A série de casos de recuperação judicial de grandes empresas do agro e também de produtores rurais criou o primeiro grande teste de resistência dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas do Agronegócio (Fiagro) desde o surgimento desse produto, em 2021. A despeito disso, analistas e gestores se dizem otimistas com as perspectivas para os Fiagros em 2025.
“O agronegócio é cíclico e resiliente. A cada safra, o cenário muda, e neste ano, o que chamo de ‘Cs do agro’ são todos positivos: clima, commodity, China e câmbio”, afirma Guilherme Grahal, responsável pela estratégia de investimentos no setor da Valora Investimentos. Todos esses fatores, argumenta, indicam melhoria de rentabilidade de produtores e de empresas do setor, o que aumenta o apelo dos Fiagro tanto para quem quer aplicar fazer investimentos como para as empresas que precisam do crédito.
Grahal conhece bem o agro. Ele trabalhou por alguns anos na Cargill e, por isso, criou como tese para o fundo da Valora de investimento na cadeia de grãos. “Éramos um dos poucos que não tínhamos Agrogalaxy na carteira, ainda que não tenhamos passado ilesos pelo momento ruim, porque tivemos problemas de crédito com uma cooperativa de frangos e suínos”, afirmou.
A Agrogalaxy era uma das quatro maiores revendas de insumos do país e pediu recuperação judicial em setembro, com dívida de mais de R$ 4 bilhões, afundando a cota de muitos Fiagros que tinham a empresa na carteira. Outras empresas também postergaram ou não pagaram seus financiadores.
Mas o fato é que a soja é o produto responsável por definir investimentos, calotes e margens — e tem boas perspectivas para 2025. “O preço da commodity está estável, mas com o dólar em alta [em relação ao real], as exportações devem aumentar. Além disso, a demanda chinesa deve se voltar ao Brasil com os atritos envolvendo [o novo presidente americano] Donald Trump”, afirmou Grahal.
Artur Carneiro, sócio fundador da Éxes, especialista em crédito privado, lembra também que o setor precisa se financiar e os Fiagros são um instrumento prático e com spreads mais baixos que os financiamentos tradicionais para quem tem boa gestão.
“Os fundos precisam realocar suas cotas, e os players estruturados da cadeia saem na frente”, disse. Segundo ele, atualmente, os Fiagros representam 10% do financiamento do setor. “Os Fiagros são muito pequenos para o tamanho da cadeia. No começo eram todos iguais, com alocação de recursos nas mesmas empresas. Agora, vejo cada um criando sua tese”, disse.
Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima), em novembro de 2024, o patrimônio líquido dos fundos somava R$ 41 bilhões, montante 17,1% superior aos R$ 35 bilhões de um ano antes. Dentre os detentores de cota, 34,2% eram pessoas físicas, 10,36% investidores institucionais, 15,88% intermediários e 39,36% fundos de investimento.
Um segmento com potencial de crescimento neste ano é o de terras. Curiosamente, apesar de o mercado de terras agrícolas ser de mais de R$ 6 trilhões, são poucos os fundos que atuam nele. Para os especialistas, o problema é o investidor desses fundos pedir um pagamento mensal e, assim, perder oportunidades. A maioria dos fundos investe em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), cujos devedores sofreram com as incertezas pós-Agrogalaxy.
Enquanto um Fiagro de empresa paga entre 8% e 9% ao ano, um fundo de terra agrícola paga 2% a 3%, o rendimento de um arrendamento. “A criação de valor deste tipo de fundo está no longo prazo, na valorização da terra, por isso acredito que ainda vão decolar mas o investidor tem que entender que é o outro tipo de ganho”, diz Vitor Duarte, diretor de inovação e tecnologia da Suno Asset. A gestora criou seu primeiro fundo e terras em agosto e já conseguiu 3,1 mil cotistas. “São pessoas com foco no longo prazo”, resumiu.
Do ponto de vista do investidor, as cotas dos Fiagros em geral estão atualmente com 25% de desconto em média em relação ao valor patrimonial, segundo a Ecoagro. Portanto, apresentam uma oportunidade de valorização para quem os compra. Outra questão é que alguns deles pagam juros mensais equivalentes a até 120% do CDI. Sem falar que continuam isentos de imposto de renda.
No mercado de capitais, uma forma de avaliar se uma cota está cara ou barata é dividir o valor negociado em bolsa do ativo ou o valor do patrimônio líquido do fundo pela quantidade de cotas que possui. Se o resultado for maior que 1, o fundo está sendo negociado por um preço acima do seu valor patrimonial. Se ficar abaixo do 1, a cota está “descontada”.
Fonte: GLOBORURAL