabalhava como consultor e professor de economia. Sua personalidade bombástica lhe concedeu status de culto. Ele diz que não penteia o cabelo desde os 13 anos e vive com cinco mastiffs, quatro deles com nomes de economistas.
Quem coordena sua campanha é sua irmã Karina, que ele compara a Moisés. Milei se define como um outsider e vocifera contra o que chama de “casta política”. A Argentina foi mal gerida por governos de esquerda ao longo de grande parte das duas décadas recentes. Mas da última vez que a coalizão Juntos pela Mudança ocupou o poder, o governo também terminou em crise.
Em comícios, os apoiadores de Milei entoam: “Livrem-se de todos eles!”. Se Milei vencer, poderá ser difícil para ele governar. Atualmente, sua coalizão possui apenas 2 dos 257 assentos da Câmara dos Deputados e nenhum no Senado (mas no primeiro turno da eleição, em outubro, 130 assentos na Câmara e um terço no Senado estarão em disputa).
As relações internacionais poderiam ser complicadas. A América Latina é dominada por governos de esquerda, que poderiam ser hostis a Milei, que recebeu apoio de Jair Bolsonaro, ex-presidente brasileiro populista de direita.
PROJEÇÃO. Mas as coisas ainda poderiam melhorar para Milei. Juan Cruz, do Cefeidas Group, uma consultoria de Buenos Aires, considera que a forte votação dele nas províncias significa que ele pode eleger pelo menos 30 deputados.
Vários pesos-pesados se juntaram ao seu time, como Roque Fernández, ex-ministro da Economia de Carlos Menem, e a economista Diana Mondino, que dirigia a divisão latino-americana da agência de avaliação de risco Standard & Poors. Eles “falam a língua que os investidores confiam”, afirma Díaz. Muitos legisladores do Juntos por Mudança provavelmente apoiariam a presidência de Milei.
O caminho para a Casa Rosada é incerto. Não está claro quantos eleitores mais Milei será capaz de atrair, enquanto Bullrich tentará conquistar seus apoiadores. Massa, que teve um quinto dos votos, pode se beneficiar do embate entre os dois atraindo moderados. O aniversário de 53 anos de Milei coincide com o primeiro turno. Seu presente pode ser a tarefa de reconstruir um país falido. •
América Latina é dominada por governos de esquerda que poderiam ser hostis a Milei
Fonte: The Economist / O Estado de S. Paulo


