O primeiro e por enquanto único debate da disputa presidencial entre a vice-presidente Kamala Harris, democrata, de 59 anos, e o ex-presidente Donald Trump, de 78, se destacou pela discussão mais dinâmica e acalorada entre os candidatos. Kamala assumiu a postura de promotora e colocou o ex-presidente na defensiva em questões como aborto, imigração, insurreição e política externa.
Os candidatos começaram tentando aparentar calma e disciplina. O clima cordato em que se cumprimentaram com um aperto de mão durou até a primeira pergunta feita pelo mediador: “Você acredita que os americanos estão melhor do que há quatro anos?”
“Fui criada como uma pessoa de classe média, e sou, na verdade, a única pessoa neste palco que tem um plano que é sobre levar oportunidade econômica à classe média e aos trabalhadores dos EUA”, disse Kamala. “Meu adversário, por outro lado, tem o plano de fazer o que ele fez antes: cortar impostos para bilionários e grandes corporações, o que resultará em US$ 5 trilhões de déficit.”
Em sua réplica Trump repetiu os ataques que tem feito a Biden e a Kamala desde o início da campanha. “Tivemos uma economia terrível porque a inflação é realmente conhecida como um destruidor de países. Nós temos uma inflação como poucas pessoas já viram antes, provavelmente a pior na história da nossa nação”, disse o republicano. A afirmação foi classificada como “falsa” pelos sites noticiosos que transmitiam o debate ao vivo.
A questão sobre o aborto foi um dos pontos altos da primeira parte do debate, com os dois candidatos trocando farpas. Linsey Davis, uma das moderadoras do debate, pressionou Trump a explicar sua política para o aborto, ressaltando que ele tinha mudado de opinião várias vezes sobre o tema.
O ex-presidente respondeu agradecendo aos juízes da Suprema Corte que votaram para anular a jurisprudência de Roe vs. Wade — decisão que garantia o direito ao aborto em todos os Estados dos EUA — argumentando, falsamente, que em alguns Estados, bebês eram mortos após o parto. “Eu fiz um grande serviço”, disse ele.
Kamala, que tem no tema aborto um dos pontos fortes de sua campanha, rebateu o republicano fazendo uma defesa dos direitos reprodutivos nos EUA: “Não é preciso abandonar a sua fé ou crenças profundamente arraigadas para concordar que o governo e Donald Trump, certamente, não deveria dizer a uma mulher o que fazer com o seu corpo”, disse ela.
Outro tema quente foi a imigração. Diante de uma Kamala que foi se sentindo mais confiante à medida em que o debate se desenvolvia e Trump a atacava com argumentos já conhecidos, como o de “milhões de imigrantes” chegando ao país, “vindos de prisões, hospícios e asilos para loucos”.
Em termos gerais, o debate Kamala-Trump foi um forte contraste com o anterior em junho, quando os tropeços do octagenário Joe Biden levaram o presidente a desistir de sua tentativa de reeleição e a endossar Kamala como a nova indicada dos democratas.
Ambos os candidatos deram suas visões contrastantes sobre o estado atual dos EUA e para onde pretendem levar o país caso se tornem presidentes. Kamala prometeu cortes de impostos para a classe média e sinalizou que tentaria restaurar o direito ao aborto a nível federal, que foi anulado pelo Supremo Tribunal há dois anos. Trump, por sua vez, disse que as suas propostas tarifárias ajudariam a impedir que os aliados dos EUA se aproveitassem do país em questões comerciais, e acrescentou que trabalharia rapidamente para acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.
Kamala acusou Trump de estar disposto a abandonar os EUA apoio à Ucrânia para obter favores do presidente russo Vladimir Putin, chamando o republicano de “desgraça”, enquanto Trump afirmou que Kamala “odeia” Israel.
Ao fim do debate, os candidatos não interagiram ao deixar o palco. A campanha de Trump buscou reivindicar a vitória do republicano, enquanto a campanha de Kamala lançou um desafio para o ex-presidente voltar a enfrentar a democrata em outubro.
A surpresa da noite foi o anúncio da estrela pop Taylor Swift de apoio a Kamala minutos após o final do debate. “Vou votar em @kamalaharris porque ela luta pelos direitos e pelas causas que acredito que precisam de uma grande defensora”, escreveu Swift em um post no Instagram.
Fonte: Valor Econômico
