O Comitê de Investimentos do Itaú Private Bank promoveu duas mudanças em suas recomendações táticas ao longo de julho e, com elas, passou a operar sem qualquer desvio relevante em relação às carteiras estratégicas. O banco reduziu a recomendação de ações americanas de acima do neutro para neutra e elevou a de Treasuries americanos de abaixo do neutro para neutra — movimento que, somado às posições já neutras nas demais classes, deixa todas as visões táticas alinhadas ao benchmark.
Segundo a Carta Mensal de Investimentos de agosto, assinada pelo estrategista-chefe de investimentos Thomas Wu, a decisão não expressa ausência de opinião, mas uma escolha ativa: aos preços atuais e diante das informações disponíveis, o comitê não identificou compensação suficiente para sustentar desvios em relação aos portfólios estratégicos. O resultado, avalia o banco, são carteiras com mais equilíbrio e maior flexibilidade para responder aos próximos eventos.
Três acontecimentos concentrados em poucas semanas explicam a revisão, cada um deles atuando sobre uma dimensão distinta da avaliação das empresas de tecnologia: o lançamento de um novo modelo de inteligência artificial pela chinesa Moonshot AI, a segunda reunião de Kevin Warsh no comando do Federal Reserve e a piora do quadro macroeconômico provocada pela persistência do conflito no Irã.
Nova pergunta para a inteligência artificial
O Kimi K3, lançado pela Moonshot AI em 16 de julho, reeditou o chamado “momento DeepSeek” do início do ano passado. O modelo ainda fica atrás dos sistemas proprietários mais sofisticados, mas voltou a se aproximar deles em diferentes tarefas, sinalizando que as restrições de acesso a chips avançados encarecem, mas não interrompem, o avanço chinês.
O elemento novo, aponta a carta, foi a liberação dos pesos do modelo. Ao tornar públicos os parâmetros internos, a Moonshot permitiu que outras empresas baixem, adaptem e operem o sistema em sua própria infraestrutura. Isso não elimina os custos — data centers, energia, equipamentos e profissionais especializados continuam necessários —, mas pode alterar quem captura o valor econômico, deslocando parte da receita do proprietário do modelo para infraestrutura, nuvem, implementação, customização e aplicações setoriais.
Para a bolsa, o banco entende que a expansão da inteligência artificial não foi colocada em xeque; o que passou a ser questionado foi tanto a distância tecnológica entre Estados Unidos e China quanto a parcela dos lucros futuros que as atuais líderes americanas conseguirão reter. A disputa, escreve Wu, não é apenas sobre qual empresa produzirá o modelo mais inteligente, mas sobre qual será o padrão dominante da indústria — poucos modelos proprietários cobrando por resposta ou modelos abertos sobre os quais milhares de empresas construirão produtos próprios. A pergunta relevante passou a ser “quem ficará com a maior parte do valor criado por ela?”.
Fed pressiona a taxa de desconto
Na reunião de 29 de julho, a segunda de Warsh como presidente do Fed, a mensagem foi essencialmente a mesma da estreia: a inflação segue acima da meta, a estabilidade de preços é prioridade e o banco central entregará inflação mais baixa. Faltaram, no entanto, os detalhes que o mercado esperava sobre como esse objetivo será alcançado. Warsh criou cinco grupos de trabalho para estudar diferentes dimensões da política monetária, mas ainda não apresentou uma função de reação clara — quais dados levariam o Fed a subir juros, quando e por quais canais o aperto atuaria.
A manutenção da taxa no intervalo de 3,50% a 3,75% contou com três votos favoráveis a uma alta imediata, dispersão incomum dentro do comitê. A curva refletiu a confusão: os juros curtos caíram, com o mercado reduzindo a probabilidade de aperto imediato, enquanto os longos subiram, exigindo maior remuneração para carregar risco de inflação futura. O juro de dois anos avançou 15 pontos-base, contra altas de 32 e 37 pontos-base nos vencimentos de 10 e 30 anos, num movimento clássico de steepening.
O efeito alcançou a renda variável. Empresas de crescimento que sacrificam caixa presente em troca de resultados distantes — sobretudo as que investem grandes volumes em chips e data centers — perdem valor presente quando as taxas longas sobem. As ações de tecnologia recuaram no mês, enquanto o S&P 500 terminou praticamente estável, mas em campo negativo. No câmbio, a menor probabilidade de aperto imediato enfraqueceu o dólar frente a diversas moedas, entre elas o real, que se valorizou 2,9% no mês.
O choque que não termina
Ao fim de junho, a trégua no quarto mês do conflito entre Estados Unidos e Irã ainda permitia contar uma história de normalização. Agosto começou com a guerra no sexto mês, ataques retomados e alcance ampliado a mais países e rotas de transporte. A carta destaca que a duração de um choque de energia pode importar mais que sua magnitude: basta que a normalização nunca se consolide para que empresas e consumidores incorporem custos elevados de forma persistente, com repasse defasado da gasolina para fretes, embalagens, matérias-primas e, por fim, bens e serviços. Bancos centrais, nesse cenário, ficam com menos espaço para responder à desaceleração.
Nos Estados Unidos, o PIB do segundo trimestre confirmou economia sustentada por consumo e investimento, com inflação em alguma moderação após meses pressionados. Na Europa, o PIB surpreendeu positivamente, mas a nova aceleração da inflação recoloca o dilema do BCE entre riscos baixistas para atividade e altistas para preços. Na Ásia, o Banco do Japão manteve sinais de altas graduais, enquanto o PIB chinês desacelerou e o Politburo reconheceu maiores dificuldades sem indicar urgência por novos estímulos.
Em crédito global, o banco manteve posição neutra: fundamentos razoáveis, mas spreads apertados e proteção limitada. Em high yield americano, apesar de inadimplência agregada contida, há sinais de estresse mais visíveis em CCC e small caps. Em ações de mercados emergentes, a concentração em Coreia do Sul, Taiwan e no bloco de semicondutores e IA impede ampliação de risco, mesmo com valuations mais atrativos.
Brasil: prêmio maior, postura inalterada
No mercado local, a combinação de atividade resiliente, inflação corrente melhor na margem e expectativas de longo prazo ainda desancoradas mantém a política monetária em terreno cauteloso e restritivo. Os dados recentes de inflação vieram com composição mais benigna, inclusive nos núcleos de serviços, mas sem alterar a piora das expectativas em horizontes mais longos. A trajetória fiscal ascendente projetada pelo mercado segue como principal restrição a uma queda mais duradoura da Selic.
O banco manteve alocação neutra em prefixado e juro real mesmo diante do aumento de prêmio, sem enxergar assimetria que justifique elevar duration: a Selic alta encarece o custo de oportunidade de prazos longos e a falta de visibilidade sobre questões estruturais reduz o incentivo a adicionar risco. No câmbio, a leitura é mais equilibrada — o desafio fiscal expõe a moeda à volatilidade, mas juros reais elevados, carrego do CDI e melhora das contas externas ligada ao petróleo limitam uma visão negativa para o real.
Em ações brasileiras, a postura segue neutra. Resultados corporativos sem surpresas positivas relevantes, índice dependente de poucos nomes e juros domésticos altos restringem a expansão de múltiplos, e o desconto do valuation frente à média histórica, isoladamente, não basta para ampliar exposição.
Fonte: Itaú Private Bank — Carta Mensal de Investimentos, Agosto/2026, Comitê de Investimentos; texto assinado por Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos.


