O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) – considerado a prévia da inflação oficial no país – subiu 0,35% em setembro, após alta de 0,28% em agosto, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado ficou abaixo da mediana das 36 projeções de consultorias e instituições financeiras reunidas pelo Valor Data, de alta de 0,38% em setembro.
Com o dado de setembro, o IPCA-15 acumula alta de 5% em 12 meses. Até agosto, o resultado em 12 meses era de 4,24%.
A leitura em 12 meses ficou abaixo da mediana das 36 estimativas coletadas pelo Valor Data, que era de 5,03%. A meta de inflação perseguida pelo Banco Central para 2023 é de 3,25%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para baixo ou para cima.
O IPCA-15 é uma prévia do IPCA, calculado com base em uma cesta de consumo típica das famílias com rendimento entre um e 40 salários mínimos. O indicador abrange nove regiões metropolitanas, além de Brasília e Goiânia.
Em setembro, a prévia da inflação se espalhou menos pelos itens que compõem o IPCA-15. O Índice de Difusão, que mede a proporção de bens e serviços que tiveram aumento de preços, caiu para 41,7% neste mês, ante 51% na prévia de agosto. Trata-se do menor percentual da série histórica do Valor Data, iniciada em fevereiro de 2012.
Das nove classes de despesas usadas para cálculo do IPCA-15, sete tiveram desaceleração na passagem entre agosto e setembro. Foram observadas taxas menores em alimentação e bebidas, habitação, artigos de residência, saúde e cuidados pessoais, despesas pessoais, educação e comunicação. Por outro lado, houve taxas maiores em transportes e vestuário.
A média dos cinco núcleos do IPCA-15 monitorados pelo Banco Central desacelerou para 0,27% em setembro, de 0,34% em agosto, segundo cálculos da MCM Consultores. No IPCA-15 em 12 meses, a média dos cinco núcleos também recuou, de 5,30% para 5,10%.
Em setembro, o preço da gasolina foi o subitem de maior influência na alta do índice. O combustível subiu 5,18% e respondeu por 0,25 ponto percentual (ou mas de 71%) da alta de 0,35% do IPCA.
O aumento do preço da gasolina reflete o reajuste de 16,3% nas refinarias em 16 de agosto. Para o cálculo do IPCA-15, os preços foram coletados no período de 15 de agosto a 14 de setembro e comparados com aqueles vigentes de 14 de julho a 14 de agosto.
André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), argumenta que, se não houver reajuste nos próximos dias, a tendência é que a inflação cheia desacelere. “Esse reajuste que influenciou o IPCA-15 tende a enfraquecer daqui para frente”, diz. “Para o IPCA cheio, podemos esperar algo em torno de 0,30%, suavizando a influência da gasolina.”
Apesar da queda nos preços de alimentação e bebidas – a quarta consecutiva -, por causa da maior oferta desses produtos no mercado, temperaturas mais amenas e safra recorde de grãos, a alimentação fora do domicílio teve alta de 0,46% em relação ao mês anterior.
Além disso, a abertura dos números do IPCA-15 mostrou interrupção da queda da inflação em serviços e acendeu um alerta.
“A descompressão menor do que se esperava na inflação de serviços é frustrante”, diz Fábio Romão, da LCA Consultores. “Apesar de o IPCA-15 de setembro trazer uma taxa de dispersão baixa, fruto da atividade econômica perdendo força em decorrência dos juros altos, os serviços continuam fortes.”
Segundo o economista, a inflação de serviços deve cair de 7,6% em 2022 para 6%, acima do que se projetava há pouco tempo.
“Tudo indica que serviços vão desacelerar, ficando em 4,2% no ano que vem. A questão é qual o ritmo disso e o quanto pode atrapalhar a inflação chegar à meta e o corte de juros”, diz, ao prever IPCA de 5% em 2023, acima dos 4,7% esperados por outros economistas.
Andréa Angelo, estrategista de inflação Warren Rena, diz que o patamar se mantém bom, mas não há a melhora adicional que se esperava para serviços. “Esperávamos continuidade da desaceleração vista em julho e agosto”, diz.
Angelo revisou projeções de IPCA de setembro de 0,34% para 0,27%, com risco altista por influência da gasolina. Para outubro, a estimativa passou de 0,39% para 0,36%. Mas para novembro, a projeção foi revisada para cima, de 0,23% para 0,30%. A Warren Rena prevê inflação abaixo do teto da meta, de 4,70% para 2023 e 3,9% para 2024.
Os dados de setembro mostram que a inflação de serviços voltou a acelerar e deve continuar a pressionar os preços, afirma Claudia Moreno, do C6 Bank.
“Esse resultado reverte a surpresa positiva do mês anterior. Em 12 meses, a inflação de serviços acumula alta de 5,6%, acima dos 5,4% registrados até agosto”, escreveu Moreno. “Os núcleos do Banco Central também continuam rodando em patamares elevados, acumulando alta de 5,1% em 12 meses. Junto com a inflação de serviços, esses dois componentes ajudam a entender por que os preços seguem pressionados.”
Segundo a economista, a aceleração corrobora a visão de que a inflação continuará subindo, em parte devido ao mercado de trabalho aquecido, que pressiona a inflação de serviços, termômetro importante sobre a direção da inflação geral. O IPCA-15 de setembro reforça a expectativa de que a queda dos juros ocorrerá de maneira paulatina, segundo William Jackson, da Capital Economics.
“O salto da inflação brasileira para 5% na primeira quinzena de setembro, tomado em conjunto com o tom mais cauteloso da ata da reunião do Banco Central da semana passada, apoia a nossa visão de que o ciclo de flexibilização monetária prosseguirá gradualmente”, escreveu Jackson, em relatório.
Depois da divulgação da alta de 0,35% do IPCA-15 de setembro, ante agosto, o banco Barclays revisou sua projeção de inflação para 2023 de 4,9% para 5,1%.
“Isso se deve principalmente à dinâmica de curto prazo, que provavelmente não influenciará o Banco Central a acelerar o ritmo dos cortes nas taxas no futuro próximo”, afirmou o economista Roberto Secemski, em nota a clientes.
Fonte: Valor Econômico
