Em fevereiro de 2020, ou seja, antes de a pandemia chegar ao Brasil, a inadimplência no rotativo era de 35,5%. Caiu para uma mínima de 25,4% em abril de 2021, acompanhando uma queda generalizada nos índices de atraso em função das medidas adotadas pelo governo e das pausas nos pagamentos oferecidas pelos bancos, e vem subindo praticamente de maneira ininterrupta desde então.
Já a inadimplência total do cartão de crédito, que além do rotativo considera também o parcelado, está atualmente em 8,2%, o maior patamar desde setembro de 2016, quando o Brasil vivia a maior recessão da sua história.
A deterioração no cartão de crédito é o que está liderado a piora da inadimplência em pessoa física, em que o índice de atrasos no crédito com recursos livres está em 5,9%, o maior desde janeiro de 2017. Muitos executivos do setor bancário vêm alertando nos últimos trimestres sobre uma queda significativa na qualidade dos ativos em cartões. Um dos críticos mais vocais é o CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, que já comentou diversas vezes que houve um excesso de oferta nessa indústria, onde “em 30 minutos na internet é possível conseguir uns seis cartões diferentes”.
O Itaú é justamente o líder em cartões de crédito no país, em termos de participação no volume de pagamentos processados (TPV). Em total de plásticos, o banco tem 41,2 milhões de cartões ativos, de um total de 190,838 milhões de unidades existentes no país. O Banco do Brasil (BB) tem 51 milhões de cartões e o Nubank possui cerca de 28,5 milhões. Santander e Bradesco não revelam esse número.
“Quando a Selic foi para 2% em 2020, os bancos tiveram de migrar para linhas mais arriscadas, e o rotativo do cartão foi uma delas”, comenta Everton Gonçalves, superintendente da assessoria econômica da Associação Brasileira de Bancos (ABBC). Nesse movimento de expandir a base, muitos bancos foram para o chamado “mar aberto”, buscando clientes com quem não tinham relacionamento prévio, o que significa um risco mais alto justamente pelo desconhecimento a respeito do perfil de crédito daqueles tomadores. Agora, quase todos voltaram a focar mais em suas próprias bases, e dentro delas nos clientes de maior renda.
Nem todo ciclo de inadimplência é igual. Em 2015/16, por exemplo, a piora foi mais acentuada nas linhas de crédito a pessoa jurídica, com muitas grandes empresas afetadas pelos desdobramentos da Lava-Jato. Em 2012, a deterioração na qualidade dos ativos havia sido maior em pessoa física, mas puxada pelo financiamento automotivo. Agora, os cartões são o maior foco de problemas.
Para Claudio Gallina, diretor sênior de instituições financeiras da Fitch Ratings, o setor de cartões vive um contexto difícil, com alta dos juros e da inadimplência, além de um aumento na concorrência que fez os grandes bancos correrem atrás dos novos entrantes no atendimento às classes mais baixas. “Os dados do BC mostram que, poucos anos atrás, as pessoas tinham relacionamento com duas instituições financeiras. Agora são cinco. Os clientes estão mais alavancados e os salários não sobem na mesma velocidade. Então, algum desses cinco pode ficar sem receber”, afirma.
O Citi fez recentemente um estudo que indica que a inadimplência tem sido pior em clientes de baixa renda, o que significa que as instituições são afetadas em magnitudes distintas. Desde o primeiro trimestre de 2021, os volumes (TPV) dos quatro grandes bancos vêm crescendo mais ou menos no mesmo ritmo, com o Santander destoando um pouco, em linha com o que vinha indicando a administração, de reduzir risco no portfólio. Porém, ao se analisar o uso do rotativo do cartão de crédito, BB e Bradesco sobem bem mais que Itaú e Santander.
“Observamos menor expansão dos saldos de pessoas físicas de alta renda, o que pode ser explicado pela maior necessidade de financiamento de pessoas de baixa renda, levando a um maior número de compras a prazo. Se for esse o caso, os desempenhos de Banco do Brasil e Bradesco podem ser parcialmente explicados por sua maior exposição ao segmento de baixa renda”, diz o analista Rafael Frade.
No caso do Itaú, o Citi aponta que o crescimento da carteira vem mais dos clientes usando os limites que já tinham do que do banco elevando limites – que mostraria um maior apetite por risco. “Pela primeira vez o Itaú reduziu seus limites totais de cartão de crédito no terceiro trimestre, com novos limites sendo insuficientes para compensar as reduções dos limites existentes”, afirma.
O Citi aponta que o Nubank vem ganhando participação de mercado, em termos de TPV, e já está em terceiro lugar, com 13,5%, atrás apenas de Itaú (29,3%) e Bradesco (14,9%), e à frente de Banco do Brasil (13,4%) e Santander (10,5%). Entretanto, em termos de carteira que rende juros (ou seja, de uso do rotativo), o banco digital ainda está em quinto, com uma fatia bem menor, de 8%. “Dado o perfil de cliente do Nubank (receita inferior à dos seus concorrentes), seria de esperar um uso do rotativo superior ao dos outros bancos, mas os dados indicam um perfil diferente do esperado”, diz Frade.
Para ele, o Nubank teve muito sucesso em explorar o público não bancarizado e, apesar de ter apresentado uma piora na inadimplência, continuou a crescer fortemente. “Claro que houve ajustes, mas eles têm sido capazes de continuar crescendo”, afirma. O Citi aponta que, no terceiro trimestre, a inadimplência do Nubank subiu 0,6 ponto porcentual, o que pode ser considerado positivo, dada a forte deterioração apresentada pelos outros bancos em cartão.
Outras instituições que operam com classes mais baixas também têm visto forte desaceleração na emissão de cartões. O Pan, que no terceiro trimestre de 2021 liberou 708 mil novos cartões, no mesmo período deste ano concedeu apenas 173 mil. No Inter, o crescimento em 12 meses no total de cartões utilizados desacelerou de 94% no ano passado para 46% agora.
Se os analistas e mesmo alguns bancos apontam que houve excesso na concessão de cartões de crédito, a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) faz uma defesa do setor. Para o presidente da entidade, Rogério Panca, o rotativo do cartão tem uma participação de apenas 3,1% no endividamento das famílias. Além disso, somente 26,4% da carteira total de cartão de crédito do sistema financeiro rende juros, ou seja, é de pessoas que entraram no rotativo. “De dez pessoas, mais de sete usam o cartão apenas como meio de pagamento, não utilizam crédito em si. A inadimplência no cartão machuca? Sim, mas se formos ver é uma fatia bem pequena no endividamento das famílias”, ressalta.
Para a Abecs, as perspectivas para 2023 são de queda da inadimplência, justamente porque os emissores fizeram a lição de casa e ajustaram as concessões. “Muitos associados nossos relatam que as safras novas já vêm performando muito bem. Óbvio que as condições macroeconômicas são importantes, temos muitas incertezas no cenário, mas projetamos para 2023 uma melhora nas curvas [de inadimplência]”, diz Panca.
O executivo afirma não acreditar que houve uma euforia exagerada na concessão de cartões e aponta que o instrumento foi muito importante para ajudar na bancarização de milhões de pessoas. “Esse movimento é impossível de voltar atrás. Não dá pra imaginar que as pessoas vão deixar de usar cartão e vão voltar a ir numa agência bancária sacar dinheiro para fazer seus pagamentos.”
Apesar de os bancos poderem reduzir as concessões e ajustar os limites dos cartões, os analistas dizem que na prática isso não é tão fácil. Primeiro, porque não dá para reduzir o limite se o cliente já o está usando todo, e segundo porque, se a pessoa já está com dificuldades, tirar o crédito disponível pode acabar piorando a situação, em vez de melhorar. “Bancos maiores, com mais produtos, podem até ficar retraídos por mais tempo, mas e os menores, que dependem mais do cartão?”, indaga Gallina, da Fitch.
“O cartão é um instrumento diferente. Você não consegue ajustar muito na originação. O banco deu um limite hoje, mas pode ser que o cliente só vá usar daqui a um ano. É uma coisa que vai se resolver gradualmente”, diz Frade, do Citi.
Para Gonçalves, da ABBC, o momento é de serenidade. “A inadimplência está subindo, a política monetária tem um efeito no crédito e é preciso ver como vai ser a esperada desaceleração da economia. Os bancos enxergam a situação com cautela, mas nada de pânico”, afirma.
Fonte: Valor Econômico
