Ian Bremmer, analista-chefe e CEO da consultoria Eurasia, afirmou que, após o acordo anunciado no fim de semana entre Estados Unidos e China para pausar a guerra tarifária, a instabilidade criada pelos americanos não está encerrada. “Não acabou, é estrutural, vai durar no mínimo dois, provavelmente quatro anos”, comentou ele em evento promovido pelo Citi durante a Brazil Week, em Nova York.
Segundo ele, os EUA vivem atualmente um breve e “lindo” momento em que o presidente Donald Trump está ouvindo as pessoas mais competentes do seu gabinete, que são Scott Bessent e Mark Rubio. “Quanto tempo vai durar? Não tenho ideia. Trump não tem relações de longo prazo com Bessent e Rubio. Ele confia em Peter Navarro e Stephen Miller. Em algumas semanas ou meses, não acho que Navarro vai ficar confortável em deixar Bessent brilhar. Não acreditem que não existem mais “hawks” [que são mais agressivos em um tema] sobre a China no governo.”
De acordo com Bremmer, a instabilidade e a volatilidade criadas pelo governo Trump já causa mudanças permanentes na relação com parceiros tradicionais, como Canadá e Europa. “As disrupções para o comércio global e cadeias de fornecimento são estruturais.”
Apesar das críticas, Bremmer diz que a culpa não é apenas de Trump, mas que ele é um sintoma do americano médio. Para ele, algumas políticas de Trump não vão acabar com seu governo. “São mudanças estruturais que não acabam com Trump. Elas vão criar uma crise maior.”
Para ele, o Brasil está em uma boa posição no momento, já que, após os americanos terem de ceder para China, não haverá uma pressão tão grande para que os brasileiros se afastem dos chineses. Ainda assim, ele apontou que o Brasil está atrasado no uso de inteligência artificial, assim como o Hemisfério Sul como um todo. “É um desafio sério para o Brasil, que não está na trajetória que precisa estar, precisa dobrar a velocidade.”
Bremmer também comentou brevemente sobre a política brasileira. Segundo ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quase 80 anos, não tem um smartphone e usa anotações em papel. “O mundo hoje em dia se move muito rápido, você precisa de uma liderança que use IA em tempo real.”
Questionado sobre as perspectivas para o Brasil, Bremmer disse que não falaria muito sobre o tema, porque, segundo ele, a sala estava cheia de gente que entende mais da economia brasileira do que ele. “E porque o possível futuro presidente do Brasil está a um metro de mim”, comentou, referindo-se ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), recebendo aplausos da plateia, formada pelos CEOs de grandes empresas brasileiras.
*O jornalista viajou a convite do Citi
Fonte: Valor Econômico
