O investidor que encarou ativos de maior risco no Brasil de janeiro para cá, mesmo com a Selic nas alturas, tem motivos para comemorar. O pós-tarifaço do presidente americano Donald Trump, que tem espalhado incertezas com suas idas e vindas na guerra comercial, teve como efeito colateral uma descompressão das taxas futuras de juros reais e nominais locais, dos preços das ações e também do real.
Até o dia 29, o Ibovespa subia 3,7% em abril e 12,3% no ano. O referencial de “small caps”, de empresas de menor capitalização na bolsa, avançava 8,3% e 18,0%, respectivamente, enquanto os índices setoriais imobiliário (com altas de 10,0% no mês e 29,3% no ano) e de empresas ligadas ao consumo (12,4% e 21,5% na mesma base de comparação) lideravam o bloco da renda variável. Lá fora, o S&P 500 perdia 0,9% no mês e 5,5% desde janeiro.
Na renda fixa, era o IRF-M, índice da Anbima que representa uma cesta de títulos do Tesouro prefixados, que tinha o melhor desempenho, com ganhos de 2,7% no mês e de 7,5% no ano. O IMA-B 5, de papéis com vencimento em até cinco anos que pagam a correção pelo IPCA mais um prêmios de juros, subia 1,7% e 4,9% nessas mesmas janelas. O real também se valorizou, com o dólar cedendo 1,3% no mês e 8,9% no ano. Mas o ouro, reconhecido como uma salvaguarda para tempos de crise ou alta inflacionária, subia 4,6% no mês e 15,9% no ano.
O ponto fundamental é que tem aumento do nível de incerteza, isso conversa com volatilidade”
Será que o tal “kit Brasil” está de volta ao jogo?
“Se olhar para o retrato no início do mês, ninguém imaginava que ia terminar do jeito que terminou”, diz Sigrid Guimarães, sócia-fundadora da Alocc Gestão de Patrimônio. “No ‘Liberation Day’ – quando Trump detalhou o seu plano tarifário -, o mercado americano ficou super volátil, chegou a flertar com o ‘circuit breaker’ e o caos e termina com o S&P500 caindo 1%, a bolsa brasileira subindo, o dólar caindo e os juros fechando [recuando]. O que deu para ver é que o Brasil está bem posicionado para esse cenário.”
Como os investidores da Alocc têm muita exposição a ações, por meio de um fundo que compra cotas de carteiras de gestão ativa, ela teve o termômetro disso bem de perto. “Tem gestora com retorno de 10% a 13% real. O mês de abril é sobre isso.”
Com a valorização das companhias que compõem o Ibovespa, o múltiplo preço/lucro (P/L, que dá uma ideia do prazo de retorno do investimento) agora é negociado a 9 vezes, de 7 antes do recente ciclo de alta. “Os ativos reais são bons e as pessoas estão desacreditadas da bolsa brasileira. Quando a gente analisa as empresas, pensa ‘isso não é possível’, se voltarem para a média, dá para esperar novas valorizações, quem estiver bem posicionado vai se beneficiar.”
Se antes a recuperação estava concentrada no índice, agora há mais setores performando e os gestores estão praticamente sem caixa, afirma a sócia da Alocc. “Os preços estão extremamente vantajosos, se o investidor souber identificar quais são as boas, num mercado melhor tem tudo para tirar proveito dessa situação.”
Para Fabio Zaclis, chefe de multimercados macro da Daycoval Asset Management, a bolsa brasileira se beneficiou em alguma medida do deslocamento de recursos do mercado americano porque segue com múltiplos muito descontados em relação aos pares. “O país sempre aparece no mapa dos investidores estrangeiros pelo aspecto do ‘valuation’ [valor justo para os ativos], mas não é ainda uma história isolada de Brasil, não está ligado ao ciclo de juros e nem há migração de recursos do varejo”, diz. “A gente deve ver mais disso mais em função do global do que do local.”
Num ciclo econômico de juros em alta e sem nenhuma mudança no campo fiscal, não dá para se falar em melhora de fundamentos, avalia. O dinheiro, que estava empoçado nos Estados Unidos, tem rumado para outras moedas centrais (euro, franco suíço, iene) e para emergentes importantes, entre eles o Brasil, continua Zaclis.
Depois de uma virada de ano de maior estresse com ativos brasileiros, com taxas futuras de juros esticadas e o dólar rompendo a casa dos R$ 6, “muito dessa volta tem mais a ver com o movimento internacional do que relacionada a questões aqui”, diz.
O que mudou de fato do fim do ano para cá foi a percepção sobre o Banco Central (BC) após Gabriel Galípolo suceder Roberto Campos Neto. “O que se viu foi uma alta da Selic combinada com uma comunicação sólida em relação à visão da inflação e ancoragem das expectativas, de precisar subir juros porque está preocupado com a meta de inflação”, diz Zaclis. “Daí sim, isso explica parte do alívio [nos preços] e um movimento de ‘risk on’ [pró-tomada de risco].” A discussão, reconhece, é se esse movimento é sustentável adiante.
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Ele diz que os juros reais tinham o maior prêmio, especialmente na estratégia de inflação implícita – o diferencial entre os prefixados e os títulos atrelados ao IPCA. “A gente viu a curva de juros locais a prêmios históricos como em poucos momentos, quando se compara à meta do BC ou ao Focus [boletim do BC que coleta projeções do mercado]”, afirma o gestor da asset do Daycoval.
Zaclis diz que diante de estímulos fiscais e parafiscais no radar, com mais crédito e subsídio, seja via bancos públicos ou novas modalidades – a exemplo do consignado privado -, o BC vai continuar nessa toada de elevar os juros para levar a inflação para a meta no horizonte que considera relevante. Qualquer inversão depende de efeitos na inflação corrente. Quando se olha para as projeções 12 meses à frente, o IPCA ainda roda entre 5,5% e 5,70%, enquanto o objetivo da autoridade monetária é de 3%.
Algum efeito externo pode vir da política tarifária de Trump, nos EUA, que “chacoalhou bastante os mercados e ajudou a ancorar as expectativas diante de uma atividade global que deve ser mais baixa”, continua o gestor do Daycoval. O preço das commodities pode auxiliar neste trabalho.
Carlos André, presidente da Anbima, diz que é difícil ainda entender qual o impacto das medidas de Trump no mercado internacional e nos preços dos ativos domésticos. “O ponto fundamental é que tem aumento do nível de incerteza, isso conversa com volatilidade e quando não se tem visibilidade do que vai acontecer é muito difícil tomar decisões de investimentos e também ter uma precificação de ativos mais confiável. A palavra de ordem é a incerteza.” Nesses momentos, o investidor se apega à renda fixa tradicional, mas ele acha que é algo “circunstancial”.
Bruno Funchal, principal executivo (CEO) da Bradesco Asset Management, diz ter um otimismo cauteloso com o ciclo monetário. “Talvez o período de dificuldade imposto pela guerra tarifária com impacto para crescimento global antecipe o nosso ciclo de queda [de juros].”
Para quem se propôs a diversificar os investimentos lá fora, abril foi um mês mais volátil do que a média, mas isso não quer dizer que ter uma parcela mais relevante da carteira no exterior seja um mau negócio, diz Caio Fasanella, diretor e chefe de investimentos da plataforma de serviços financeiros Nomad.
“Com a desvalorização significativa do real nos últimos anos, o brasileiro perdeu riqueza e poder de compra globalmente e a tendência de longo prazo é essa porque o país tem desafios fiscais e uma inflação estruturalmente mais alta do que nos Estados Unidos”, afirma. “Quem tinha no passado uma carteira globalizada vem colhendo os benefícios da diversificação.”
O executivo reconhece, contudo, que o investidor que fez aplicações mais recentemente no exterior está sentido na pele a volatildade desde o início do mês, quando Trump anunciou o seu plano de taxação de bens importados. “É uma correção natural dentro de um ciclo mais longo, só de altas”, diz Fasanella.
Três semanas após o anúncio, a percepção é que não há alternativas claras de investimentos aos EUA ou ao dólar. “Continua sendo o porto seguro, é para onde os investidores, mesmo com solavancos, vão correr, para a moeda ou para os títulos do Tesouro.”
Já o Brasil vive um momento particularmente diferente ao dos EUA, com uma trajetória de inflação em alta há mais tempo e com alívio da pressão cambial, após os R$ 6,20 do fim de 2024. “A taxa real de juros segue super alta, em níveis que só se viu há dez anos, na época do impeachment da [ex-presidente] Dilma [Rousseff]”, afirma Fasanella. “Para o brasileiro tem um cenário mais claro para investimentos em relação à renda fixa sem correr muito risco, seja em títulos pós-fixados, ou [Tesouro] IPCA+, dada a diminuição da inflação.”
Ele diz ter, contudo, um pé atrás com os prefixados, apesar de as taxas também estarem próximas das suas máximas. Como não há clareza se o governo está de fato preocupado com a situação fiscal, o melhor é evitar. “Com a eleição em 2026, há preocupações com o rumo dos gastos públicos podendo botar mais pressão sobre a inflação, é uma classe que pode sofrer mais.” Já a bolsa precisaria de um gatilho para ter valorizações mais consistentes.
Fonte: Valor Econômico
