Apesar de 2026 ser um ano marcado pela eleição presidencial no Brasil, que deve elevar a volatilidade e pode pressionar o câmbio doméstico, os investidores veem espaço para o dólar terminar o ano em um nível não muito distante do qual iniciou o período. Nas expectativas da maioria dos agentes econômicos ouvidos pelo Valor, o alívio global do dólar observado em 2025 deve se estender neste ano, ainda que em magnitude menor. E, diante de um ambiente externo ainda favorável, as condições locais, mesmo que adversas, podem ser neutralizadas na formação de preços do câmbio.
Em pesquisa elaborada pelo Valor com 75 bancos, gestoras de recursos e consultorias, a mediana das estimativas aponta para o dólar cotado a R$ 5,50 em dezembro. Caso o resultado se concretize, a moeda americana terá uma valorização leve, de apenas 0,20%, em relação ao fechamento de 30 de dezembro de 2025 (de R$ 5,4887). O movimento, assim, seria muito diferente do observado no câmbio no ano passado, quando o dólar registrou queda de 11,18%.
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O movimento visto no ano passado não era esperado pelos agentes de mercado. No fim de 2024, poucas casas enxergavam espaço para que o dólar voltasse para o nível de R$ 5,50, como terminou 12 meses depois. O estresse visto entre novembro e dezembro de 2024, que levou a moeda americana ao pico nominal de R$ 6,30, havia instaurado um clima de apreensão, com a maioria dos economistas esperando a divisa mais perto de R$ 6 no ano passado.
No começo de 2025, no entanto, uma combinação entre a melhora do ambiente externo e o aumento expressivo da taxa de juros no Brasil levou ao desmonte das apostas contrárias ao real nos mercados de derivativos, o que afetou a formação de preços do câmbio doméstico ao longo do ano.
O BRP foi uma das poucas instituições cuja projeção se aproximou da cotação no fechamento de 2025. O banco estimava no fim de 2024 que o dólar encerraria o ano seguinte cotado a R$ 5,50, e a leitura do presidente e economista-chefe da instituição, Nelson Rocha Augusto, era que não havia razão para que a divisa americana se mantivesse em níveis de estresse, acima de R$ 6.
“Estava evidente que aquilo estava fora de lugar e que haveria uma apreciação [do real]. Mas o câmbio é uma variável de ajuste dentro do tripé de sustentação macroeconômico, então é natural que tenha oscilações maiores em função do desajustes nas outras variáveis, a inflação e o quadro fiscal”, afirma.
Para o fim deste ano, a casa mantém a mesma projeção, de dólar a R$ 5,50, ainda que Rocha não goste de fazer estimativas de fim de período e prefira olhar a média de todo o intervalo de tempo. “É de praxe fazer a projeção do fim de ano, como no relatório Focus, mas se já é difícil acertar câmbio, imagina a cotação específica do último dia do ano. Prefiro o câmbio médio, porque ele interessa mais para a economia real. De todo modo, vemos algo em torno de R$ 5,50 nas duas leituras”, diz.
Entre os fatores, o economista do BRP justifica a projeção com a leitura de que ainda haverá um movimento de desvalorização global do dólar, mas em ritmo mais lento. “O dólar estava no fim de 2024 em um patamar de 15% a 20% acima da sua média histórica. Pela nossa leitura, há ainda um espaço na ordem de 5% a 6% para o dólar [global] voltar à média. Não é que isso necessariamente vá acontecer neste ano, mas é provável”, diz.
Leitura semelhante sobre o movimento global do dólar tem a Rubik Capital, cuja projeção para o câmbio no fim deste ano é de moeda americana ainda mais fraca, a R$ 5,20. “Enxergamos um ciclo positivo para mercados emergentes, que não é de curto prazo. É um ciclo que deve durar de três a cinco anos e que deve se refletir no nosso câmbio”, diz Breno Falseti, sócio e economista da gestora.
“O nosso raciocínio está em linha com o que o investidor estrangeiro olha. Se o investidor de fora quiser comprar Brasil [fazer apostas em ativos brasileiros], o movimento é de dólar para baixo”, aponta Falseti, acrescentando que questões idiossincráticas devem ser importantes para a formação de preços, “mas o maior impacto deve vir da dinâmica global, que deve ser favorável”.
Já a Novus Capital mostra um pouco mais de cautela em relação ao movimento geral da moeda americana neste ano. O economista-chefe da gestora carioca, Tomás Goulart, que adota a cotação da tela em seus modelos, avalia que a trajetória global do dólar irá depender de duas questões ao longo do ano: a política monetária de curto prazo nos Estados Unidos e a dinâmica fiscal global. “Se o novo presidente do Federal Reserve [Fed] for subserviente a Donald Trump, o dólar deve continuar a se enfraquecer no mundo todo. Agora, se for alguém como o [diretor do Fed Christopher] Waller, não vejo um movimento que crie esse enfraquecimento do dólar”, diz.
Ao se referir às dúvidas fiscais nos países desenvolvidos, Goulart lembra que, já no ano passado, houve uma alta dos juros longos globais, indicando que as políticas fiscais estão se deteriorando. “Isso tende a enfraquecer as moedas dos países, porque o investidor reduz sua exposição”, diz. “Só não sabemos se a saída de moedas como o dólar e outras divisas consideradas seguras significa que haverá um redirecionamento para outras moedas ou se para outro ativo, como o ouro”, observa.
Se, por um lado, o ambiente externo até deixa margem para que o dólar passe por uma nova onda de desvalorização em 2026, por outro, há o cenário local, com incertezas em torno da corrida eleitoral, de seu resultado e do impacto que o pleito deve ter na gestão das contas públicas brasileiras – o “calcanhar de Aquiles” dos ativos brasileiros, como o real.
“Como vai ser a política fiscal brasileira a partir de 2027? Vai ser mais expansionista? Vamos ter novas reformas? O que vai responder essas perguntas são as eleições”, diz Goulart. Para ele, a volatilidade cambial deve ficar mais alta até outubro, e a dinâmica do câmbio vai se orientar a depender de quem se apresentar como mais provável vencedor. “O mercado deve ter uma má vontade caso a pesquisa eleitoral indique vitória do presidente Lula; deve ter boa vontade caso a vitória mais provável seja de Flávio Bolsonaro; e uma boa vontade ainda maior caso a vitória indicada seja de qualquer candidato de centro-direita que não Flávio.”
Mas Goulart também reconhece que o período pós-eleitoral pode abrir caminho para uma dinâmica diferente daquela que o câmbio deve ter imediatamente após o resultado. “Sabemos que o mercado pode precificar algo bastante negativo caso o PT vença novamente, mas também sabemos que Lula pode reagir e o cenário mudar.”
Rocha, do BRP, acredita que nem mesmo uma reeleição de Lula deve ser vista como um risco, uma vez que, na sua leitura, um novo governo do petista deve ter enfoque diferente do mandato atual. “Lula tinha uma preocupação com o lado social no começo deste governo, porque, na sua leitura, havia ocorrido uma piora nessa área nas gestões anteriores. Minha convicção é que ele sabe que chegou a um limite e agora irá por um caminho mais parecido com o de seu primeiro mandato”, afirma.
Ainda segundo o economista do BRP, outro ponto importante para o câmbio é o diferencial de juros. “Mesmo com cortes de juros no horizonte, é de se esperar que o juro real continue aumentando porque a inflação tende a cair mais, e isso beneficiará ainda mais o câmbio”, observa.
Para Falseti, da Rubik Capital, com o cenário externo mais favorável e os juros ainda em níveis bastante elevados, só em caso de o Brasil fazer alguma “besteira grande” o câmbio ficaria muito pressionado. “Se não tivesse eleição neste ano, o investidor poderia ficar vendido em dólar o ano inteiro sem problemas”, diz. Para ele, mesmo que Lula vença, se o cenário externo for favorável, pode ser que o ruído pós-eleições não se sustente. “No último ano não tivemos uma melhora na área fiscal e o dólar saiu de R$ 6,15 e encostou em R$ 5,30, em boa parte pelo lado externo”, nota.
Outro fator que deve dar suporte ao real no ano é o comportamento mais duro do Banco Central, conforme aponta Falseti. “Enquanto houver um BC responsável, o fiscal mais solto pode não ser tão problemático para a moeda, a não ser que entremos em uma espiral insustentável. Se houver alguma credibilidade [fiscal], com a autoridade monetária mais firme e o externo favorável, o câmbio tende a ficar bem ancorado.” (Colaboraram Anaïs Fernandes e Marta Watanabe)
Fonte: Valor Econômico
