“Nosso mundo está em um turbilhão” foi a primeira frase do longo discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, ao abrir a 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. “Estamos nos aproximando do inimaginável: um barril de pólvora que corre o risco de engolir o mundo”
Em um de seus discursos mais longos e contundentes na Casa que lidera há sete anos, Guterres disse que “Gaza é um pesadelo ininterrupto que ameaça levar junto toda a região” e disse que todos deveriam estar alarmados com a escalada do conflito no Líbano. “O Líbano está no limite” e acrescentou: “O Líbano não pode se tornar outra Gaza”.
“Sejamos claros”, disse o secretário-geral, “nada pode justificar os abomináveis atos de terror cometidos pelo Hamas em 7 de outubro, ou a tomada de reféns, que condenei rapidamente”. E seguiu: “Mas nada pode justificar a punição coletiva do povo palestino”, sendo interrompido por aplausos da plateia.
O discurso de Guterres acontece enquanto o exército israelense lança novos ataques aéreos contra o Hezbollah nesta terça-feira (24), um dia depois que Israel realizou um dos seus bombardeios mais mortais no sul do Líbano, matando 558 pessoas, incluindo dezenas de mulheres e crianças, e feriram mais de 1,8 mil, segundo as autoridades libanesas.
Pedindo por um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza, o secretário-geral pressionou mais uma vez para que a comunidade internacional se mobilize para chegar a um acordo que garanta a libertação imediata e incondicional de todos os reféns e “o início de um processo irreversível rumo a uma solução de dois Estados.”
Citando outros conflitos que se espalham pelo mundo — como a guerra no Sudão e a violência em Mianmar — Guterres criticou a interferência de potências externas “sem uma abordagem unificada” para entregar a paz.
O secretário-geral também falou da polarização (que coloca o mundo em um Purgatório) e do envelhecimento das instituições multilaterais do pós-guerra. “Até hoje a África ainda não tem assento permanente no principal fórum de paz do mundo”, disse, referindo-se ao Conselho de Segurança da ONU controlado pelo poder de veto de cinco potências — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.
Por fim, Guterres afirmou que para o mundo voltar ao “bom caminho” é necessário um aumento do financiamento para a Agenda 2030, o plano de ação global da ONU para alcançar um futuro melhor, e para o Acordo de Paris, para frear o aumento das temperaturas.
“Isto envolve os países do G20 liderando um estímulo aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de US$ 500 milhões por ano”, disse o secretário-geral, citando também os riscos das mudanças climáticas, especialmente na economia de países mais pobres. “Os riscos climáticos estão a abrir um buraco nos orçamentos de muitos países africanos, custando até 5% do PIB – todos os anos”.
Guterres falou longamente sobre a necessidade de o mundo colocar preço ao carbono e da obrigação dos países do G20, de transferirem os subsídios e investimentos em combustíveis fósseis para a transição energética. Matou o dilema em duas frases: “Um futuro sem combustíveis fósseis é certo. Uma transição justa e rápida não o é.” E jogou a responsabilidade aos líderes de 196 países do mundo: “Isso está em suas mãos”.
“Sinto-me honrado por trabalhar em estreita colaboração com o presidente Lula do Brasil – que é simultaneamente Presidente do G20 e anfitrião da COP30”, acrescentou o chefe da ONU, mencionando os esforços que devem ser alcançado na COP30 em 2025, “para garantir o máximo de ambição, aceleração e cooperação”.
Para Guterres, o estado do mundo é insustentável, mas os desafios têm solução. O futuro está atrelado ao equacionamento de três contextos – a impunidade, a desigualdade e a incerteza. Sobre o último ponto disse que “os riscos globais não geridos ameaçam o nosso futuro de formas desconhecidas”.
Foi seu discurso mais interessante. Sobre a angústia atual, disse o que todos percebem (“O chão está mudando sob nossos pés”), o que é invisível nas métricas (“Os níveis de ansiedade estão fora dos gráficos”) e a obrigação dos mais velhos com os mais jovens, “que contam conosco e procuram soluções”.
Fonte: Valor Econômico