O agronegócio brasileiro inicia o ciclo 2026/27 diante de um cenário que combina velhos riscos e novos desafios, segundo a 7ª edição do relatório Visão Agro, do Itaú BBA. Após quatro anos de margens comprimidas, marcados por oferta abundante e custos persistentes, o setor agora enfrenta um El Niño que se desenha forte, com riscos relevantes — ainda que heterogêneos entre regiões — para a produtividade.
Historicamente, eventos climáticos dessa magnitude tendem a prejudicar a soja no Cerrado e, sobretudo, o milho de segunda safra, em razão de problemas na janela de plantio e do encurtamento do período de chuvas. No Sul do país, assim como na Argentina e no Paraguai, o principal risco é oposto: o excesso hídrico.
O relatório destaca a dependência de fertilizantes como uma das principais fragilidades do agro brasileiro, reacendida pelas tensões geopolíticas. A volatilidade dos nitrogenados e a alta persistente dos fosfatados, somadas à fragilidade financeira de parte dos produtores, devem resultar em uma safra mais conservadora em investimento tecnológico. No caso dos fosfatados, o banco vê preços elevados mais duradouros, sustentados por oferta restrita e maior demanda por novos usos do enxofre — um descolamento em relação às referências das commodities agrícolas, ao contrário dos nitrogenados, que já encontraram algum alívio.
Commodities pressionadas
As commodities agrícolas começam o ciclo com preços pressionados, e uma recuperação mais consistente dependerá de ajustes na oferta global. Na soja, embora anos de El Niño não sejam necessariamente negativos para a América do Sul no agregado, o balanço global parte de um ciclo 2025/26 em que a produção praticamente igualou o consumo, tornando o mercado mais sensível a quebras de produtividade. No milho, uma boa safrinha 2025/26 sustenta um balanço doméstico confortável, mas a demanda segue firme, puxada por proteínas animais e etanol.
O algodão aparece com viés mais positivo — queda de produção nos EUA e na China reduz estoques globais, enquanto o Brasil se mantém como principal exportador. Já arroz e trigo seguem desafiadores para o produtor, com preços que não remuneram e tendência de redução de área.
No café, a projeção de safra recorde brasileira em 2026/27, com forte recuperação do arábica, traz alívio ao balanço global e deve acomodar preços — ainda em patamares historicamente elevados —, garantindo margens satisfatórias, sobretudo a quem aproveitou as boas relações de troca com fertilizantes no ano passado. No setor sucroenergético, a convergência de açúcar e etanol para níveis mais baixos, aliada a custos altos, eleva a cautela nos investimentos no canavial, embora a expectativa seja de safra volumosa.
Entre as proteínas, o custo de ração segue favorável, mas aves e suínos enfrentam pressão de preços pela expansão da oferta, com destaque para a deterioração das margens da suinocultura. Para o boi gordo, o segundo semestre inspira cautela diante da perspectiva de menores exportações à China, com melhora esperada apenas mais perto de 2027.
Macro desafiador
No pano de fundo econômico, o Itaú BBA descreve um “tabuleiro em movimento”. O conflito entre EUA e Irã e a obstrução temporária do Estreito de Ormuz pressionaram petróleo e fertilizantes; a reabertura trouxe alívio, com o barril recuando para perto de US$ 75, mas incertezas devem impedir um retorno rápido aos US$ 60-65 observados no ano passado. O banco projeta ainda duas altas adicionais de juros pelo Fed, em setembro e outubro, sustentando um dólar global mais forte.
No Brasil, após ceder abaixo de R$ 5,00 em maio, o real retomou a depreciação. A instituição projeta câmbio a R$ 5,30 por dólar ao fim de 2026 e R$ 5,50 ao fim de 2027, movimento que beneficia a receita dos exportadores, mas encarece insumos importados. O IPCA de 2026 foi revisado para 5,4% (ante 3,8% antes da guerra), e a Selic, elevada a 14,25% na reunião de junho do Copom, deve encerrar 2026 em 14,00%, com retomada do ciclo de cortes em 2027 e fechamento do ano em 12,50%.
Diante de preços pressionados, custos elevados e volatilidade cambial, o relatório conclui que a preservação da liquidez e a disciplina na tomada de decisão ganham papel central. Em um ambiente de custo de capital mais alto e crédito mais restrito, avalia o banco, “o erro custa mais caro” — tornando fundamental proteger margens, equilibrar o fluxo de caixa e garantir flexibilidade financeira para atravessar períodos de maior estresse.
Fonte: Visão Agro Itaú BBA


