A decisão do Banco Central (BC) de barrar o acordo entre Master e Banco de Brasília (BRB) deixou poucas opções para a instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro. O desfecho coloca o Master à beira de uma intervenção por parte do regulador e, no limite, de uma liquidação – a não ser que consiga reapresentar a operação ou que encontre um novo comprador em poucos dias, hipóteses que analistas consideram remotas.
Em uma eventual intervenção, o BC afasta os administradores do banco e nomeia um interventor, que entre outras medidas acionará o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para honrar os depósitos da instituição. Esse é um passo drástico, mas natural para casos em que não se encontra uma solução de mercado para um banco em dificuldades. Ou para aqueles em que a solução de mercado representa um risco sistêmico maior que deixar um banco quebrar.
Foi esse o protocolo que o Banco Central seguiu na análise do Master, apesar da pressão política suscitada pela questão. O regulador não deu detalhes sobre sua decisão. O Valor apurou que, entre os problemas encontrados, estavam carteiras sobrevalorizadas.
Se, no processo de intervenção, ficar evidenciada a incapacidade de o banco sobreviver, o Banco Central poderá decretar uma liquidação extrajudicial para promover uma saída ordenada da instituição do mercado.
Dada a estrutura de funding do Master, que cresceu alavancado em CDBs, a conta ficará majoritariamente com o FGC – o que significa dizer que será paga pelos grandes bancos e demais instituições financeiras associadas do fundo.
O Master ainda não divulgou o balanço do primeiro semestre. Dados do sistema IFData, do BC, mostram que ele tinha R$ 62,2 bilhões em depósitos elegíveis à cobertura do FGC. Como a garantia do FGC se limita a R$ 250 mil por CPF/CNPJ, o volume que o fundo de fato pode ser obrigado a desembolsar deve ser menor. Quando o acordo com o BRB foi anunciado, em 28 de março, falava-se em uma fatura de cerca de R$ 50 bilhões que teriam de ser honrados pelo FGC no caso de quebra do banco.
Como a liquidez do fundo é de R$ 107,8 bilhões, se tiver de honrar todos os depósitos do Master, o FGC pode queimar quase metade do que tem no caixa. Nesse cenário, o que tende a acontecer é o FGC elevar alíquotas de contribuição e pedir que os bancos associados paguem à vista o equivalente a cinco anos de aportes. As instituições financeiras contribuem com 0,01% por mês do saldo de depósitos elegíveis. A alíquota pode parecer baixa, mas se for dobrada e a contribuição de cinco anos antecipadas, fontes do setor apontam que isso teria um efeito de alguns bilhões de reais para os grandes bancos.
Só o Itaú Unibanco, por exemplo, poderia ter de desembolsar cerca de R$ 5 bilhões para contribuir com a recomposição do caixa do FGC, de acordo com fontes a par do assunto. Para os demais grandes bancos, a conta também será bilionária. Ou seja, é uma solução sem uso de recursos públicos, mas que pode resultar em um aumento do spread bancário.
O Master cresceu fortemente apoiado na captação de CDBs, atraindo investidores pessoa física ao oferecer papéis com taxas muito acima da média do mercado e cobertas pelo FGC. No entanto, aplicou os recursos em ativos arriscado e pouco líquidos.
O FGC completou recentemente 30 anos e nesse período garantiu os depósitos de 40 instituições que quebraram. Em valores históricos, sem corrigir pela inflação, o maior desembolso foi para honrar os depósitos do Bamerindus, que custou ao fundo R$ 3,7 bilhões em 1997 – cerca de R$ 19,6 bilhões atualmente. Caso tenha de socorrer o Master, será o maior resgate da história.
O Master tem apenas R$ 690 milhões em depósitos à vista, o que o resguarda do risco de resgates em massa. A captação está concentrada em depósitos a prazo. No caso de um CDB, o cliente não consegue resgatá-lo antes do vencimento. Ele pode tentar vendê-lo no mercado secundário, mas fica sujeito à disponibilidade da plataforma e a aceitar o preço oferecido pelo comprador.
Com isso, a urgência do Master está em honrar os depósitos que estão vencendo. Ainda que o grupo não esteja mais captando tantos recursos, os passivos são corrigidos a um custo alto, com alguns CDBs a até 140% do CDI. “Só o CDI está em 15% ao ano, então o custo de carrego é muito alto”, diz uma fonte do setor.
BRB e Master sinalizaram que vão recorrer administrativamente, dentro do próprio BC, para tentar reverter a decisão. Uma possibilidade é que revejam os pontos problemáticos levantados pelo regulador e tentem submeter a operação com um novo formato. Ainda assim, analistas veem chance muito baixa de aprovação. Os bancos têm até dez dias para fazer um pedido de reconsideração.
Vorcaro poderia também tentar encontrar outro comprador. Porém, teria de ser um grupo econômico grande e que conseguisse fechar a operação em um prazo curto, o que não é fácil. O banqueiro esteve ontem na sede do BC em Brasília e uma solução de última hora, embora improvável, não pode ser descartada. Ao longo dos últimos meses, ele chegou a negociar a venda de partes do banco e outros ativos para o BTG Pactual e a holding J&F, da família Batista. Ao BTG, conseguiu vender em maio R$ 1,5 bilhão em uma cesta que incluía participações acionárias, direitos creditórios e outros.
“A chance de um novo comprador é muito baixa. Não há tempo para fazer a devida diligência, especialmente em um balanço complicado como o do Master”, diz um advogado experiente nesse tipo de transação. “A decisão do BC de indeferir o acordo com o Master é praticamente uma ‘pré-intervenção’, é difícil que o próximo passo não chegue ao FGC”, afirma uma fonte graduada do setor bancário. Para ele, o BC foi empurrado pelas circunstâncias a fazer um diagnóstico muito profundo do Master.
Um caminho mais rápido para o banco levantar algum dinheiro, na visão de fontes do mercado, seria ceder carteiras – processo que normalmente é muito mais simples do que a venda de ativos. Isso poderia ser uma solução de curtíssimo prazo, mas aumentaria os desafios no futuro. Além disso, poderia esbarrar na resistência do BC. “O regulador está olhando tudo lá com lupa, analisando qualquer Pix de R$ 100”, diz um interlocutor a par do assunto.
Os últimos dias foram tumultuados para o Master. Primeiro, a megaoperação da Polícia Federal e Ministério Público atacou 40 fundos que supostamente eram usados para lavar dinheiro do crime organizado. Entre os principais alvos estavam Reag e Trustee. Ambas mantêm muitos negócios com Vorcaro e administram boa parte dos fundos do Master.
Depois, uma manobra do centrão para tentar emplacar um projeto de lei que permite ao Congresso demitir diretores do BC escancarou a pressão política do lobby de Vorcaro sobre o regulador e enfrentou forte reação.
Também não pegaram bem as imagens de Vorcaro curtindo férias no verão europeu enquanto seu banco enfrentava uma crise e havia tomado um empréstimo de R$ 4 bilhões do FGC. Ele inclusive teria tentando conseguir mais dinheiro com o fundo nas últimas semanais, nessa linha que é chamada de assistência emergencial de liquidez, mas encontrou as portas fechadas. Procurado, o Master não comentou.
Fonte: Valor Econômico