O teor da mensagem era extremamente necessário. Apesar das promessas de reformar a maior economia da América Latina – e das grandes expectativas quanto a um grande pacote de transição verde em agosto -, o governo esquerdista de Lula até agora trouxe uma sensação decididamente “retrô”.
Desde uma estratégia setorial baseada em subsídios e em impulsionar a indústria até uma política externa que reafirma em alto e bom som a posição do Brasil de não alinhamento a nenhum bloco internacional, muitas das políticas que distinguiram o governo trouxeram ecos de uma era passada, segundo críticos, que defendem uma abordagem mais moderna.
“Nosso presidente quer impor uma agenda da esquerda ultrapassada, dos anos 70”, disse Sérgio Werlang, que foi diretor do Banco Central e hoje é professor da Fundação Getulio Vargas. “Nos dias de hoje, isso simplesmente não faz sentido.”
As tentativas do governo para impulsionar a indústria, um setor que encolheu de 48% da produção econômica em 1985 para menos de 24% hoje, são as que vêm ganhando mais destaque. No entanto, em vez de enfrentar as raízes do declínio industrial – os baixos níveis de educação, a logística cara e a burocracia pesada -, Brasília tem se concentrado em distribuir benefícios.
Entre junho e julho, o governo gastou R$ 650 milhões (US$ 135 milhões) para subsidiar a venda de 125 mil dos chamados “carros populares” para cidadãos sem rendas muito altas. O pacote foi uma tentativa de incentivar a produção de carros, fonte de uma sangria de empregos nos últimos anos, mas o impacto foi passageiro.
Como se para salientar a futilidade da estratégia, o pacote foi lançado ao mesmo tempo em que a Volkswagen anunciava uma suspensão da produção no Brasil, atribuindo a decisão à estagnação do mercado. Isso veio na esteira de interrupções já anunciadas neste ano por General Motors, Stellantis e Hyundai, entre outras.
Brasília informa que pretende gastar US$ 20 bilhões nos próximos quatro anos para fortalecer a indústria, com foco no apoio à “inclusão socioeconômica [e] na promoção de bons empregos e salários melhores”. Para alguns, esse foco está mal orientado.
“Eles acham que isso vai preservar mais empregos e que esses empregos são importantes para o crescimento. Mas essa é a mentalidade dos anos 70, quando a indústria era importante na geração de empregos. Agora não. O mundo tem se reorientado em direção aos serviços”, disse Werlang.
As crenças políticas de Lula podem, muitas vezes, ser remontadas a seus anos de formação como ativista sindical nas décadas de 1970 e 1980 – período em que a indústria era um pilar do crescimento.
Muitos dos que estavam ao redor de Lula nesses anos ainda exercem influência hoje, mais notavelmente Aloizio Mercadante, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores com Lula em 1980. Atualmente, ele é ponta de lança da iniciativa de “neoindustrialização” do Brasil como chefe do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
“Vejo o governo carente de novas ideias. Estamos vendo o Partido dos Trabalhadores de mentalidade antiquada [com] ideias de um mundo antigo, quando o Estado tinha mais poder”, disse Bruno Carazza, professor da Fundação Dom Cabral e colunista do Valor.
Carazza diz que a mentalidade retrô do governo fica mais evidente em sua política externa, em especial com sua perspectiva de Guerra Fria a respeito da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Enquanto enfatiza o status não alinhado do Brasil, Lula diz que a Ucrânia tem tanta responsabilidade quanto a Rússia pelo conflito e critica o líder ucraniano Volodymyr Zelensky por “querer a guerra”.
“Isso mostra Lula prestando homenagem a uma visão obsoleta da Guerra Fria, quando a Ucrânia era considerada um satélite da Rússia e que, assim, os russos estavam legitimados em invadir”, disse Carazza.
Uma notável exceção à tendência retrô do governo é Fernando Haddad, que surpreendeu a comunidade empresarial desde sua nomeação como ministro da Fazenda. Apesar de sua longa lealdade a Lula, Haddad tem encontrado um equilíbrio delicado para conciliar os interesses do Partido dos Trabalhadores com as demandas do mercado por reformas e disciplina fiscal.
Em especial, ele tem ajudado a conduzir uma reforma tributária, defendida de forma generalizada e há muito aguardada, que poderia ser aprovada pelo Congresso ainda em agosto.
A reforma, que, segundo projeções, impulsionaria o crescimento de longo prazo a até 2,4%, chega em meio a um panorama cada vez mais otimista para a economia, com as previsões de expansão do PIB tendo sido incrementadas para 2,2%.
Muito disso é impulsionado pela força do setor de agronegócios, e não por qualquer tipo de política industrial ou governamental. Mas se a vida começar a melhorar para os brasileiros, Lula assumirá o crédito, bem no estilo retrô.


