Enquanto a política fiscal deve concentrar a maior parte da atenção dos investidores ao longo do processo eleitoral, o economista-chefe da Azul Wealth Management (AWM), João Henrique da Fonseca, faz um alerta para outro problema que pode ter graves implicações para a economia. Caso o Brasil perca a janela de oportunidade para atrair data centers, boa parte do processamento de dados que atenderá à crescente demanda associada à inteligência artificial (IA) precisará ser feita fora do país, o que levaria a uma deterioração rápida na conta de serviços e exerceria força relevante de depreciação cambial.
“Claro que o fiscal é importante e não dá para descuidar disso. Mas, no longo prazo, não é só isso que salva. Com a nova revolução tecnológica, você tem duas grandes variáveis que passarão a ter cada vez mais peso nas transações correntes de um país: os modelos de IA e a infraestrutura para processar essas informações”, aponta.
Para ele, o Brasil deveria focar em ampliar sua capacidade de processamento de dados. “Quem é superpotência — no caso Estados Unidos e China — quer dominar esses dois itens. Quem é apenas potência, como Europa e Índia, tentará dominar o processamento de dados e tentar ter alguns bons modelos próprios. Já as demais economias de grande porte, como o Brasil, deveriam focar em, pelo menos, ter grande capacidade de processamento de dados”, afirma.
O Brasil tem exibido uma deterioração no saldo de sua balança de serviços nos últimos anos. Entre janeiro e julho de 2026, o déficit cresceu 8%, de US$ 30,3 bilhões para US$ 32,7 bilhões. Porém, as contas de “serviços de propriedade intelectual” e de “telecomunicação, computação e informações” estão crescendo mais rápido, acima dos 15%, ante o mesmo período do ano anterior.
“Esses itens ainda não são relevantes o bastante para ‘fazer preço’ no câmbio de forma contundente e nem para estourar de vez nosso já grande déficit estrutural nas contas correntes. Porém, não dá para ignorar a trajetória de crescimento e muito menos a velocidade de adesão das empresas e dos consumidores a esses novos serviços tecnológicos”, aponta.
O quadro coloca a discussão sobre data centers como oportuna, em sua visão. Para o economista, como o Brasil não possui escala financeira e tecnológica para desenvolver uma inteligência artificial nacional competitiva, o caminho para amortecer o impacto seria através do fornecimento de processamento de dados para o mundo desenvolvido.
“Neste exato momento, há certa resistência social aparecendo no mundo rico, como mostram as propostas de ‘moratórias’ a novos data centers em alguns estados americanos. É uma janela de oportunidade para economias emergentes se posicionarem para receber esses centros. Se não processarmos dados aqui, teremos que importar processamento de fora. Este seria o pior cenário possível: importar não apenas a propriedade intelectual e a IA, mas inclusive o mero processamento dos dados”, afirma.
Para Fonseca, a janela é curta e, caso não seja aproveitada, pode gerar um quadro de difícil reversão, à medida que os data centers sejam construídos em outros países. “Não vai fechar a conta ter superávit vendendo grãos e minério, mas tendo que importar toneladas de serviços tecnológicos para se manter minimamente competitivo no restante do jogo”, afirma.
Fonte: Valor Econômico


