05/07/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
O primeiro semestre marca uma reviravolta no mercado de trabalho, após meses de estagnação em consequência da pandemia e da instabilidade da economia. Dados de maio surpreenderam as expectativas e mostram que a contratações crescem, sustentadas pela reabertura da economia, recuperação dos negócios, especialmente dos serviços presenciais, e até pelos salários mais baixos. Os dados positivos vieram tanto do Ministério do Trabalho e Previdência quanto do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).
Primeiro foi o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho que registrou, em maio, saldo positivo de 277 mil carteiras assinadas, acima da média projetada pelo mercado financeiro. Os novos postos com carteira assinada foram abertos principalmente no setor de serviços (43%), seguido por comércio (17%) e indústria (mais 17%). De janeiro a maio, 1 milhão de postos de trabalho foram criados e o governo prevê que o ano vai fechar com 1,5 milhão. Os números são sujeitos a revisões que podem trazer surpresas.
A melhora foi confirmada pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (Pnad Contínua), levantada pelo IBGE, que inclui empregos informais, e constatou a queda na taxa de desemprego para 9,8% no trimestre móvel de março a maio, em comparação com os 10,5% dos três meses anteriores, de fevereiro a abril. O desemprego ficou menor do que o mercado esperava. A taxa é a menor para maio desde 2015, quando o país entrou em período de recessão que durou dois anos. Caiu para o patamar de um dígito pela primeira vez desde o início de 2016, quando escalou para os dois dígitos, mesmo depois de o PIB voltar ao terreno positivo, em 2017, até agora.
A taxa estava em 11,8% no trimestre encerrado em fevereiro de 2020, último antes de qualquer impacto da pandemia no país. A partir daí, se acelerou e atingiu 14,9% no trimestre encerrado em março de 2021, recorde de toda a série histórica da pesquisa, iniciada em 2012. Nessa penosa montanha-russa para os trabalhadores, voltou a declinar lentamente nos meses seguintes, melhorando neste ano, quando o aumento da vacinação conteve a pandemia e permitiu a reativação dos negócios.
Algumas instituições financeiras acreditam que o desemprego pode diminuir ainda mais nos próximos meses, mas deve voltar a subir até o fim do ano, podendo retomar os dois dígitos. Um dos motivos é o aumento da taxa de participação da população em idade de trabalhar no mercado de trabalho. Antes da pandemia, em 2019, ela chegou a 63,7%. Depois caiu e ficou ao redor de 62% desde o segundo semestre de 2021 e subiu agora para 62,7%. A redução do desemprego apesar do aumento da participação é um fator que denota a força do mercado de trabalho. No entanto, o contingente de desempregados e de desalentados ainda é elevado e a movimentação dessas pessoas vai testar essa firmeza do mercado.
Segundo a Pnad Contínua, no trimestre terminado em maio, o número de pessoas ocupadas alcançou 97,5 milhões, 9,4 milhões a mais do que um ano antes, e recorde da série da pesquisa, iniciada em 2012. Os desempregados somaram 10,6 milhões, 4,6 milhões a menos do que no mesmo período do ano anterior. Mas há 4,3 milhões de desalentados, que nem buscam emprego por acreditar que não vão encontrar. Se forem incluídos os que gostariam de trabalhar mais, chega a 25,4 milhões o número de subutilizados, que podem pressionar o mercado. O governo defende sua política econômica e diz que 14,9 milhões de empregos foram criados desde agosto de 2020, mas ainda há 2,8 milhões fora do mercado na comparação com os números anteriores à pandemia.
O nível elevado da informalidade, apesar do crescimento do número de empregados com carteira assinada, é um ponto fraco. No setor privado, os empregados com carteira assinada somam 35,6 milhões, 3,8 milhões a mais do que um ano antes. Os informais seguem em número maior e chegaram a 39,1 milhões de pessoas, ou 40,1% da população ocupada, incluindo quem trabalha por conta própria sem CNPJ.
O rendimento do trabalho, que está 7,2% menor do que era em 2021, também põe em xeque a firmeza do mercado. Se, por um lado, os salários mais baixos animam as contratações, de outro, denotam que o mercado não está tão firme quanto indicam outros números. A inflação elevada também contribui para corroer a renda dos trabalhadores. Mas a principal preocupação e ameaça ao emprego é a situação da economia, que pode perder fôlego à medida que fizer efeito o aperto monetário, freando a recuperação do mercado de trabalho.
Fonte: Valor Econômico
