A instabilidade global, marcada por conflitos geopolíticos e incertezas econômicas, vem levando investidores a olhar cada vez mais para duas alternativas financeiras, uma mais voltada à proteção e outra, de risco elevado. São, respectivamente, os fundos de investimento em ouro e fundos de criptomoedas.
O bitcoin — principal moeda do universo cripto — chegou aos US$ 100 mil em novembro, com valorização neste ano de pouco mais de 146% até o começo de dezembro. Já o ouro subiu cerca de 30%, bateu recorde ao atingir cerca de US$ 2,8 mil a onça e caiu após a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em novembro.
O ouro, diz Jéfferson Colombo, professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV, é historicamente percebido como reserva de valor, com características de porto seguro. “Tende a preservar valor em momentos de incerteza e contração econômica”, diz.
Assim, aponta ele, mesmo utilizado para fins especulativos, seus benefícios em carteiras diversificadas tendem a ser maiores no longo prazo. Isso porque em períodos de relativa estabilidade, costuma render menos do que outros ativos financeiros.
Já o bitcoin, ressalta Colombo, ainda tem um histórico de negociação pequeno e uma volatilidade cerca de quatro vezes maior que a do ouro, o que exige mais cuidados. Ele vê um provável novo ciclo de queda de juros nos EUA como favorável aos investimentos de maior risco. No entanto, diz Colombo, a tese de que as taxas de juros de equilíbrio se deslocaram para cima no pós-pandemia, se confirmada, muda o cenário. “Juros mais altos nos países desenvolvidos por períodos prolongados tendem a atenuar a demanda por ativos alternativos”, comenta.
O professor associado da Fundação Dom Cabral, Eduardo Menicucci, diz que fundos de ouro ou de criptomoedas como o bitcoin, por conterem ativos de renda variável, não garantem proteção integral do capital investido e nem dão certeza de ganhos. E as criptomoedas necessitam de mais embasamento técnico para explicar suas oscilações, que em grande parte têm a ver com a especulação.
Menicucci lembra que os fundos mais comuns são os ETFs (Exchange Traded Funds) — que basicamente são fundos de índices com cotas negociadas na Bolsa de Valores —, e que fundos de modo geral não costumam apresentar o rendimento exato do ativo objeto. Para Menicucci, o ambiente de incerteza global leva à especulação e variação nos preços do ouro e do bitcoin. Por isso, os vê principalmente como alternativas para diversificação de portfólio. “Não recomendaria ter mais do que 8% do total alocado nestes ativos.”
Várias instituições financeiras têm fundos de ouro e bitcoin em seu cardápio de ofertas. A Itaú Asset, por exemplo, trabalha com dois fundos focados em ouro (ambos multimercados) e dois em bitcoin. Os primeiros captaram este ano, até 29 de novembro, cerca de R$ 126 milhões, revertendo uma captação líquida negativa somada, de ambos, de cerca de R$ 19,7 milhões em 2023. O fundo ouro de maior valorização em 2024, até 29 de novembro, chegou a 57,8%.
Já os fundos de bitcoin (um deles é um ETF, listado na bolsa brasileira) mostram a atratividade do ativo: juntos, captaram até o fim de novembro de 2024 cerca de R$ 747 milhões. Um deles teve captação negativa em 2023, de R$ 11,8 milhões e outro, positiva de R$ 4,93 milhões. O fundo de bitcoin que mais subiu teve 197,9% de valorização até novembro.
Renato Eid, superintendente de estratégias indexadas e investimento responsável da Itaú Asset, aponta o contexto geopolítico, aliado a movimentos como sanções, para a sustentação da demanda por ouro e bitcoin. “Oferecem proteção contra esses riscos, além de potencial retorno atrelando diversificação aos investimentos”, diz.
Também atuante nesses segmentos, a XP Asset oferece aos investidores três fundos voltados para ouro e um fundo para criptpoativos, que não é 100% bitcoin. Dois em ouro são multimercados, sendo um deles com hedge cambial e outro sem hedge cambial (exposto ao dólar). O terceiro é um ETF (que aplica em índices), listado na bolsa, também com o risco do dólar. Esse é, entre os fundos ouro, o que teve melhor desempenho: 58,75% de rentabilidade em 2024, até o fim de novembro.
Já o fundo de cripto é outro multimercado, com exposição majoritária a bitcoin e ethereum (outra criptomoeda de destaque nesse universo) e sem hedge cambial. O risco está ligado a uma cesta de criptos, com um índice calculado pela bolsa americana Nasdaq. Rendeu 150,67% até novembro.
Os fundos ouro da XP Asset tiveram captação líquida de R$ 345 milhões em 11 meses, revertendo os cerca de R$ 159,1 milhões de captação negativa em 2023. Já no fundo cripto, a captação este ano está em R$ 13,2 milhões contra R$ 8,3 milhões no ano passado.
“O ouro, já não de agora, vem em tendência forte de alta explicada por um aumento significativo das reservas dos bancos centrais”, diz Danilo Gabriel, gestor de fundos indexados e internacionais da XP Asset. Trata-se de uma opção de reserva de valor diante de preocupações geopolíticas, como a retirada da Rússia do sistema de pagamentos globais, e com o dólar.
Para o desempenho do bitcoin, as explicações são outras. Uma delas, diz Gabriel, é a perspectiva de um arcabouço regulatório mais favorável à moeda nos EUA. Houve também uma retomada após significativa queda do ativo em 2022, mantendo 2023-24 com uma alta mais forte, lembra o gestor.
No fundo BB Multimercado Ouro, da BB Asset, o número de cotistas mais do que dobrou este ano em relação a 2023, chegando, no fim de novembro, a 30,5 mil. Em 2024, o fundo também teve captação líquida positiva de cerca de R$ 436,2 milhões até 29 de novembro. De final de dezembro de 2023 a final de novembro de 2024, a rentabilidade foi de 25,54%.
“O desempenho positivo foi impulsionado pela valorização do metal, motivada pelo aumento da demanda dos bancos centrais internacionais devido a questões geopolíticas”, diz Fred Monteiro, head de gestão de fundos offshore da BB Asset. Para ele, fatores comerciais e macroeconômicos tendem a favorecer o ativo em 2025.
A BB Asset tem também um fundo de criptoativos multimercado, que teve crescimento exponencial: passou de 348 cotistas no começo de janeiro de 2024 para 24,4 mil em 9 de novembro. Entre 2 de janeiro e 29 de novembro, a captação líquida foi de R$ 168, 98 milhões, com valorização de mais de 117%, impulsionada pelo bitcoin.
Fonte: Valor Econômico
