Por Sérgio Tahuata*, Valor — Paris (França)
09/02/2023 17h47 Atualizado há 17 horas
A guerra entre Rússia e Ucrânia foi o principal fator na mudança agressiva das políticas monetárias dos principais bancos centrais globais, como o Federal Reserve (Fed), dos EUA, e o Banco Central Europeu (BCE), afirma o economista-chefe da Coface, Jean-Christophe Caffe. “O conflito foi o principal fator, um ano atrás, para acelerar os apertos monetários não apenas do Fed e do BCE, mas também do Banco da Inglaterra e das autoridades de países emergentes”, acrescenta.
Conforme o economista, “houve uma piora significativa da dinâmica da inflação com a crise de energia e de alimentos, o que jogou os BCs para um rumo que chamaria até de violento”. Havia antes da guerra uma pressão de subida de preços, “mas era um movimento mais lento, impulsionado mais pelo lado da oferta”.
Caffe ressaltou aida que a guerra mudou a economia global de uma maneira permanente. “Há uma mudança para um novo regime que terá inflação mais elevada, uma reglobalização, ou seja, uma mudança nos padrões de globalização, uma reorganização das cadeias de produção e uma multipolarização geopolítica.”
A mudança estrutural para a inflação, de acordo com o economista, deriva da combinação de diversas variáveis. Uma força que já está em ação há muitos anos vem da mudança demográfica. “Há um envelhecimento em marcha nos países desenvolvidos e também em países emergentes, como a China. Isso certamente será um divisor de águas.”
Outro fator vem do que Caffe chama de “DNA da abundância”. Segundo o especialsta, o mundo se acostumou a uma era de abudância de energia barata e, por consequência, de uma cadeia de produção que se desenvolveu totalmente baseada em eficiência de preços. “Agora, na verdade, estamos pagando o preço da falta de investimento em exploração de energia. Combustíveis fósseis e carvão representam 80% da energia primária no mundo.”
Além disso, durante a crise de preços que o petróleo viveu entre 2015 e 2018, o preço do barril de óleo, que chegou a custar US$ 120 alguns anos antes, chegou a ficar abaixo de US$ 30. Houve um recuo de investimentos anuais em produção que não voltou mais ao pico.
“Esse investimento chegou a ser de US$ 8 bilhões ao ano caiu para metade no auge da crise e agora devemos estar em um patamar de menos de US$ 6 bilhões, ou seja, não temos investido o suficiente para assegurar o abastecimento diante do crescimento da demanda”, explica. Com procura maior e produção em declínio, o petróleo tende a ficar mais caro nos próximos anos.
Um terceiro fator inflacionário, aponta o economista, é o próprio custo da transição para energia verde. “Temos de investir aproximadamente US$ 3,5 trilhões ao ano atpe 2050 para cumprir as metas do acordo de Paris”, afirma.
“Estamos investindo globalmente entre US$ 1 trilhão a US$ 1,2 trilhão, então teremos de fazer muito mais. Nos proximos 10 a 12 anos, significa aportar quase o valor de toda a dívida pública americana.”
A reorganização das cadeias de produção também é uma força inflacionária em marcha. “Tem havido uma mudança da estratégia de ‘just in time’ [que prevê o abastecimento de insumos diretamente nas linhas de produção] diante da busca por segurança na cadeia de abastecimento e a realocação desse fornecimento”, pondera.
Na visão do chefe de análise de riscos políticos e economista para a América do Norte da Coface, Ruben Nizard, “esse movimento também tem deflagrado uma espécie de competição entre os blocos geopolíticos”. Segundo o especialista, “a China, por exemplo, está muito interessada em garantir o fornecimento de commodities pela América Latina, enquanto os EUA têm mostrado interesse na região para diversificar a cadeia de suprimentos, aproimála de casa e assegurar maior segurança”.
A Europa também tem interesse em aumentar o comércio com a América Latina, mas tem priorizado a própria reorganização interna do bloco, diz Nizard. “Existem países muito próximos das principais economias na zona do euro e a prioridade tem sido reforçar a parceria dentro da Europa”, avalia. “Em termos de trazer as cadeias para mais perto, o norte da África e o Oriente Médio são também mais estratégicos”, acrescenta.
No caso do Brasil, pondera Nizard, os diferentes blocos geopolíticos manifestam interesse em firmar parceriais em setores chaves do país, como mineração, petróleo e gás e commodities agrícolas. “Haverá algum tipo de competição entre os diferentes blocos como EUA, Europa e China interessados em reforçar parceriais para assegurar o fornecimento de commodities bem como acesso a um grande mercado consumidor.”
Fonte: Valor Econômico

