Por Nikkei Asia, Valor — Pequim
09/03/2023 00h50 Atualizado há 9 horas
Depois de evitar se envolver profundamente na guerra da Rússia na Ucrânia no ano passado, a China repentinamente ofereceu uma proposta de paz no mês passado. A previsão de especialistas militares chineses de que a guerra chegará ao fim neste verão (meados de 2023) provavelmente está por trás dessa reviravolta.
Quando mais de 200 líderes mundiais se reuniram em Munique para a conferência de segurança do mês passado, Wang Yi, o principal diplomata da China, disse aos participantes que a China anunciaria em breve um plano para se tornar um mediador no conflito Rússia-Ucrânia.
“Apresentaremos a posição da China sobre o acordo político para a crise na Ucrânia e permaneceremos firmes do lado da paz e do diálogo”, disse Wang durante o discurso de 18 de fevereiro.
A China revelou formalmente seu plano de paz de 12 pontos em 24 de fevereiro, exatamente um ano antes do dia em que a Rússia lançou sua invasão. A proposta pedia um cessar-fogo antecipado e que ambos os lados reiniciassem as negociações para um acordo pacífico.
O plano em si é prosaico, mas deu a impressão de que a China de repente estava desempenhando um papel ativo.
Pequim não condenou a invasão da Rússia, nem aderiu às sanções econômicas impostas a Moscou. Embora a China tenha pedido um cessar-fogo no passado, sua liderança não está disposta a tomar nenhuma ação concreta.
A razão para a mudança repentina da China pode ser rastreada até um relatório divulgado dois meses antes por um dos principais institutos de pesquisa em Pequim.
A Academia de Ciências Militares (MAS) responde diretamente ao Exército Popular de Libertação. Embora não possa ser encontrada em um mapa, a instituição está localizada no distrito de Haidian, em Pequim, que abriga as ruínas de Yuanmingyuan, um palácio destruído pelos exércitos ocidentais no século XIX.
A AMS emite regularmente recomendações e relatórios para a Comissão Militar Central do Partido Comunista, o mais alto órgão de tomada de decisão para as forças armadas da China. Um funcionário de nível de gabinete dirige a academia.
Em dezembro, a AMS concluiu uma simulação sobre o conflito na Ucrânia, resultando em uma descoberta surpreendente, segundo fontes próximas ao governo chinês. A guerra chegará ao fim por volta do verão de 2023, indicou a simulação, com a Rússia em vantagem.
Tanto a economia russa quanto a ucraniana estariam esgotadas demais para sustentar a guerra após o verão, disse o relatório.
É possível que os resultados tenham sido distorcidos a favor da Rússia para agradar a liderança da China, inclinada para Moscou. Mas, coincidentemente, o pacote de ajuda de US$ 45 bilhões aprovado em dezembro passado nos Estados Unidos também deve expirar neste verão.
Os republicanos agora detêm a maioria na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, e alguns membros do partido estão céticos quanto à generosa ajuda concedida à Ucrânia.
“Não sei o que acontecerá com a ajuda dos Estados Unidos depois de encerrada”, disse um alto funcionário do gabinete do primeiro-ministro japonês.
Os Estados Unidos fornecem metade da ajuda que a Ucrânia recebe. O argumento de que as negociações de cessar-fogo começarão antes que a ajuda seja encerrada não é sem mérito.
Depois de ouvir a previsão do AMS, Pequim elaborou uma proposta de paz a tempo do aniversário de um ano da guerra. Visa atingir três objetivos, incluindo o restabelecimento das relações com a Europa.
O incidente do balão de vigilância chinês causou rachaduras mais profundas nas relações sino-americanas. O Japão se alinhou com os Estados Unidos sobre a questão de Taiwan.
Mas Pequim ainda vê uma chance na Europa. Embora os países europeus estejam expandindo a ajuda armamentista à Ucrânia, alguns na Alemanha, na França e em outros países estão pedindo um cessar-fogo antecipado.
Pequim acredita que a Europa ainda está aberta a investimentos diretos e transferências de tecnologia para a China, e a melhoria das relações com a região levaria a uma recuperação econômica. Diante disso, muitos no governo chinês estão pedindo que Pequim se envolva antes do início das negociações de cessar-fogo.
O segundo objetivo é manter relações amistosas com a Ucrânia. A China comprou um porta-aviões de fabricação soviética através da Ucrânia e remodelou o navio no Liaoning, o primeiro porta-aviões do país.
Mesmo quando a maioria dos países ocidentais atacou a China por relatos de abusos dos direitos humanos, a Ucrânia permaneceu calada sobre o assunto.
“Junto com a Rússia, não podemos perder a Ucrânia”, disse uma fonte do governo chinês. O plano de paz inclui uma provisão para restauração econômica, indicando que a China já está considerando ajuda econômica.
O objetivo final desejado é que a China desempenhe o papel de liderança na obtenção de um cessar-fogo. O presidente chinês, Xi Jinping, está considerando aceitar o convite do presidente russo, Vladimir Putin, para ir a Moscou.
“A visita à Rússia não pode vir muito cedo ou muito tarde”, disse uma fonte bem versada em diplomacia chinesa.
O melhor cenário para Xi seria Rússia e Ucrânia iniciarem as negociações depois que o líder chinês apresentar o plano de paz a Putin. Isso pintaria a China como um verdadeiro interlocutor para um cessar-fogo e a colocaria em uma posição vantajosa para atrair os países do Sul Global para o seu lado, especialmente aqueles que mantêm os Estados Unidos e a China à distância.
Muitos analistas acreditam que a guerra durará por muito tempo porque o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, continua empenhado em reconquistar o território perdido. Os países ocidentais têm criticado cada vez mais a China por supostamente fornecer armas à Rússia.
Se a China falhar em se tornar um pacificador, as ramificações minariam a autoridade e o prestígio de Xi. Resta saber se a atual liderança repleta de partidários de Xi será capaz de uma façanha que requer complexas habilidades de negociação e tenacidade.
Fonte: Valor Econômico
