Por Marta Watanabe — De São Paulo
19/04/2022 05h00 Atualizado 19/04/2022
O aumento de preços de bens importados se acelerou e se espalhou no início de 2022. Os preços médios de importação subiram 32,8% de janeiro a março deste ano contra igual período do ano passado enquanto o volume das compras externas caiu 4,3%. A elevação de preços nas importações foi relativamente disseminada, com alta de 53,1% nas commodities e de 30,8% nas não commodities, aumentando, segundo especialistas, a preocupação com os efeitos na inflação doméstica.
Em valores, a importação somou US$ 60,5 bilhões no primeiro trimestre, com alta de 27,1% na mesma comparação, segundo dados oficiais do o governo federal. Os números de preços e volumes são do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), que deve ser divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Ainda que a greve da Receita Federal possa ter afetado os números de comércio exterior do primeiro trimestre do ano, especialistas apontam que a tendência para 2022 é, no geral, de efeito predominante de preços, tanto para o aumento das exportações quanto para as importações.
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O conflito no Leste Europeu, apontam, deve retardar o ajuste de preços esperado para o decorrer de 2022. O cenário global de pressão de preços, apontam, inclui pandemia, interrupção ou ao menos desaceleração da exportação de deflação pela Ásia, e uma reestruturação dos encadeamentos produtivos que devem resultar também de uma reorganização de países europeus na tentativa de reduzir a dependência de insumos russos.
A economista Lia Valls, pesquisadora do Ibre, destaca que as importações nos primeiros três meses de 2022 mostram comportamento diverso de igual período do ano passado. No primeiro trimestre de 2021, segundo dados do Icomex, a quantidade importada aumentou 8,5% enquanto os preços caíram 3,1%. Em 2021, lembra ela, os desembarques foram puxados na primeira metade do ano por elevação de volumes enquanto os preços aceleraram mais o ritmo no segundo semestre. No ano, a recuperação da demanda doméstica, ao lado de fatores como pandemia e crise hídrica, contribuiu para uma alta de 21,9% no volume de importados, com aumento de 13,1% nos preços médios, ainda segundo o Icomex.
Para 2022, diz ela, o cenário deve ser outro. “Não se imagina que o volume importado tenha grande impulso neste ano em razão da esperada desaceleração da economia”, diz. O elemento diferente em relação à pressão de preços de importados na inflação doméstica é a maior valorização do real no início de 2022, destaca, ao contrário do que se viu no decorrer do ano passado. Dada a incerteza do câmbio, porém, diz a economista, não se pode esperar que o processo de apreciação do real continue.
Os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/ME) também mostram uma aceleração de preços nas importações do primeiro trimestre, com alta de 29,8% nos preços contra igual período do ano anterior. Em volumes, a queda foi de 2,2% em igual critério. Em março, os preços subiram 29,5% com índice de difusão de 67,68, também indicando que a tendência de alta de preços foi disseminada.
A aceleração de preços provocou uma expansão das importações em ritmo descolado da demanda doméstica, diz Yasmin Riveli, economista da Tendências. Ela destaca que os preços das importações nos primeiros meses do ano continuaram sujeitas a custos altos de frete e foram puxadas, dentre outros itens, por fertilizantes e combustíveis.
Livio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG e também pesquisador do Ibre, diz que há um cenário de guerra mais lockdown, com desorganização de atividades e impacto na estrutura de preços da importação brasileira. Ele lembra que esse impacto vai além de dos efeitos mais visíveis da guerra entre Rússia e Ucrânia sobre preços de commodities, como trigo e petróleo.
Há nesse cenário global de pressão de preços, destaca Ribeiro, um processo mais longo de interrupção da exportação de deflação pela Ásia, um fenômeno que vem desde 2019, com a guerra comercial entre Estados Unidos e China. Desde então, segundo ele, todos os encadeamentos produtivos que levavam os países asiáticos a inundar o mundo de bens “tradables” mais baratos começaram a se perder.
A desaceleração na exportação de deflação da Ásia, diz o sócio da BRCG, aconteceu como resultado, entre outros fatores, do deslocamento da produção chinesa para outros países e também pela adoção de uma estratégia do país asiático de menor dependência do fornecimento americano. São processos custosos no momento da implementação, destaca, e que já haviam levado, antes da pandemia, a uma mudança na estrutura de encadeamento de produção global. Modelos de produção montados por décadas e que eram considerados eficientes do ponto de vista econômico foram alterados porque já não eram mais eficientes do ponto de vista estratégico, explica.
Além desse fenômeno desde o início de 2019, houve uma pandemia que embaralhou tudo e, desde então, sucessivos choques, incluindo lockdowns mais restritos e, por cima disso tudo, veio a guerra da Ucrânia, resume o economista. “Tudo isso sugere que pelo menos por um bom período, até os elos das cadeias produtivas se reorganizarem, vamos ter preços mais altos. Até o fim deste ano certamente isso não se resolve.” Há um realinhamento nos preços de bens tradables industriais no mundo, diz ele, o que impacta a importação brasileira em razão da sua composição de pauta e também da estrutura industrial do país.
A leitura de bens industriais dentro do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), diz Ribeiro, mostra o impacto dos preços de importações de bens intermediários e bens industriais finais nos preços internos. Desde meados do ano passado, lembra, essa leitura mensal está no pico da série histórica desde 2012 e no início deste ano já houve recordes mensais nos três primeiros meses. Em março, a inflação de bens industriais dentro do IPCA atingiu 1,21%.
Ribeiro destaca que o resultado da invasão da Ucrânia pela Rússia levará a uma mudança estrutural, e não mais conjuntural. O que se tinha antes, explica ele, é que as cadeias globais de valor e logísticas não iam ficar desorganizadas para sempre. “Eventualmente iam se organizar num determinado tempo e num determinado preço.”
Mas o que estamos vendo agora, ressalta Ribeiro, é um player importante no mundo, a Europa, mudando seu encadeamento produtivo por questão geopolítica. Os países europeus, diz, buscarão tornar-se menos dependentes de insumos da Rússia. Isso vai levar a um novo equilíbrio, avalia. “Não se trata mais de esperar um choque, ainda que prolongado, passar. Há uma mudança na forma de fazer que vai impactar o encadeamento produtivo global.”
As estruturas produtivas criadas nos últimos 25 anos, aponta Ribeiro, passaram por momentos de mudança. Na primeira rodada foi em razão da guerra comercial entre Estados Unidos e China. Na segunda, pelo desejo de proteção estratégica de produção em razão dos impactos da covid no encadeamento produtivo. Agora, na terceira rodada, diz ele, por questões geopolíticas deflagradas com o conflito Rússia-Ucrânia.
Fonte: Valor Econômico


