A guerra do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã desencadeou uma onda inflacionária no país que, segundo economistas, vai persistir por muito tempo depois do fim do conflito e pressionar os americanos no período que precede as eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro.
Todos os setores da maior economia do mundo têm sentido o impacto da guerra desde que começou, no fim de fevereiro, e especialistas acreditam que levará tempo para que o choque inflacionário se dissipe.
“Estávamos em uma trajetória muito boa de queda da inflação. Agora temos uma certa reversão”, disse Kristalina Georgieva, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI). “O que observamos é que as expectativas de inflação de curto prazo subiram aqui nos Estados Unidos.”
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Georgieva afirmou que as consequência do conflito em todo o mundo não vão “evaporar da noite para o dia, mesmo que a guerra termine amanhã”.
O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, em resposta à campanha de bombardeios dos EUA e de Israel, levou a uma escassez de combustível em todo o mundo e fez os preços dispararem. O preço do petróleo tipo Brent, que é a referência mundial, saltou de cerca de US$ 70 por barril quando o conflito começou para mais de US$ 110 por barril no seu auge. Em condições normais, um quinto de todas as remessas de petróleo do planeta passa pelo Estreito de Ormuz.
Na sexta-feira, o anúncio de Teerã de que o estreito ficaria aberto durante a vigência de um cessar-fogo provisório, fez os preços do petróleo caírem mais de 10% e ficarem abaixo de US$ 90 por barril. Mas no sábado o governo iraniano informou que o estreito não reabrirá por completo e continuará sob seu “controle estrito”.
Mesmo que a trégua se mantenha (conforme anunciado por Trump na terça-feira 21), a guerra deixará um impacto duradouro nas economias de todo o mundo.
A inflação nos EUA pulou para 3,3% em março, o nível mais alto em dois anos, como medido pelo índice de preços ao consumidor da Agência de Estatísticas do Trabalho. O resultado foi impulsionado em grande parte pela alta dos preços da gasolina.
A estimativa do FMI para a inflação no EUA este ano subiu para 3,2%, em comparação com os 2,5% previstos antes de que a guerra começasse. A expectativa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de um aumento ainda maior, de 2,8% para 4,2%.
“Até o fim do ano os preços estarão consideravelmente mais altos do que estariam em outras circunstâncias”, disse Joseph Gagnon, pesquisador do Peterson Institute for International Economics. “[A inflação] vai desacelerar de forma gradual, mas não cederá por completo nem mesmo em dezembro – ela ainda estará perceptivelmente mais alta do que em janeiro.”
O primeiro salto da inflação ao consumidor foi impulsionado pelo aumento dos preços nos postos de combustível. Os da gasolina subiram de US$ 2,98 por galão quando o conflito começou para uma média de US$ 4,02 ontem, segundo a American Automobile Association (AAA).
Mas os efeitos indiretos, à medida que os preços do combustível se refletem em outros setores da economia, ainda não foram sentidos por completo.
“O risco é de que, quanto mais o conflito se arrastar e os preços da energia continuarem altos, maior seja a probabilidade de que esses preços maiores afetem outros, à medida que as empresas incorporem os custos elevados dos insumos energéticos na definição de seus preços”, explicou na sexta-feira Christopher Waller, um dos diretores do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).
O diesel – que é um insumo essencial em todo tipo de setor, da agricultura ao transporte rodoviário de carga – aumentou de US$ 3,76 para US$ 5,51 por galão desde o início do conflito. Isso deixa o preço próximo de seu recorde de US$ 5,82, a que chegou em 2022, logo depois da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Muitos americanos já sentem o aperto. Larry Smith, um aposentado de 72 anos que mora perto de Sealy, uma cidade a oeste de Houston, no Texas, contou que sentiu o impacto da alta dos preços assim que o diesel começou a ficar mais caro.
“Este país ainda funciona a base de diesel, e quando o diesel sobe, provoca um efeito cascata em tudo o mais”, disse Smith, sentado em sua caminhonete Chevrolet azul, com adesivos de apoio às Forças Armadas dos EUA na janela corrediça traseira. “Sou um velho fuzileiro naval e na verdade não estou nada impressionado com o rumo que as coisas estão tomando.”
“Estamos cortando gastos com muitas coisas”, contou sua companheira, Delores Smith, uma funcionária do Walmart de 65 anos. “É por isso que tantas pessoas estão voltando a trabalhar.” Ela explicou que muitos de seus amigos aposentados tiveram de arranjar emprego de novo para conseguir pagar as contas.
O índice de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan caiu para um nível recorde em abril, em meio ao pessimismo com a alta dos preços. Seu índice de expectativas de inflação mostrou que os americanos esperam que os preços subam 4,8% ao longo do ano que vem, porcentual que era de 3,8% há um mês.
O preço do combustível de aviação dobrou, o que elevou os custos para as companhias aéreas e as levou a aumentar os preços das passagens.
Os custos dos fertilizantes nitrogenados subiram mais de 30% desde que a guerra começou, segundo a associação do setor agrícola American Farm Bureau Federation, e a expectativa é que essa alta seja repassada aos preços dos alimentos ainda este ano.
Até o fim do ano, os preços estarão mais altos do que estariam em outras circunstâncias”
Como os custos do transporte rodoviário de carga subiram, executivos do setor de bens de consumo alertam para a possibilidade de aumentos de preços nos próximos meses. “Nossa avaliação é de que a inflação virá”, afirmou esta semana Steve Schmitt, diretor financeiro da PepsiCo.
Stew Leonard Jr., executivo-chefe da rede de supermercados Stew Leonard’s, disse que o aumento rápido dos preços do diesel desde o início da guerra fez o abastecimento de suas oito lojas na região metropolitana de Nova York ficar mais caro.
“O combustível afeta todos os setores do ramo de alimentos”, contou ele ao Financial Times. “Antes gastávamos US$ 5 mil para trazer uma carreta da Flórida até aqui com todas as nossas frutas e verduras. Agora, são US$ 7 mil.”
Leonard afirmou que, depois de anos de inflação persistente, ele e os demais líderes da empresa familiar decidiram “absorver” os custos por enquanto. “Isso não é nada bom para nossas margens já apertadas no setor”, disse.
O núcleo da inflação, que não leva em conta os preços voláteis de alimentos e energia, teve um leve aumento de 2,6% em março, em comparação com um ano antes, mas a expectativa dos economistas é de que ele suba de maneira gradual nos próximos meses, à medida que os efeitos da alta dos preços dos combustíveis se reflitam em outros setores da economia.
Os economistas acreditam que essa alta demorará mais para se consolidar e terá uma magnitude menor do que a disparada da inflação como um todo, mas alertam que ele será “mais persistente” e levará mais tempo para se dissipar.
Para Trump, que se candidatou à presidência com a promessa de combater a inflação, a persistência dos preços altos representa uma ameaça política. A popularidade do presidente já está abalada por uma crise do custo de vida persistente, que agora ameaça enfraquecer os republicanos nas eleições de meio de mandato deste ano.
Damone Godbolt, um motorista de caminhão do Walmart de 37 anos que fazia compras em Sealy, reclamou do aumento dos preços e criticou o presidente por intervir no Oriente Médio. “Não deveríamos estar lá, não tem sentido se meter nisso.”
“Somos uma família de sete pessoas, sentimos muito o impacto”, disse ele, em referência à alta dos preços. “Estamos tentando ser mais cuidadosos, com as contas aumentando, abrimos mão de algumas coisas, alguns petiscos de luxo, e hoje só compramos apenas itens essenciais.”
Segundo o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, “embora o presidente Trump sempre tenha sido claro sobre os transtornos temporários resultantes da Operação Epic Fury, o governo nunca perdeu o foco na implementação da agenda de acessibilidade econômica do presidente no âmbito nacional”.
Desai afirmou que as “políticas da Casa Branca do lado da oferta, de desregulamentação, abundância de energia e cortes de impostos, continuam a esfriar a inflação no longo prazo”. E acrescentou que “à medida que os mercados de energia se estabilizarem com a reabertura do Estreito de Ormuz, a inflação geral deve fazer o mesmo”.
Esta semana o presidente despachou alguns de seus principais assessores para tomarem providências para resolver a questão dos custos dos combustíveis.
Os secretários do Interior, Doug Burgum, e de Energia, Chris Wright, fizeram uma teleconferência com executivos do setor do petróleo na quinta-feira e os pressionaram a aumentar a produção. Enquanto isso, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, avisou os varejistas de combustíveis que o governo espera que eles reduzam os preços rapidamente, à medida que o preço do petróleo cair.
“Vamos ficar de olho nos postos de gasolina, porque eles aumentaram os preços muito rápido quando os do petróleo subiram. Esperamos que eles os reduzam com a mesma rapidez, já que os preços do petróleo baixaram”, disse ele.
Os americanos mais pobres tendem a ser afetados pelo choque inflacionário de maneira desproporcional, já que gastam uma parte maior da renda com combustível.
“As pessoas mais ricas também gastarão mais com energia”, ressalvou Gagnon. “Mas se você é pobre, precisa mesmo abastecer seu carro e aquecer sua casa e isso pesa muito no seu orçamento, então, em termos relativos, você é mais afetado.”
Em Sealy, Teresa Cano, uma dona de casa de 50 anos, disse que tudo já parece mais caro.
“Antes costumávamos comprar três a quatro caixas de garrafas de água e agora compramos uma ou duas pelo dobro do preço”, reclamou ela. “Estamos comprando coisas mais baratas em vez de produtos de marcas conhecidas.”
“A caixa simplesmente pagou pelos ovos”, contou Cano. “Eu tinha 132 dólares e disse para tirar os ovos da conta, e ela respondeu ‘deixa que eu pago’.” (Tradução Lilian Carmona)
Fonte: Valor Econômico
