Sou empresário da indústria farmacêutica há bons 35 anos. E estou completando um ciclo de 15 anos à frente da entidade mais representativa do setor em que atuo —segmento cuja regulação ampla e rigorosa o torna 100% dependente da burocracia oficial.
Empreendendo há tanto tempo, permito-me fazer uma análise crítica do que vivi nesse período. Atribui-se a um general francês a afirmação “O Brasil não é um país sério”. Ele estava certo e, para mim, a situação piorou: evoluímos para um país promíscuo.
Pode parecer uma afirmação agressiva, mas é o que percebo exercendo a livre iniciativa e enfrentando o árduo desafio de construir neste país. Em quase tudo a degradação moral é um traço comum: do quebra-galho ao “deixa comigo”, tudo é a mais pura enganação. Criamos uma cultura única, expressa na famosa frase do grande Gerson —”Eu gosto de levar vantagem em tudo”—, talvez a única “lei” que pegou no Brasil sem estar no Código Civil nem no Código Penal.
Em um jogo de faz de conta incansável, queremos ser evoluídos, com alta dose de arrogância e pretensão, sem reconhecer nossas limitações culturais e éticas.
Ser honesto no Brasil não vale a pena. De fato, é penoso e ingênuo, pois não há punição para o trambique. Frequentemente, temos exemplos da máxima invertida de que o crime compensa. Leis nascem no país para não serem cumpridas —e não o são; e quando são, dá-se um jeito de modificar o seu entendimento no percurso de um Judiciário nebuloso, lento e asfixiante.


Em todas as esferas de poder a promiscuidade se estruturou e perdemos a vergonha de praticá-la. Nos queixamos dos políticos e esquecemos que a política é moldada e organizada por nós. O atual nível dos homens públicos, com honrosas exceções, equivale ao nosso como sociedade. Não adianta reclamar! É isso!
País do futuro, celeiro do mundo, natureza espetacular… É cansativo ouvir os que argumentam que esses atributos garantem uma grande nação. Somos “gigantes pela própria natureza” e nanicos em valores verdadeiramente importantes. Chego a pensar que ser honesto por aqui é uma qualidade acessória e opcional.
O ponto é que ser íntegro no Brasil é uma enorme penalidade e gera uma grande desvantagem, o que causa assimetrias sociais e competitivas intransponíveis.
É claro que a sociedade brasileira produz muita coisa boa, tem muita gente competente e ética, mas parece ser uma minoria silenciosa que se omite e segue seu rumo. É frustrante ser brasileiro, e o tapinha nas costas usual não é remédio que funcione; ao contrário, nossa complacência é alimento para nossas mazelas.
Vale uma referência particular à nossa elite, sempre ausente e focada na proteção dos seus interesses. O carro blindado é normal nos “clusters” onde vivemos em completo apartheid —cômodo para quem só olha seu umbigo, sendo incapaz de ver ao redor e em profundidade para enxergar o país verdadeiro.
Pior: grandes conglomerados e riquezas são erigidos com base no toma lá dá cá com o poder. Não vejo condições de irmos em frente; no máximo vamos andar de lado e muitas vezes para trás.
Lembro de meu falecido pai —meu maior mentor—, um lutador e otimista com o Brasil, que dizia: “Meus netos viverão em um país melhor”. Pai, cheguei a uma triste conclusão: meus netos não viverão esse país melhor.
Este Estado perdulário e leniente com todo o tipo de crime é a chaga vigente (e permanente) e razão mesma de sua falência. Empreender de forma séria e correta é um ato de heroísmo desgastante no Brasil.
Esteja direita ou esquerda no poder, a prática é sempre igual. Falta vergonha na cara para este país.
TENDÊNCIAS / DEBATES
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Fonte: Folha de São Paulo