Por Agências Internacionais
06/01/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
O líder republicano Kevin McCarthy sofreu ontem mais uma humilhante sequência de derrotas em sua tentativa de se tornar presidente da Câmara dos EUA, deixando a legislatura paralisada pelo terceiro dia consecutivo. A crise que impede o início da nova Câmara com uma maioria republicana é um alerta do risco de a disfunção em Washington desencadear uma desastrosa crise da dívida dos EUA ainda neste ano.
Não há uma resolução imediata à vista para o impasse. Isso apesar de McCarthy ter oferecido concessões significativas nas regras da Câmara que enfraqueceriam seu poder e sua capacidade de controlar os linhas-duras de seu partido.
Após três dias e onze rodadas de votação, 20 dos 222 republicanos mantiveram firmes sua oposição a McCarthy, mais do que o suficiente para lhe negar a maioria necessária para ser eleito presidente.
Em meio as sucessivas votações, ambos os lados continuaram tentando negociar uma saída para o impasse. Um aliado de McCarthy sugeriu que a negociação pode se estender até o fim de semana.
O impasse entre a maioria dos republicanos e os dissidentes ultraconservadores sobre a escolha do presidente da Câmara expôs a profundidade da divisão dentro do partido e a impotência dos líderes do Partido Republicano em obrigar os membros recalcitrantes a aceitarem acordos políticos.
McCarthy mantém o tom otimista de que no fim alcançará um acordo com os dissidentes, mas o impasse indica como será difícil negociar votos sobre questões controversas. Também existe o risco de que as concessões oferecidas por McCarthy venham a limitar sua capacidade de forçar a aprovação de projetos de leis.
Enquanto um presidente não for eleito, a Câmara não pode realizar nenhuma outra atividade, como nomear integrantes para comissões ou mesmo pagar deputados e funcionários.
Assim que a Casa definir um presidente, a política fiscal deve ser o novo campo de batalha. Com a liderança republicana debilitada, os conservadores linha-dura teriam maior margem para precipitar um calote dos EUA. Se o Congresso não elevar o teto da dívida pública, economistas estimam que o governo federal esgotará os meios de evitar um default em algum momento entre setembro e outubro.
“A disfunção é um sinal claro”, alertou Brian Gardner, estrategista-chefe da Stifel Nicolaus & Co. em Washington, em nota aos clientes. O deputado Brendan Boyle, principal democrata da Comissão de Orçamento, disse que já estava preocupado com o risco de um calote dos EUA antes mesmo do início da sessão do Congresso, por causa das divisões entre os republicanos.
“As últimas 48 horas só fizeram aumentar meu nível de preocupação”, disse Boyle ontem em entrevista a Bloomberg TV. “Não conseguir elevar o teto da dívida seria catastrófico não apenas para os EUA, mas para o mundo.”
Muitos dos que se opõem a McCarthy também estão ansiosos por comprar uma briga a respeito do teto da dívida, e cobram dos líderes republicanos que usem a ameaça de default como alavanca para forçar cortes profundos nos gastos. O presidente Joe Biden e outros líderes democratas foram taxativos na recusa a ceder ao que chamam de “usar a economia dos EUA como refém”.
Qualquer turbulência seria um golpe para uma economia vulnerável, em que o aperto monetário do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) já reduz o crescimento e a capacidade de reação do BC está limitada pela inflação alta. Na situação atual, analistas privados preveem, em média, 70% de chance de os EUA entrarem em recessão até o fim do ano.
Para Doug Heye, ex-assessor da liderança republicana, mesmo que McCarthy vença a eleição ou o partido consiga definir um candidato viável, o novo presidente da Câmara ficará enfraquecido e os dissidentes mais audaciosos.
“Seja quem for, o próximo presidente da Câmara terá um trabalho muito duro e uma das razões disso é a estrutura de incentivos que recompensa o mau comportamento: você consegue arrecadar dinheiro, vai à TV, pode ir a Mar-a-Lago”, disse Heye, referindo-se à casa de Donald Trump na Flórida.
Fonte: Valor Econômico