O estresse no mercado de crédito vem mexendo com o humor do investidor e reduzindo o fluxo para fundos concentrados no segmento e levando gestores a uma “ofensiva” com assessores de investimentos para conversas sobre cenário e perspectivas, para acalmar os ânimos e abrandar o movimento.
Levantamento feito pela área de pesquisa do Banco ABC Brasil a pedido do Valor mostra que em abril, até dia 14, os resgates superam os depósitos nos fundos de infraestrutura em R$ 2,8 bilhões. De janeiro a março, o saldo foi positivo em R$ 18 bilhões. Já os de crédito privado ensaiavam uma recuperação, com investimentos superando saques em R$ 10,4 bilhões (até dia 14).
Paulo Bokel, chefe da área de crédito da Absolute Investimentos, intensificou reuniões com escritórios de distribuidores. A ideia é alertar que os pedidos de recuperação extrajudicial que chamaram a atenção nos últimos meses acabaram dando “a falsa impressão de que o cenário está ruim.”
“Muitos investidores ficaram nervosos e saíram. Com isso, o fluxo de resgate continua e tem dominado mais o mercado do que os eventos de crédito propriamente ditos”, avalia.
Bokel cita estatísticas que mostram que as micro e pequenas empresas respondem por mais de 80% dos pedidos de recuperação judicial, enquanto as de grande porte, com receita acima de R$ 300 milhões anuais, menos de 5% dos casos. Além disso, afirma, menos de 20% das empresas que entram com pedido chegam efetivamente à falência.
De acordo com o gestor, o mercado secundário de debêntures quase dobrou entre 2023 e 2025, de R$ 473 bilhões para R$ 947 bilhões, o que traz reflexos nos spreads rapidamente. Bokel afirma que, portanto, estamos vendo “mais empresas sendo reprecificadas em um mercado mais transparente e maduro.”
“Os eventos geraram mal-estar com crédito corporativo de maneira geral e nosso papel é esclarecer a situação”, diz Pierre Jadoul, diretor-executivo e gestor responsável pela estratégia de crédito privado da ARX Investimentos. Ele frisa que os resgates de março para cá são pequenos perto da captação dos fundos de crédito privado e infraestrutura nos últimos dois anos e, portanto, “não há movimento de corrida.”
“O que tenho explicado aos assessores é que nenhuma dessas empresas em situação de falta de liquidez é novidade. Nenhuma acordou um dia com problemas do nada.” O gestor cita que a tendência do brasileiro é acompanhar apenas as notas de crédito dadas por agências internacionais de rating. No entanto, um triplo A no Brasil tem que ser considerado sob a perspectiva do país em que a empresa está inserida. “O Brasil não é ‘high grande’, então aqui tudo se torna ‘high yield’. O rating é só uma nota, não é o mais relevante, é preciso ler os relatórios, o que os gestores fazem nos fundos. É natural ter evento de crédito mesmo de grandes empresas.” O gestor pondera que os fundos estão com caixa alto e capacidade de fazer frente aos resgates.
Jadou alerta para o custo de pessoas físicas investirem diretamente nas debêntures incentivadas, aproveitando a isenção de IR. De acordo com ele, a taxa de movimentação neste caso equivale a anos de taxa de administração dos fundos, que costuma ficar entre 0,2% e 0,7 ao ano, sem taxa de performance, no crédito privado e 0,7% e 1% anuais nos incentivados.
Rafael Bellas, chefe de alocação da InvestSmart, um dos maiores escritórios de assessoria de investimentos do país, comenta que a estimativa é que entre 60% e 90% das emissões de CRAs da Raízen foram absorvidos por pessoa física. “Esses que compraram o papel diretamente estão agora presos em títulos com liquidez praticamente inexistente no mercado secundário, enquanto a recuperação extrajudicial segue em negociação.”
Segundo ele, antes do pedido de recuperação, alguns desses papéis já eram negociados com descontos de até 70% do valor de face, e após o protocolo o mercado praticamente travou. “Nos fundos de crédito, a história é diferente. A diversificação natural de uma carteira gerida profissionalmente diluiu o impacto.”
A Vinland Capital também aumentou a frequência das rodas de conversa com assessores e percebeu um aumento nos convites para eventos sobre o assunto, segundo o sócio Jean-Pierre Cote Gil. Ele vê um momento em que o segmento está sem ancoragem, porque o termômetro está concentrado no fluxo. Por isso, a preocupação de mostrar a real situação, para não deixar o pânico se instalar.
O gestor explica que as quedas nos preços dos papéis já geraram um bom ponto de entrada nos fundos, mas acha que o ajuste tanto de fluxo quanto de preço ainda não acabou. “Estamos tentando mapear para onde o dinheiro está indo, vemos um movimento para CDBs. O investidor tem que ganhar confiança de novo e perceber que ausência de volatilidade não quer dizer ausência de risco.”
Frederico Nobre, gestor de investimentos da Warren, diz estar mais ativo na comunicação com assessores, investidores, consultores. “A gente já vinha alertando sobre o nível de spread e trabalhando com mais caixa. A situação parece, num primeiro momento, relativamente controlada por conta desse trabalho de educação que já vinha fazendo.”
Ele vê um exagero na contaminação de outros papéis, já que eram problemas localizados, mas acha, por outro lado, que é um movimento saudável. “Até o final desse semestre, vai ser bem desafiador de bater o CDI.”
Bellas, da InvestSmart, diz que a procura por informação aumentou bastante, sobretudo após os eventos de março, com a recuperação extrajudicial da Raízen e do GPA. Também o diálogo com os gestores se tornou diário “Quando o investidor vê prejuízo nominal na renda fixa, algo que muitos acreditavam restrito à bolsa, a reação imediata é buscar orientação.”
De acordo com Bellas, o fluxo de informação junto aos assessores é constante, e, quando em fevereiro houve remarcações relevantes em emissores como Raízen, Hapvida e CSN, alguns fundos do mercado entregaram entre 60% e 90% do CDI no mês. “Nossa área já havia orientado os assessores sobre o contexto e os pontos a serem abordados com os clientes. O que se observou em março foi um aumento significativo no volume de perguntas, reflexo do próprio crescimento da classe.”
O executivo afirma que é um movimento de remarcação e resgates, sem “quebra generalizada” de crédito. Além disso, a indústria está mais preparada do que em episódios anteriores, com carteiras mais líquidas e pouca exposição concentrada nos nomes que sofreram. “O recado ao cliente é claro: Manter a calma, entender que renda fixa com crédito privado tem, sim, volatilidade, e que resgatar no susto pode significar cristalizar perdas que seriam temporárias.”
Leonardo Ono, gestor da Legacy Capital, lembra que a cada três anos no país há algum tipo de estresse no segmento de crédito. Americanas e Light, por exemplo, foram em 2023. Depois de tanto tempo de Selic alta, avalia, mesmo as empresas mais importantes de seu setor estão com problemas. “A fraude em Americanas causou perdas em quase todos os bancos privados, que retraíram oferta de crédito, além de o mercado de capitais ter ficado fechado. Agora, não vejo motivo para um ‘credit crunch’ [crise de crédito].”
Ono diz que ajuda a segurar os resgates o fato de atualmente o mercado ter poucas alternativas. “Nosso fundo de crédito mais antigo existe desde 2022 e até 2025 nunca teve um ano abaixo de 100% do CDI.” Ele espera um segundo semestre melhor em rentabilidade, o que deve recuperar as perdas nesse início de ano.
Fonte: Valor Econômico

