Mesmo após uma intervenção multibilionária com participação dos Estados Unidos para conter a desvalorização do iene, o Japão ainda enfrenta desafios para estabilizar seus mercados. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, prometeu fazer o que for “necessário”, mas, ainda assim, o dólar voltou a subir contra a moeda japonesa e parte do risco se materializou no mercado de juros, onde as taxas de curto prazo saltaram às máximas do ano e fortaleceram a visão de que o Banco do Japão (BoJ) está bastante atrasado no aperto monetário — o que foi mencionado pelo próprio Bessent.
No fim da tarde de ontem, o dólar avançava 0,12% contra a divisa japonesa e era negociado a 157,75 ienes, tendo se afastado dos níveis de 156 ienes observados imediatamente depois da intervenção conjunta entre os países. E, na manhã desta quarta-feira, a moeda americana segue se valorizando, ainda que de forma bastante tímida.
Nos mercados de renda fixa, os juros de longo prazo do Japão voltaram a avançar e sofreram pressão renovada dos sinais de demanda fraca por títulos em um leilão realizado pelo Ministério das Finanças na madrugada de ontem — um sinal de alerta adicional quanto à demanda pelos ativos do país. A taxa do JGB (título público) de 10 anos subiu de 2,828% para 2,859%, se aproximando das máximas de 2,90% dos últimos 12 meses.
O sinal mais evidente do mercado, no entanto, aparece na parcela mais curta da curva de juros japonesa. Já há aproximadamente 0,7 ponto percentual de alta de juros pelo BoJ embutida nos preços. Os investidores, assim, apontam com alguma contundência que a autoridade monetária japonesa está atrasada em seu trabalho de combater a inflação – ou “atrás da curva”, no jargão do mercado.
O próprio Scott Bessent, ontem, destacou que seria necessária uma política para conter a desvalorização do iene por parte da autoridade monetária japonesa. “Não vou prejulgar o que o BoJ deveria fazer, mas acredito que o BoJ fará o que for necessário”, disse o secretário durante entrevista à rede de TV americana CNBC.
Estimativas do mercado a partir de dados do BoJ apontam que, nos dois dias somados, as intervenções teriam superado US$ 70 bilhões. “É muita coisa”, enfatiza o economista-chefe do Banco Pine, Cristiano Oliveira. “Se o Japão resolvesse atuar no câmbio por conta própria, teria de se desfazer de Treasuries para promover uma intervenção dessa magnitude e isso provocaria uma oscilação no mercado de juros americano, que já está com um viés de taxas mais altas.”
Para Oliveira, assim, seria do interesse dos EUA não provocar volatilidade adicional no mercado global de Treasuries e um segundo aspecto seria geopolítico, com a intenção de reforçar a zona de influência americana na Ásia. “Ainda assim, a experiência internacional mostra que intervenções no mercado de câmbio nem sempre são capazes de alterar de forma duradoura a trajetória de uma moeda quando os fundamentos econômicos permanecem desfavoráveis”, observa o economista.
De acordo com o economista, no caso japonês, as preocupações com a sustentabilidade fiscal, a elevada dependência do petróleo e os riscos inflacionários associados a esse ambiente são fatores que vinham sustentando a depreciação do iene. E, de alguma forma, seguem no radar.
Não por acaso, estrategistas do Wells Fargo observam que a valorização do iene pode continuar no curto prazo, diante de um desmonte de posições está em vigor, mas, daqui em diante, uma apreciação mais estrutural da moeda “dependerá cada vez mais do BoJ e de outros agentes domésticos”.
O Wells Fargo avalia que uma posição vendida em franco suíço contra o iene é, agora, “a melhor forma de explorar essa tese estrutural, em grande parte por causa do carrego positivo”. “Ainda assim, diversos elementos necessários para sustentar um cenário mais favorável ao iene permanecem incertos, incluindo a atuação do BoJ, do GPIF (o fundo de pensão do Japão) e a condução da política fiscal.”
Segundo estimativas do Instituto Internacional de Finanças (IIF) o iene seria, atualmente, a moeda mais barata entre as economias do G10 e, em termos reais, está nos níveis observados pela última vez antes do Acordo Plaza. “O iene havia se afastado muito do que seria compatível com seus fundamentos, com sua taxa de câmbio efetiva real no menor nível em cinco décadas. Além disso, nossa estimativa mais recente indica que seu valor justo de médio prazo estaria na faixa de 125 a 138 ienes por dólar”, afirma o economista-chefe do IIF, Marcello Estevão, em artigo publicado ontem.
A intervenção conjunta, nesse contexto, ajuda a aumentar o custo reputacional de se apostar contra o iene, já que há uma leitura conjunta dos EUA e do Japão de que a divisa está desvalorizada. “Ao mesmo tempo, as taxas reais de juros de curto prazo permanecem negativas, o diferencial de juros entre EUA e Japão continua favorecendo operações de ‘carry trade’, e a expansão fiscal elevou os prêmios de risco na ponta longa da curva de títulos do governo japonês”, nota.
Uma elevação gradual dos juros reais no Japão, combinada com uma trajetória fiscal crível, permitiria que a intervenção cambial funcionasse como uma ponte para uma moeda mais forte, segundo Estevão. “Sem esse acompanhamento, porém, os mesmos incentivos proporcionados pelos diferenciais de juros e pela alocação internacional de portfólios acabarão levando o mercado a testar essa ponte novamente”, avalia.
Para Estevão, “Washington tem um claro interesse em evitar que pressões de financiamento no exterior se transformem em uma fonte adicional de vendas forçadas de títulos do Tesouro americano”. Ele lembra que o Japão detinha cerca de US$ 1,14 trilhão em Treasuries em maio, mais do que qualquer outro país. “Compras expressivas de ienes podem ser financiadas pela venda de ativos de reserva em dólares, incluindo Treasuries, o que adicionaria pressão justamente ao mercado que Washington mais precisa manter funcionando de forma ordenada”, diz.
Fonte: Valor Econômico


