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Após se reunir com representantes das agências de risco internacionais S&P e Moody’s em Nova York, nesta segunda-feira (23), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reiterou diversas vezes que o governo está trabalhando para colocar as contas públicas em ordem e que, conforme consta no quarto relatório bimestral de receitas e despesas divulgado na sexta-feira (20), as despesas “estão absolutamente dentro da regra do arcabouço fiscal”, o que é um ponto a favor do Brasil na reconquista pelo grau de investimento.
“Na minha opinião, evidentemente, cabe às agências de risco definir, mas os prognósticos da equipe técnica da Fazenda são muito bons. E isso nos deixaria, não sei se em todas, mas em pelo menos uma das agências de risco a um passo do grau de investimento”, disse o ministro.
A expectativa é que Haddad se junte ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva também em uma reunião com o presidente da agência Fitch Ratings, Paul Taylor, na terça-feira (24).
Lula já havia questionado o ministro sobre o cronograma do Ministério da Fazenda para conseguir novamente o grau de investimento e quais eram as perspectivas para que isso aconteça. Segundo o ministro, a expectativa do presidente é conseguir atingir o maior patamar de risco de crédito até o fim de seu mandato. “Eu disse para ele que nós aguardávamos uma nova rodada de aumento da nota para o ano que vem”, comentou o ministro.
A Standard & Poor’s foi a primeira agência a retirar do Brasil o selo de grau de investimento, em 2015, durante a crise do governo Dilma Rousseff – a mesma agência foi a precursora em conceder o status de lugar seguro para os investidores, em 2008, no segundo mandato de Lula.
“A convicção que eu tenho, ouvindo tudo o que ouvi, é que nós estamos no caminho. E vamos tentar acelerar o passo o mais rápido possível”, disse Haddad.
O ministro lembrou que o país é credor internacional e tem US$ 100 bilhões de superávit comercial, além de ser um dos principais destinos dos investimentos dos estrangeiros. “O Brasil está sendo procurado por todos os países, pelos fundos soberanos, para apresentar seus investimentos, do PAC, da transformação ecológica, da reindustrialização”, pontuou.
Apesar da confiança em que as políticas implementadas para resolver o rombo fiscal e a melhora da economia brasileira são pesos relevantes para a reconquista da nota de crédito, o ministro ponderou que as agências de classificação de risco não costumam subir dois degraus de notas de um ano para o outro, e sim de forma gradual.
“Mas há uma dinâmica. Você não muda a chave da situação herdada para a situação almejada de um dia para o outro.”
Ele reiterou que cabe às agências de risco definir as notas de crédito, mas, disse que, em sua opinião, os prognósticos da equipe técnica da Fazenda “são muito bons”. “E isso nos deixaria, não sei se em todas, mas em pelo menos uma das agências de risco, a um passo do grau de investimento”, afirmou.
Haddad citou que, em 2021, o país estava três degraus abaixo do grau de investimento. Na análise da Moody’s, a atual nota de crédito do Brasil é “Ba2” e, conforme relatório de maio da agência, se baseia na força fiscal “ainda relativamente fraca” do país, tendo em vista o elevado nível de endividamento “e sua fraca capacidade de pagamento da dívida”, que permanece sensível a “choques econômicos ou financeiros”. No caso da S&P, em dezembro do ano passado, a agência elevou a nota de crédito soberana do país de ‘BB-‘ para ‘BB’, com perspectiva estável.
“Nós explicamos o resultado fiscal do ano passado, em virtude dos calotes que foram praticados durante o período eleitoral, mas já estavam pagos, e que o comportamento das despesas e das receitas estão condizentes com o arcabouço fiscal”, disse Haddad.
As questões relacionadas ao arcabouço fiscal e o plano do governo para equilibrar gastos e receitas dominaram boa parte da conversa com as agências. A reunião com cada agência durou cerca de uma hora.
O rating é um dos fatores observados na análise de investimentos de fundos globais, e, em alguns casos, há fundos que, por regulamento, não podem direcionar recursos para países que não sejam grau de investimento. Para atrair investimentos para o Plano de Transformação Ecológica do governo e outros projetos, este ainda é um obstáculo segundo especialistas.
O Plano de Transformação Ecológica foi apresentado por Haddad a investidores estrangeiros em uma mesa-redonda organizada pelo think tank Milken Institute em Nova York
“As pessoas se animam porque a gente está muito na fronteira desses assuntos [ambientais e de sustentabilidade]”, comentou o ministro. E acrescentou que ouviu de alguns investidores que é preciso fazer uma diversificação geográfica na cesta de ativos, o que dá ao Brasil, uma oportunidade de chamar a atenção. “Se você vai dividir os seus jogos em várias cestas, um deles falou, a cesta brasileira se apresenta como uma das melhores”, diz.
Haddad destacou que houve perguntas sobre se teria oportunidades para o setor privado, que ele respondeu que praticamente todo o Plano de Transformação Ecológica implica parcerias privadas e públicas. “Não há investimentos públicos puros nesse plano. Até o investimento em ciência e inovação está sendo feito com o setor privado.”
Mas ressalva que a atratividade de investimento ainda é um processo, citando a complexa geopolítica como um dos pontos que preocupam investidores na hora de alocar capital.
Particularmente sobre o Brasil, Haddad explicou que foi questionado se virá, em breve, o grau de investimento. Ele concordou quando questionado se é ainda uma barreira para a atração de investimento.
Na apresentação, o ministro sublinhou como o Brasil está bem posicionado para uma economia de baixo carbono, contando com uma abundante oferta de energia renovável e uma infraestrutura robusta e integrada em todo o território nacional.
Além disso, também comentou sobre as reservas significativas de minerais críticos, essenciais para a transição energética, e uma vasta extensão de terras disponíveis para a produção de alimentos e matéria-prima para energia, sem a necessidade de desmatamento. A rica biodiversidade e um parque industrial diversificado, com setores consolidados como o de aço, química e automotivo, foram outros pontos apresentados.
Haddad também elencou aos estrangeiros as medidas legislativas já aprovadas, como Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão (que aguarda sanção presidencial), o Mover, com mais de R$ 100 bilhões de investimentos, Combustíveis do futuro e a reforma tributária que, segundo ele, traz diversos elementos de sustentabilidade, como os critérios para os fundos de desenvolvimento, IPVA verde, partilha de tributos e imposto seletivo.
Fonte: Valor Econômico

