A leitura da Legacy Capital de que a eleição seria mais apertada do que sugeriam as pesquisas se confirmou nas urnas. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos, resultado que contrariou a maior parte das pesquisas divulgadas nos últimos dias antes da votação. O desempenho coloca o senador no cenário que a gestora considerava mais favorável: antes da votação, a casa trabalhava com probabilidade próxima de 85% de vitória de Flávio no segundo turno caso ele terminasse o primeiro até 2 pontos atrás de Lula ou com resultado ainda melhor.
“Se o Flávio vier 2 pontos atrás ou melhor, a leitura no mercado será de que ele poderá ganhar — e até com alguma facilidade”, havia afirmado Felipe Guerra, diretor de investimentos (CIO) da Legacy, ao Valor. Com Lula mais de 4 pontos à frente, segundo ele, seria difícil reverter.
Na reta final da campanha, a gestora deixou de lado a tentativa de escolher qual ativo brasileiro andaria mais e aumentou a aposta direcional no país. Antes do primeiro turno, distribuiu o risco em partes iguais entre juros, câmbio e bolsa, um “kit Brasil” montado para um evento que, na visão de Guerra, tenderia a falar mais alto que as diferenças entre os mercados. “A gente calibrou um ‘kit Brasil’ sem querer escolher muito se é melhor o pré [juro prefixado], a bolsa ou o câmbio. Um terço, um terço, um terço do risco espalhado”, disse. Diante de um resultado binário, explicou, escolher demais entre os ativos faria pouca diferença: “É tudo piorar ou tudo melhorar.”
A posição, descrita como “otimista”, foi calibrada a partir de cenários para diferentes distâncias de votos entre os candidatos, convertidas em movimentos potenciais de bolsa, câmbio e juros medidos em “sigmas”, ou seja, a intensidade do movimento em relação à volatilidade usual de cada ativo. A ideia era não se assustar caso a eleição fosse para o outro lado. O mercado reagiu na direção esperada pela gestora: na manhã desta segunda-feira (5), o Ibovespa chegou a saltar 9,10%, aos 209.605,70 pontos, na máxima intradia.
O modelo da Legacy, baseado entre outros fatores na rejeição a incumbentes, apontava probabilidade de reeleição de Lula “da ordem de uns 35%”. “Uma eleição normal seria uma eleição fácil para o Lula”, afirmou Guerra, citando desemprego e inflação em níveis que deveriam favorecer o presidente. “Mas, mesmo com índice de miséria baixo, com desemprego baixo, ele tem uma rejeição muito alta. Existe um cansaço com relação a ele.” Flávio também enfrenta rejeição elevada, mas, para o gestor, “é uma rejeição herdada, que não é uma rejeição conquistada”, o que permitiria ao senador se apresentar como um nome mais moderado.
Voto útil e abstenção eram as duas variáveis centrais da conta da gestora. Guerra avaliava que os votos concentrados nos candidatos menores deixavam espaço para uma migração que beneficiaria mais Flávio, lembrando que eleições anteriores registraram transferência de votos na última hora, e que uma abstenção mais alta também tenderia a favorecer a direita. Esses fatores ganham peso agora no segundo turno, já que os votos dos demais candidatos, majoritariamente de direita e centro-direita, estarão em disputa.
Passada a eleição, a atenção do mercado deve migrar para a condução da política fiscal. Para Guerra, o próximo governo enfrentará um ambiente externo menos tolerante a desequilíbrios nas contas públicas, mas o prazo concedido a cada candidato pode ser diferente. “Talvez o mercado dê o benefício da dúvida para o Flávio, porque é uma coisa nova”, disse. Com Lula, “a cobrança vai ser um pouco mais imediata. Ele já é o presidente. É uma continuidade.”
Em um eventual quarto mandato do petista, o gestor espera alguma reação fiscal, provavelmente com maior peso sobre receitas. “Acho que alguma coisa eles vão fazer.” Caso contrário, os próprios preços se encarregariam da cobrança, com câmbio mais depreciado, juros ainda mais altos e menor espaço para cortes na Selic.
Fonte
Valor Econômico — entrevista com Felipe Guerra, CIO da Legacy Capital, concedida antes do primeiro turno; resultados eleitorais e reação do Ibovespa via ADVFN e Money Times (05/10/2026)



