Os asset owners [proprietários de ativos / investidores institucionais] foram lentos para acompanhar a revolução da IA — não por falta de interesse ou inteligência, mas porque inicialmente fizeram as perguntas erradas. O debate dentro da maioria dos asset owners girava em torno da adoção: se deveriam confiar em sinais algorítmicos, como explicar decisões de caixa-preta [black-box] aos conselhos e se os sistemas de IA ameaçavam ou reforçavam a primazia do julgamento humano. Eram preocupações legítimas. Em retrospecto, eram também uma distração em relação à questão mais importante: quais riscos e oportunidades relacionados à IA exigiam ação imediata e quais podiam esperar.
A computação quântica está chegando da mesma forma. E os asset owners estão prestes a cometer o mesmo erro.
Para ser claro: a computação quântica não é mais uma iteração da IA. É um tipo fundamentalmente diferente de computação, que utiliza as leis da física quântica para processar informações. Enquanto os computadores clássicos — incluindo os usados para IA — processam informações em bits, cada um fixado como 0 ou 1, os computadores quânticos utilizam qubits, que podem existir simultaneamente como 0 e 1, uma propriedade chamada superposição.
Em termos simples, isso significa que os computadores quânticos podem examinar muitas respostas possíveis ao mesmo tempo, em vez de fazê-lo de forma sequencial. Isso lhes permite atacar certos problemas que levariam tempo excessivo para serem resolvidos por computadores convencionais. A computação quântica não substitui a computação clássica ou a IA; é um complemento, com as aplicações de curto prazo mais promissoras emergindo de sistemas híbridos que combinam os pontos fortes dos três.
É também importante notar que os computadores quânticos de hoje são suscetíveis a erros, operam com um número limitado de qubits e permanecem em grande parte confinados a aplicações experimentais e comerciais incipientes. Eles podem demonstrar vantagem sobre as máquinas clássicas em um conjunto restrito de problemas, mas ainda não são confiáveis ou escaláveis o suficiente para uso de propósito geral.
Os especialistas divergem quanto ao prazo para a computação quântica tolerante a falhas e com grau de investimento [investment-grade], com estimativas que variam de 2029 a uma década ou mais. O que não está em disputa é que o ritmo de progresso tem consistentemente surpreendido até mesmo os seus observadores mais cautelosos.
O Debate Equivocado
A conversa institucional sobre computação quântica, quando existe, tende a enveredar por um de dois caminhos previsíveis.
O primeiro é o entusiasmo acrítico: a computação quântica revolucionará a otimização de portfólios [carteiras], a modelagem de fatores e a precificação de derivativos. O segundo é o descarte sumário pelos alocadores: a computação quântica tolerante a falhas está pelo menos uma década distante, a tecnologia não está comprovada, sua aplicação ao investimento é desconhecida e há prioridades mais urgentes.
Ambas as respostas tratam a computação quântica como uma coisa única que exige uma decisão única. Isso está errado.
A computação quântica apresenta aos asset owners dois desafios distintos que operam em horizontes temporais completamente diferentes e exigem respostas institucionais distintas. Conflacioná-los produz paralisia. Separá-los produz uma estrutura que vale a pena colocar em prática. O desafio de curto prazo é a exposição criptográfica — e eu diria que isso não é especulativo.
A computação quântica poderá eventualmente enfraquecer a criptografia de chave pública que protege sistemas de portfólios, registros de custódia, instruções de negociação e liquidação e comunicações autenticadas, como confirmações. Isso não perturbará imediatamente o mercado, mas o que preocupa os pesquisadores é o que chamam de esquemas de “coleta agora, descriptografia depois” [“harvest now, decrypt later”] — que poderiam ameaçar dados sensíveis com longa vida útil.
O Bank for International Settlements [Banco de Compensações Internacionais — BIS] relata que “Embora os computadores quânticos (QCs) ainda não existam, há uma necessidade urgente de implantar algoritmos resistentes ao quantum, especificamente para dados altamente sensíveis.” Por quê? Como o BIS aponta, esse risco é no tempo presente, não no futuro. Agentes mal-intencionados podem já estar coletando dados financeiros criptografados hoje com a intenção de descriptografá-los assim que os computadores quânticos forem capazes de fazê-lo. Até que a criptografia resistente ao quantum seja totalmente implantada, os dados sensíveis permanecem expostos — o que é precisamente o motivo pelo qual a ação preventiva é urgente, e não opcional.
O National Institute of Standards and Technology (NIST) finalizou seus primeiros padrões criptográficos pós-quânticos em 2024, que delineiam ferramentas de criptografia projetadas para resistir a esses ataques. O NIST, que deseja que os administradores de sistemas migrem para os novos padrões o mais rápido possível, argumenta que eles protegem informações eletrônicas, incluindo mensagens de e-mail confidenciais e transações online que “impulsionam a economia moderna.”
O que a maioria dos asset owners não possui é qualquer consciência de que essa exposição é real, de que é uma condição presente — e não um risco distante — e de que custodiantes e fornecedores de tecnologia estão em estágios variados de prontidão.
Essa é uma lacuna de governança que não exige expertise quântica para ser fechada. Exige a mesma diligência que trustees [gestores fiduciários] competentes aplicam a qualquer risco operacional. Eles perguntam: “Qual é nossa exposição?”, “Quem é responsável pela mitigação?” e “Qual é o prazo?”
Qualquer asset owner que ainda não questionou seu banco custodiante, prime broker [corretora principal], administradores, provedores de nuvem e fornecedores de tecnologia essencial sobre o estágio em que se encontram na migração para a criptografia pós-quântica está atrasado. Não especulativamente atrasado, mas atrasado já hoje.
O relógio já está correndo para o desafio de médio prazo — o deslocamento competitivo.
JPMorgan, BlackRock, Goldman Sachs e Vanguard não estão esperando a chegada de sistemas quânticos tolerantes a falhas. Já estão construindo parcerias de pesquisa quântica, desenvolvendo pipelines de talentos [fluxos de formação de profissionais], estabelecendo relacionamentos com fornecedores e cultivando fluência organizacional.
Embora a tecnologia possa estar a uma década de distância da confiabilidade com grau de investimento, a lacuna de prontidão institucional está se abrindo hoje.
Um exemplo marcante é a colaboração do HSBC com uma equipe da IBM para criar o que descrevem como “a primeira evidência empírica conhecida do potencial valor dos computadores quânticos atuais para resolver problemas do mundo real no trading algorítmico de títulos [bond trading].” A demonstração entregou “até 34% de melhora na previsão da probabilidade de uma operação ser executada pelo preço cotado, em comparação com técnicas clássicas comuns usadas no setor.” Segundo Philip Intallura, chefe global de Tecnologias Quânticas do HSBC, “agora temos um exemplo tangível de como os computadores quânticos de hoje poderiam resolver um problema de negócio real em escala e oferecer uma vantagem competitiva, que só tende a crescer à medida que os computadores quânticos avançam.”
Os asset owners já viram essa dinâmica antes. Quando as estratégias sistemáticas e quantitativas amadureceram nas décadas de 2000 e 2010, os gestores que passaram anos construindo infraestrutura — pipelines de dados, capacidade de pesquisa e arquitetura de risco — capturaram o alpha [retorno acima do benchmark] inicial.
Os asset owners que não fizeram as perguntas certas a seus gestores durante esse período de construção descobriram o desalinhamento apenas depois de observar a deterioração do desempenho.
Os gestores que investem em estar prontos agora terão vantagens estruturais duradouras quando as capacidades de otimização, simulação e precificação habilitadas pelo quantum amadurecerem. O alpha, quando chegar, fluirá para eles primeiro. Os asset owners, inevitavelmente, arcarão com as consequências.
Isso não significa que os asset owners devem “montar uma equipe de computação quântica.” Pouquíssimos têm escala ou mandato para isso. A solução é mais restrita e alcançável: começar a perguntar aos gestores o que estão fazendo e por quê. Os frameworks [estruturas] atuais de due diligence [diligência prévia] não incluem a prontidão quântica como categoria. Deveriam incluir.
Alguns asset owners já dispõem de mais inteligência quântica do que percebem.
O QED-C estima que o investimento de capital de risco [venture capital] privado em quantum atingiu US$ 4,9 bilhões em 2025 — um aumento de mais de 190% em relação a 2024. Isso significa que muitos asset owners têm exposição de fato ao quantum, saibam disso ou não, por meio de alocações em VC para empresas de hardware quântico, cibersegurança resistente ao quantum e software quântico. Esses gestores de VC desenvolveram, por necessidade, visões sofisticadas sobre o panorama tecnológico, as dinâmicas competitivas entre as abordagens de hardware e os prazos realistas para a viabilidade comercial. Eles analisaram os pitch decks [apresentações de captação], conduziram due diligence técnica e formaram opiniões sobre quais apostas são críveis.
Os asset owners deveriam explorar esse conhecimento de forma sistemática. Uma conversa com seus gestores de venture sobre suas participações relacionadas ao quantum não é um seminário de tecnologia; os alocadores deveriam encará-la como uma revisão de portfólio com um bônus educacional. Não custa nada além da atenção de um membro da equipe de investimentos que já mantém contato regular com esses gestores. E produz exatamente o tipo de inteligência prática e fundamentada que os conselhos precisam para fazer perguntas melhores.
Os asset owners têm efetivamente três escolhas.
Uma abordagem é ignorar a computação quântica, tratá-la como uma questão tecnológica para gestores de ativos e fornecedores, e revisitá-la apenas quando se tornar inevitável — postura que muitos asset owners adotam hoje e que ecoa a visão do final da década de 2010 em relação à IA, com custos que agora são evidentes.
A segunda é avaliar a exposição criptográfica de curto prazo e começar a integrar a prontidão quântica na due diligence de gestores, sem se comprometer com mudanças organizacionais significativas. Isso é alcançável para quase qualquer asset owner, independentemente de tamanho ou sofisticação. Exige governança proativa, não expertise técnica.
A terceira é se preparar para a eventual chegada do quantum e começar a construir o conhecimento institucional das capacidades aspiracionais do quantum por meio de engajamento ativo com gestores de ativos, prestadores de serviços e acadêmicos.
A segunda opção, acredito, é a escolha certa para a maioria dos asset owners; a terceira é para aqueles com a curiosidade intelectual e os recursos para ir mais fundo. A escolha errada — aquela que carrega risco fiduciário real — é a primeira.
O Que os Conselhos Deveriam Estar Perguntando
Os trustees não precisam entender mecânica quântica, mas precisam saber que suas organizações enfrentam dois riscos distintos relacionados ao quantum que operam em horizontes temporais diferentes e que nenhum dos dois está sendo sistematicamente endereçado.
Três perguntas merecem ser colocadas na agenda do conselho:
Primeira: onde estão nossos custodiantes, fornecedores de tecnologia e principais contrapartes no que diz respeito à migração para a criptografia pós-quântica, e qual é nossa exposição caso sejam lentos?
Segunda: já perguntamos como nossos gestores externos estão pensando sobre essas capacidades?
Terceira: temos um processo para distinguir entre riscos quânticos que exigem ação imediata e oportunidades quânticas que podem ser monitoradas em vez de perseguidas?
Essa avaliação exige a mesma boa governança que sempre foi necessária — a disposição de fazer perguntas desconfortáveis antes que a resposta se torne óbvia.
Os asset owners que esperaram pela IA estão agora correndo atrás do prejuízo — contratando, reorganizando, revisando políticas de investimento e explicando aos conselhos por que a organização está atrasada. Parte desse esforço tardio é produtiva. Tudo isso é caro e evitável. Os asset owners que se engajarem agora — antes que a tecnologia force a questão — estarão mais bem posicionados para se defender dessas ameaças cibernéticas e capturar as oportunidades de investimento.
(Para aqueles interessados em aprender mais sobre computação quântica e investimentos, recomendo o texto recém-publicado pelo Dr. Oswaldo Zapata, “A Portrait of Quantum Technologies in Finance (2026)”, especialmente o capítulo de Carlos Arcila Barrera, “Quantum Computing in Asset Management”, bem como “Quantum Computing 101: Understanding the Next Computing Revolution”, de Dra. Elisabetta Basilico e Dr. Daniel Volz, e o recém-publicado pela CFA, “Quantum Computing vs. AI: Real-World Applications”.)
Angelo Calvello, PhD, é fundador da C/79 Consulting LLC e escreve extensamente sobre o impacto da IA no investimento institucional. Todas as opiniões aqui expressas são exclusivamente do autor e não representam as de qualquer entidade à qual o autor esteja vinculado.
Fonte: Institutional Investor
Traduzido via Claude