O acordo entre Estados Unidos e China para redução de tarifas pode ter impacto relevante nas projeções para a inflação americana neste ano, diminuindo, pelo menos momentaneamente, a incerteza na economia global após o “tarifaço” do presidente Donald Trump. A avaliação é de Andrew Hollenhorst, economista para EUA do Citi. “O grande impacto será na inflação, mas agora há menos riscos de baixa para o crescimento”, disse ao Valor.
Segundo ele, um acordo definitivo com a China também abre caminho para entendimento com outros países. “Se os EUA podem reduzir tão rapidamente as tarifas para a China para 10%, parece muito provável que outros países também fiquem com 10%.”
Valor: O que significa para a economia o acordo para reduzir tarifas entre EUA e China por 90 dias?
Andrew Hollenhorst: Tivemos um grande desdobramento no fim de semana. Antes, pensávamos que haveria uma pausa de 90 dias para todo mundo e a China continuaria com 145%. Era inviável, do ponto de vista econômico, importar muitos produtos da China, o que significava que em algumas semanas os varejistas americanos teriam acabado com seus estoques; produtores teriam de pagar mais por fornecedores alternativos ou gastar mais por insumos da China; ou simplesmente não teriam esses insumos. Tudo isso levaria a escassez de produtos e grandes picos de inflação. Quando o governo anunciou as tarifas, fizemos uma revisão significativa da nossa projeção de inflação. Esse acordo nos surpreendeu. Ouvíamos falar de 80% de tarifas, alguns falavam em 65%, mas tivemos 30%. E isso é formado por 10% de tarifas recíprocas e 20% em função do fentanil [opioide], que pode cair se a China fizer progressos em conter as vendas. Ficariam apenas 10%. Então, revisamos nossa projeção de inflação de 3,5% para perto de 3%. Se os EUA podem reduzir tão rapidamente as tarifas para a China a 10%, parece mais provável que outros países também fiquem com 10%. É o sinal mais positivo que tivemos até agora.
Valor: Mesmo com essa pausa, é provável que as tarifas e toda essa incerteza tenham efeitos prolongados sobre a economia americana?
Hollenhorst: Acho que sim. Depende se vamos ficar com essas tarifas, se essa pausa vai continuar e se as tarifas vão ficar em níveis baixos. Mas como fica se, durante essa pausa, as negociações saírem dos trilhos e as tarifas subirem de novo? Há uma questão real sobre se a volatilidade terminou ou não. A incerteza que temos visto até agora vai ter impacto econômico. Vimos isso em uma série de pesquisas de sentimento, com os consumidores dizendo que estão menos confiantes sobre o futuro, sobre perspectivas de emprego e com dúvidas sobre se os preços vão subir. Isso deve levar a alguma contenção nos gastos dos consumidores. E os empresários dizem que não sabem onde as tarifas estarão e qual a situação da economia. Se têm investimentos que podem adiar, por que não até ter uma ideia melhor sobre o que está acontecendo na economia? Se vai contratar, por que não adiar um pouco, contratar menos, para a empresa não elevar a estrutura de custos se não sabe qual será a demanda? Isso está aparecendo nas pesquisas de sentimento, ainda não aparece nos dados sobre economia real, que seguem resilientes. Parte desse sentimento vai ser transmitida para a economia, mesmo com o acordo com a China.
Valor: Sua projeção para o PIB dos EUA continua de alta de 0,1%?
Hollenhorst: Antes do anúncio estávamos com 0,1%, ou seja, um PIB basicamente estável neste ano. A grande mudança do acordo será na inflação, mas agora há menos riscos de baixa para o crescimento. Mesmo que nossa projeção de crescimento não suba muito, o cenário mais negativo, de que a economia americana ficaria sem insumos essenciais, se torna muito menos provável com a queda das tarifas. Um cenário de recessão parece menos provável. Temos uma pequena desaceleração no crescimento, uma taxa de desemprego que está subindo. Ela subiu significativamente um ano atrás, depois ficou estável nos últimos seis, nove meses, em 4,2%. Isso deu confiança aos dirigentes do Federal Reserve [Fed, BC americano] para ficar no modo de ‘esperar para ver’. O desemprego deve subir na primavera e no verão [no Hemisfério Norte] e parte está relacionada às tarifas, parte às demissões no governo, além de ter um padrão sazonal. Talvez até o outono o mercado de trabalho tenha se enfraquecido e isso pode ajudar a trazer a inflação mais para baixo. Vamos ver uma divergência nos dados, em que a inflação de produtos será forte, mas a de serviços continuará a esfriar. Temos demanda menor por serviços e um mercado de trabalho que achamos que vai esfriar. Temos a questão das tarifas, que vai fazer a inflação de produtos subir, mas é pontual, não será generalizada como em 2022 e 2023.
Se os EUA podem reduzir tão rapidamente as tarifas para a China para 10%, parece provável que outros países também fiquem com 10%”
Valor: Como o acordo, aumenta a probabilidade um corte de juros pelo Fed em junho?
Hollenhorst: É um pouco complicado para o Fed. Por um lado, reduz os riscos para o crescimento, significa que vão se sentir mais confortáveis em esperar antes de cortar os juros. Por outro lado, a inflação deve ser menor sem as tarifas, então fica mais fácil cortar. Vai haver um problema de percepção, porque a inflação subjacente estará desacelerando, só que teremos um distúrbio na inflação de produtos. Se a inflação de produtos ficar menor agora com menos tarifas e se eles começarem a ver uma desaceleração na economia, podem cortar os juros sem se preocupar com a inflação. Mas acho que vão precisar de algumas semanas para ver os números de emprego antes de começarem a cortar. Imaginamos que será em julho, não mais em junho. Isso é em parte reflexo da instabilidade na economia, mas também da ideia de que agora temos menos riscos agudos de baixa para a economia, então podem ser mais cautelosos e pacientes antes de começarem a cortar. Esperamos quatro cortes neste ano e um no próximo – ou seja, 1 ponto percentual neste ano e 0,25 ponto em 2026. Há algumas semanas o mercado estava precificando 1 ponto de corte neste ano, mas agora voltou para perto de 0,55 ponto. O mercado se tornou cético de novo sobre o Fed. Isso reflete parcialmente o fato de que uma recessão se tornou menos provável.
Valor: O Fed está olhando mais para emprego do que inflação?
Hollenhorst: Acho que sim, e por um bom motivo. O presidente [do Fed Jerome] Powell tem dito que há evidência de que a inflação de serviços está desacelerando, particularmente os preços relacionados ao mercado imobiliário, mas os salários também. O choque de tarifas é um choque negativo de oferta e no livro-texto isso tem efeito pontual nos preços porque a demanda está enfraquecendo, mesmo com restrição na oferta. É o oposto do que aconteceu na pandemia, porque ali havia uma restrição na oferta, mas a demanda estava se fortalecendo. Isso criou uma inflação persistentemente prolongada. Agora, com a demanda mais fraca, deve ser menos um problema.
Valor: Os objetivos de Trump com a política tarifária serão atingidos?
Hollenhorst: Há alguns objetivos de longo prazo, como trazer mais indústrias para os EUA. Impor tarifas em bens industrializados de outros países pode incentivar a produção aqui. Outro é elevar a arrecadação. O governo vai apresentar um projeto fiscal e parte do argumento para ser mais generoso com a política tributária é que estão levantando dinheiro com tarifas. Há muitos anos Trump fala, antes mesmo de ser presidente, que quer reduzir o déficit comercial. Muitos integrantes do governo dizem que estão dispostos a aceitar uma dor de curto prazo, mas claro que querem minimizá-la. Se sentirem que estão fazendo progresso com a China, estão dispostos a reduzir tarifas. É difícil analisar, estão olhando tudo. Estão dispostos a aceitar uma queda nas ações por um tempo, talvez não para sempre. Está claro que há uma ampla gama de visões na equipe, mas é parte da forma pela qual as negociações estão sendo feitas.
Valor: Quem será o substituto de Powell no Fed? Há riscos para a independência do BC americano?
Hollenhorst: É uma boa pergunta. Não sei, alguns nomes são ventilados, mas não houve um anúncio do governo. É difícil especular porque, no fim, depende de Trump. E tem pessoas diferentes aconselhando coisas diferentes. Sabemos pelas declarações que Trump pensa que Powell deveria cortar juros agora, então provavelmente vai querer alguém que tem a mesma visão. Mas é um processo normal. Houve discussão sobre Trump querer tirar Powell antes do fim do mandato, mas ele negou. A independência do Fed está intacta.
Existe um consenso bipartidário de que se deveriam usar políticas econômicas para reindustrializar os EUA”
Valor: Com toda a instabilidade, os ativos dos EUA podem perder o status de porto seguro?
Hollenhorst: Não acho que isso esteja acontecendo. A discussão surgiu porque tivemos alguns dias em que as ações caíram, e normalmente quando isso acontece os preços dos Treasuries [títulos do Tesouro americano] sobem, porque são um porto seguro. Mas tivemos alguns dias em que as ações e também os Treasuries caíram. É uma correlação que normalmente não se vê, em especial em um momento de aversão ao risco. Não acho que significa que os Treasuries estão perdendo o status de porto seguro. Alguns investidores estão sobrealocados nos EUA por causa da performance econômica dos últimos anos. Aí tivemos esses anúncios sobre a imposição de tarifas e as pessoas ficaram preocupadas com o mercado, que já estava sobrealocado. É mais uma visão de que: ‘já tenho muitos Treasuries, não preciso comprar mais; então talvez eu compre alguns ativos europeus’. É um desmonte de posição sobrealocada em ativos americanos, ações, Treasuries, moeda. Mas claro que no longo prazo o governo deveria estar se questionando se o déficit orçamentário é sustentável, se os EUA vão continuar sendo um destino para o capital global, um porto-seguro. Acho que continuará, mas teremos de tratar essa questão do déficit. Com um grande déficit, em algum momento as pessoas vão dizer: ‘se você quiser que a gente compre mais Treasuries, vai ter que oferecer um retorno maior’. Não acho que é isso que estava acontecendo nos últimos dias, mas é um lembrete de que devemos nos preocupar.
Valor: O fluxo para emergentes, inclusive o Brasil, melhorou nas últimas semanas. A explicação é esse desmonte de posições sobrealocadas em ativos americanos?
Hollenhorst: Sim, é reflexo disso. As ações estavam em alta, os preços dos Treasuries estavam altos, e dadas as perspectivas para o déficit e a inflação, não estou surpreso de que teve um fluxo de saída dos EUA e todos os outros mercados se beneficiaram, inclusive os emergentes. Mas não acho que seja sustentável. Não existem outros mercados fora dos EUA que tenham o mesmo tamanho e liquidez, mesmo o euro é fragmentado em vários países.
Valor: As tensões geopolíticas também são um fator de risco?
Hollenhorst: É algo a que os mercados prestam atenção, mas creio que os efeitos são provavelmente maiores para outros países do que para os EUA. Até porque riscos geopolíticos maiores tendem a gerar demanda por ativos dos EUA. É claro que olhamos, mas não é um fator importante para nossas projeções para a economia americana.
Valor: Essas mudanças que Trump está adotando podem afetar estruturalmente a economia americana em longo prazo?
Hollenhorst: Existe um consenso bipartidário de que se deveriam usar políticas econômicas para reindustrializar os EUA. Há diferenças não dentro dos partidos, mas entre os pesquisadores econômicos sobre quais empregos deveriam ser trazidos para cá. Teve a questão das tarifas sobre o Vietnã, que fabrica muitos dos tênis importados pelos EUA. O objetivo é trazer a indústria têxtil, de calçados para cá? Alguns pesquisadores argumentam que isso não vai criar empregos aqui. Mas outros respondem que, mesmo sem criar muitos empregos, os EUA poderiam usar automatização, desenvolver melhor a parte de robótica nessas fábricas. Mas há um forte consenso nos dois partidos sobre a reindustrialização. A gente viu isso na Lei dos Chips, que teve apoio bipartidário. Em semicondutores, na indústria de alta tecnologia, importante para a segurança nacional, tem muito consenso para tentar trazer esses empregos de volta.
Fonte: Valor Econômico