Os investidores estão apostando que os bancos centrais poderão ser forçados a aumentar as taxas de juros em resposta à guerra no Irã, com o choque nos preços da energia provocando uma revisão drástica das expectativas anteriores de novos cortes.
A expectativa agora é a de que o Banco Central Europeu (BCE) eleve sua taxa básica uma ou duas vezes neste ano, já que a disparada dos preços do petróleo e do gás reacende as pressões inflacionárias, segundo dos níveis implícitos em contratos de swap. Um aumento dos juros pelo Banco da Inglaterra também passou a ser visto como possível até o fim do ano, uma reviravolta em relação aos cortes precificados antes do início do conflito.
Os investidores também começaram a reduzir as expectativas de novos cortes de juros pelo Federal Reserve dos Estados Unidos, o Fed, com apenas um ou dois cortes de 0,25 ponto percentual precificados nos mercados futuros, ante dois ou três previstos antes do conflito.
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Essas apostas refletem a crença de que os formuladores de política monetária aprenderam duras lições com o surto inflacionário que se seguiu à invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, quando a maioria dos bancos centrais foi vista como lenta demais na reação à alta dos preços.
“Estamos vendo uma reprecificação global do risco”, diz Frederik Ducrozet, chefe de pesquisa macroeconômica da Pictec Wealth Management. “Os mercados de bônus acordaram pela manhã com a possibilidade de o preço do petróleo subir não para US$ 100 o barril, e sim para US$ 150, ou mesmo US$ 200.”
As cartilhas tradicionais dos bancos centrais sugerem que eles podem manter a calma e “ignorar” grandes aumentos no preço do petróleo, apostando que custos mais altos acabarão por pesar sobre a demanda do consumidor e atenuar as implicações inflacionárias de longo prazo.
Mas as autoridades foram acusadas de agir devagar demais após a alta dos preços da energia em 2022, o que significa que provavelmente serão mais agressivas ao tentar conter pressões inflacionárias mais persistentes, segundo afirmam especialistas.
“Os bancos centrais estão assustados com a experiência dos últimos anos – olhando em retrospecto, eles gostariam de ter agido mais prontamente diante do aumento das expectativas de inflação”, diz Michael Saunders, assessor econômico da consultoria Oxford Economics e ex-integrante do comitê que define os juros do Banco da Inglaterra.
“Presumo que eles aprenderam essa lição e, em vez de esperar que os efeitos de segunda ordem apareçam, como fizeram da última vez, vão presumir que esses efeitos surgirão e começar a apertar ou afrouxar menos do que fariam em outras circunstâncias.”
Por enquanto, as autoridades do BCE estão alertando para as implicações inflacionárias de um conflito prolongado, mas não sugeriram que uma resposta imediata seja iminente.
Philip Lane, economista-chefe do BCE, disse na semana passada que uma guerra prolongada no Oriente Médio e uma queda persistente na oferta de petróleo e gás da região poderiam provocar um “salto substancial” e uma “forte queda da produção” na zona do euro.
Henry Allen, analista do Deutsche Bank, escreveu em uma nota a clientes ontem que “as autoridades não estão sinalizando uma mudança e ainda não houve qualquer ajuste de política”.
Karsteb Junius, economista do J Safra Sarasin, diz que as expectativas de alta dos juros estão “exageradas” no momento. Ele aponta que o BCE projeta atualmente seis trimestres de inflação abaixo da meta de 2% até o final do ano que vem, o que deixa alguma margem para aumentos mais rápidos dos preços.
Se a guerra no Oriente Médio resultar em um aumento de 15% nos preços do petróleo este ano, isso elevaria a inflação na zona do euro em 0,25 ponto porcentual para 2,1% – nível que ainda estaria “totalmente em linha” com a meta de 2% do BCE no médio prazo, segundo Junius.
Os bancos centrais estão assustados com a experiência dos últimos anos e gostariam de ter agido prontamente”
Antes de EUA e Israel lançarem seus ataques contra o Irã, os investidores apostavam em mais dois cortes nas taxas de juros pelo Banco da Inglaterra neste ano, com outro movimento de redução já precificado para a reunião da semana que vem.
Os mercados agora veem cerca de 30% de chance de o Banco da Inglaterra elevar suas taxas neste ano a partir do nível atual de 3,75%.
A oscilação nos mercados de swaps derrubou o valor dos títulos soberanos de curto prazo, com os rendimentos dos gilts de dois anos subindo mais de meio ponto porcentual desde o início do conflito, para cerca de 4,1%.
Alguns investidores acreditam que o banco central britânico relutará em elevar as taxas de juros durante um choque energético que prejudica o crescimento e eleva os preços. O mercado de trabalho do Reino Unido já está enfraquecendo e a economia mal cresceu no fim do ano passado.
“A economia [do Reino Unido] pode acabar entrando em uma breve recessão”, diz Tomasz Wieladek, extrategista-chefe de macroeconomia europeia da T Rowe Price. “O Banco da Inglaterra está ciente disso e, portanto, provavelmente manterá os juros inalterados em vez de elevá-los neste momento.”
Mas, em 3%, a inflação no Reino Unido permanece bem acima da meta do Banco da Inglaterra, de 2%. Embora as expectativas de inflação das famílias tenham diminuído, o público esperava que os preços ao consumidor subissem 3,3% no próximo ano, antes mesmo da guerra na Irã, segundo uma pesquisa mensal da YouGov para o Citigroup.
O Banco da Inglaterra foi duramente criticado pela demora com que reagiu ao surto inflacionário iniciado em 2021, estimulado inicialmente pelos efeitos posteriores da pandemia e depois pela alta dos preços das commodities, à medida que a guerra na Ucrânia interrompeu o abastecimento. A avaliação de que isso seria “transitório” acabou se mostrando equivocada, já que a inflação chegou a ultrapassar 11% no outono de 2022.
O Banco da Inglaterra vem reformulando suas previsões e sua comunicação, em parte orientado por um relatório contundente do ex-presidente do Fed Ben Bernanke, publicado em 2024, passando a dar mais ênfase à forma como poderia reagir a possíveis “cenários”, e menos à sua projeção central.
As repercussões do conflito no Oriente Médio já estão afetando um número crescente de bancos centrais. Há apenas alguns meses, operadores apostavam que o Banco Nacional da Suíça, cuja taxa básica está em zero, poderia reduzi-la abaixo de zero para lidar com a valorização de sua moeda.
Agora, porém, espera-se uma ou duas altas de 0,25 ponto percentual ainda neste ano. Essa mudança nas expectativas fez os rendimentos dos títulos suíços de dois anos voltarem ao território positivo.
O Banco do Canadá, que era visto como mais propenso a cortar os juros antes do início do conflito no Oriente Médio, também dever realizar uma ou duas altas de 0,25 ponto percentual até o fim do ano, segundo indicam os contratos de swap.
Ducrozet, da Pictet, observa que “a principal variável a se observar” para o BCE serão as expectativas de inflação, citando um discurso na sexta-feira da integrante do conselho Isabel Schnabel, no qual ela enfatizou que “os bancos centrais devem se concentrar em ancorar as expectativas, em vez de tentar ajustar com precisão a atividade econômica”.
“Acredito, e espero, que o BCE simplesmente não faça nada”, diz Ducrozet. No entanto, ele acrescenta que “nada pode ser descartado a esta altura”, já que o BCE ainda sofre um “trauma significativo com o choque inflacionário anterior”.
Fonte: Valor Econômico
