Por Fabio Murakawa — De Brasília
23/08/2023 05h01 Atualizado há um dia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nessa terça-feira que o New Development Bank (NDB) – o chamado “banco do Brics” – pode ser “muito maior” que o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ele também defendeu o ingresso da Argentina a criação de “uma moeda de comércio exterior” para os integrantes do grupo, reduzindo a dependência do dólar.
Lula afirmou que o dinheiro emprestado pelo FMI “é quase um cabresto”, que prende o país e dificulta a saída da crise financeira. “A gente pode ver isso na situação da Argentina. Como está difícil por causa do empréstimo que foi feito por causa de interesse político do FMI”. Apesar das críticas do petista, a Argentina anunciou no mês passado um pacote cambial para ajudar a destravar justamente um acordo de refinanciamento da dívida do país junto ao Fundo.
Além da Argentina, o Brics pode receber países como Arábia Saudita e Indonésia. Os líderes do Brics e seus chanceleres podem anunciar a ampliação do grupo na quinta-feira. Mas tudo vai depender da definição dos critérios e de posicionamentos políticos que cada um deve tomar.
Lula deu as declarações em seu programa semanal “Conversa com o Presidente”, gravado na cidade sul-africana de Joanesburgo, onde ocorre o encontro de cúpula do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
O banco dos Brics foi criado em 2014, quando os integrantes do grupo se reuniram em Fortaleza. A instituição surgiu como um contraponto aos organismos multilaterais de crédito, entre eles o FMI.
Com sede em Xangai, o NDB é hoje presidido pela ex-presidente Dilma Rousseff. A carteira de empréstimos do banco é de US$ 32,8 bilhões. Em 2021, segundo o relatório anual mais recente, os desembolsos chegaram a US$ 7,6 bilhões.
No programa, Lula defendeu o protagonismo da instituição e sugeriu critérios para concessão de crédito que não “sufoquem” os países devedores – uma referência às exigências de ajuste fiscal normalmente feitas pelo FMI ao socorrer nações com problemas.
“A gente quer criar um banco muito forte, que seja muito maior do que o FMI. Mas que tenha outro critério para emprestar dinheiro para os países. Não de sufocar. Mas de emprestar na perspectiva de que o país vai criar condições de investir o dinheiro, se desenvolver e pagar, sem que o pagamento atrofie as finanças do país.”
Lula também defendeu a adoção de uma moeda comum a ser usada nas transações entre os países do grupo, um dos principais temas do encontro na África do Sul. O assunto também tem sido alvo de estudos no contexto da relação entre o Brasil e a Argentina.
“A gente não pode depender de um único país que tem o dólar, que bota a maquininha para rodar o dólar, e nós somos obrigados a ficar vivendo da flutuação dessa moeda. Não é correto”, disse o presidente brasileiro. “Antigamente era o ouro. Ninguém discutiu que o ouro ia deixar de ser moeda referência. Simplesmente, tiraram.”
Em outra frente, Lula disse durante a live que tentará convencer Rússia e China a apoiar a entrada do Brasil e dos demais países dos Brics no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Na fala, ele atrelou esse gesto à possibilidade de entrada de novos países no grupo, composto também por Índia e África do Sul.
“O Brics tem quatro países e só dois são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. É importante que a gente convença a Rússia e a China de que Brasil, África do Sul e a Índia possam entrar no Conselho de Segurança da ONU”, afirmou o petista.
Lula se disse ainda favorável à entrada de novos países no Brics que, para ele, não pode ser um grupo fechado.
“Eu acho que o Brics tem grande possibilidade de ampliação. O Brics não pode ser um clube fechado. O G7 [grupo de sete grandes economias] é um clube fechado, em que a Rússia entrava por causa das armas nucleares que tinha.”. (Com agências de notícias)
Fonte: Valor Econômico


