O CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, afirmou que o banco não vislumbra nenhuma volatilidade desproporcional com as eleições presidenciais. Mas disse que pode haver oscilações no mercado.
“As pesquisas têm saído todos os dias, todo dia tem uma atualização, claramente mostra um cenário eleitoral polarizado, como a gente imaginava, mas ainda com muitas discussões nos próximos meses. Volatilidade pode, sim, acontecer, o mercado tende a antecipar perspectivas futuras e vai depender muito da comunicação dos candidatos”, comentou em entrevista coletiva.
Segundo ele, a volatilidade dos mercados está relacionada especialmente com a trajetória do resultado fiscal, que é um tema que tem pautado boa parte das discussões. “Acho que esse vai ser um bom debate. Qual é a visão do arcabouço? Se ele vai mudar, para quanto? Qual é o tamanho do superávit ou déficit esperado no período?”.
Questionado sobre o caso do Banco de Brasília (BRB), ele disse apenas que, por ser um banco integrante do sistema financeiro, não cabe às outras instituições emitirem opiniões específicas. “Esse é um tema que está sendo acompanhado pelo Banco Central. A mídia tem feito cobertura, a própria governadora [do Distrito Federal, Celina Leão], tem falado bastante, o Nelson [Souza], presidente do BRB, tem falado bastante. Então, eu fico com as informações públicas, que é o que a gente tem agora. Qualquer desdobramento ou evolução do caso, a gente saberá publicamente”.
Desenrola Adimplentes
Maluhy afirmou que banco acompanha de perto os programas do governo federal. Segundo ele, a instituição avalia se há oportunidades no programa Desenrola para trabalhadores informais adimplentes, que contempla clientes com empréstimos em atraso de até 90 dias.
“O Desenrola para inadimplentes foi construído com a Fazenda, por isso o sucesso dele desde o início. Foi feito a várias mãos: sistema financeiro, Fazenda, ministérios envolvidos. Então, foi um sucesso importante”, afirmou. “O [Desenrola] adimplentes não é, necessariamente, adimplentes, porque captura também clientes com atraso até 89 dias. Então, a gente está chamando esse cliente de adimplente, mas ele é um cliente que está no atraso curto. Então, a gente está olhando para ver se aqui tem alguma oportunidade de atendê-lo.”
Em relação ao Desenrola para inadimplentes, o vice-presidente financeiro do Itaú, Gabriel Moura, disse que o banco renegociou R$ 1,1 bilhão em dívidas, com 371 mil clientes atendidos. Segundo ele, o programa gerou impacto de 0,02 ponto percentual (p.p.) na inadimplência.
“Neste trimestre tem um efeito mais extraordinário, que é o Desenrola, que acaba afetando vários dos indicadores de forma mais ou menos não tão relevante. Embora tenha sido imaterial para a gente no todo, […] foi material para as famílias que puderam aderir. Então, a gente focou bastante em atender os nossos clientes.”
Sobre o programa do governo federal voltado à renovação de frotas e à ampliação do crédito para motoristas de aplicativo, o Move Brasil, Maluhy afirmou que o Itaú também avalia os possíveis impactos para sua base de clientes.
“Estamos querendo entender os impactos, fazendo conta de qual é o tamanho, enfim, o potencial, o perfil dos nossos clientes, se tem realmente demanda. A gente sabe que esse programa está sendo construído, mas a gente está sempre avaliando. A gente ainda não tomou uma decisão.”
Inadimplência de pessoa física
Segundo Maluhy, pelos indicadores atuais, não há perspectiva de deterioração da inadimplência em pessoa física. Onde o banco espera um leve aumento é em pequenas e médias empresas (PMEs), em função do fim da carência dos programas federais. Com isso, a inadimplência em PMEs, que está em 2,0%, deve subir para algo perto de 2,1% no próximo trimestre e se estabilizar nesse patamar.
“Quando as carências vencem, o atraso começa a vir, então o numerador começa a crescer e o denominador já estava com a carteira sensibilizada. Então ele tende a começar a subir”, disse. “Mas é um atraso garantido. Então, o banco não vai ter a perda, por isso que ele não vira provisão. Tem atraso, mas, como tem garantia, não vira provisão. O atraso, sim, mostra esse efeito, mas é puramente mecânico. Não é um sinal, em hipótese alguma, de deterioração do portfólio, apesar de um cenário, um ambiente mais desafiador”.
Ele explicou que o grande efeito do fim do regime de carência nos programas governamentais ocorrerá no próximo trimestre.
Carteira de crédito
O crescimento da carteira de crédito do Itaú “deve ficar acima do ponto médio do ‘guidance’”, afirmou Maluhy. A carteira expandida da instituição chegou a R$ 1,522 trilhão no segundo trimestre de 2026, com alta de 9,6% em um ano. O ‘guidance’ prevê crescimento entre 5,5% e 9,5% em 2026 ante 2025.
O ritmo de expansão deve perder força nos próximos trimestres em razão da saída do Itaú da Colômbia. Como mostrou o Valor na segunda-feira (3), o banco concluiu a transferência de ativos na Colômbia e no Panamá para o Banco de Bogotá, em uma transação de R$ 2,5 bilhões. A operação abrange aproximadamente R$ 9,7 bilhões em carteira de crédito (líquida de provisões) e R$ 7,2 bilhões em depósitos.
“Ao longo dos próximos trimestres haverá uma leve redução [no crescimento da carteira], mas deve ficar ainda acima do ponto médio do ‘guidance’, disse.
Já em relação à margem com clientes, que cresceu 5,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, para R$ 32,557 bilhões no segundo trimestre de 2026, Maluhy afirmou que o desempenho da margem de ativos está “absolutamente em linha com a carteira”. Segundo ele, a margem de passivos registrou uma “aceleração importante” nos últimos anos, impulsionada pelo aumento das taxas de juros. O ‘guidance’ do Itaú prevê crescimento entre 5,0% e 9,0% da margem com clientes.
“Quando a gente olha para os próximos dois trimestres, a nossa expectativa é que o ‘range’ que está aqui [no ‘guidance’] ainda comporta a nossa melhor visão e projeção. É claro que vai depender de atividade, vai depender de uma série de fatores, mas a gente pode ver alguma volatilidade na margem entre o terceiro e o quarto trimestre, mas em função dessa sazonalidade das operações estruturadas do atacado, que tendem a vir mais fortes no quarto trimestre”, explicou.
Fonte: Valor Econômico


