As incertezas no cenário econômico que fizeram o Banco Central encurtar a sua sinalização de política monetária a apenas uma reunião aumentaram com os ataques do Irã a Israel, que acirraram os riscos de o conflito se espalhar no Oriente Médio.
Poucos vinham destacando esse risco, mas ele faz parte do cardápio de incertezas que o Banco Central citou em entrevista coletiva de divulgação do Relatório de Inflação que aconselham maior cautela na sinalização de cortes futuros de juros.
Também foi um dos pontos lembrados num debate recente promovido pelo Banco Central com economistas que ganharam o prêmio do Top 5, conferido anualmente para quem mais acerta as suas projeções econômicas.
Em tese, o Brasil poderia ser atingido de duas formas. Primeiro, se houver uma escalada de preços do petróleo e, segundo, com o aumento da aversão a risco nos mercados internacionais.
O petróleo brent já vinha operando acima de US$ 90 o barril, e parte dos analistas econômicos já circulavam seus cálculos sobre a defasagem dos preços domésticos em relação aos preços internacionais.
A alta do preço do combustível teria impacto direto na inflação doméstica. Os atrasos nos reajustes do combustível, por outro lado, aumentariam as desconfianças dos investidores sobre interferências políticas do governo na Petrobras.
Se a cotação do petróleo seguir em alta, poderá levar a novos adiamentos no ciclo de baixa de juros pelos Estados Unidos. A alta do preço de energia é um choque de oferta, que, ao mesmo tempo, leva a uma alta da inflação e queda do crescimento da economia.
Muitos economistas acham que, atualmente, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai dar mais peso ao combate à inflação na sua função de reação, já que o índice de preços subiu recentemente e o crescimento da economia tem se mostrado robusto.
Se, na hipótese de uma alta forte e sustentada do petróleo, o Fed adotar uma postura mais conservadora, isso poderia ter como repercussão uma valorização do dólar em relação às moedas dos demais países do mundo.
A isso se somaria o aumento da aversão a risco com a escalada do conflito, que levaria os investidores a retirar recursos das economias emergente para países desenvolvido, sobretudo os Estados Unidos.
As contas externas brasileiras têm se mostrado mais sólidas, e a alta do petróleo seria favorável, já que as exportações brasileiras do produto são crescentes. Mas dificilmente o real sairia protegido de uma onda global de valorização do dólar.
Para o Brasil, portanto, o risco é de uma alta do preço do petróleo junto com a desvalorização cambial. No conjunto, isso representaria um choque de oferta com potencial para acelerar a inflação.
Num período de maior credibilidade da política monetária, e se as contas fiscais estivessem em ordem e a inflação na meta, o Banco Central brasileiro poderia cogitar uma resposta mais flexível, acomodando a alta inflacionária no intervalo de tolerância da meta e combatendo os riscos dessa alta temporária de inflação se espalhar para outros preços.
Com as expectativas de inflação desancoradas e dúvidas sobre a estratégia fiscal, a margem de manobra do Banco Central tenderia a ser mais limitada, no caso de os riscos apontados se materializarem.
Poucos acham que, num ambiente de tanta incerteza, o Banco Central vá se apressar e rever o seu cenário básico para cortes de juros. A taxa Selic segue em patamar alto, a baixa de 0,5 ponto percentual para a reunião de maio está bem sinalizada e há muito tempo até a reunião de junho. Mas é provável que o BC redobre a cautela.
Fonte: valor econômico

