Por Assis Moreira — De Genebra
17/05/2022 05h00 Atualizado há 5 horas
Um número crescente de países estão impondo restrições à exportação de alimentos, como resposta à escalada nos preços, aumentando a inquietação sobre uma potencial “crise global de fome”. Para enfrentar o problema, os EUA vão anunciar nesta semana, durante reunião do G7, um plano internacional contra a fome e a insegurança alimentar, adiantou ontem a secretária do Tesouro americana, Janet Yellen.
Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), chega a 23 o número de países que restringem as exportações de alimentos. A Índia é o mais recente, na esteira de uma onda de calor recorde que destruiu boa parte de sua safra. O país, que antes queria exportar parte de seu estoque, agora tornou-se um complicador adicional.
“Claramente a guerra da Rússia contra a Ucrânia intensificou em todo o mundo o problema da insegurança alimentar”, disse Yellen durante visita a um centro de refugiados ucranianos em Varsóvia, na Polônia. “A guerra está tendo um impacto além da Ucrânia e é algo que nos preocupa muito.”
Também o presidente do Banco da Inglaterra (BoE), Andrew Bailey, alertou ontem que os preços dos alimentos “apocalípticos”, causados pela invasão da Rússia, podem ter um impacto desastroso sobre os pobres do mundo.
O plano internacional contra a fome e insegurança alimentar será apresentado na reunião dos ministros de Finanças G7 (grupo das sete maiores economias ricas) que começa amanhã em Bonn, Alemanha. Pelo plano liderado pelos EUA, instituições como o Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento “fornecerão apoio emergencial” para ajudar os países a aumentar a produção e a oferta de alimentos e lidar com os preços mais altos.
Em documento apresentado na OMC, o governo dos EUA diz que o aumento recente dos preços de alimentos e a maior escassez desses produtos e de insumos ameaçam agravar a fome e a desnutrição, desestabilizar sociedades fragilizadas, favorecer migrações e causar graves perturbações econômicas.
Para Washington, as restrições à exportação de produtos agrícolas contribuíram fortemente para a crise alimentar mundial de 2008-2010, e conclamou os países a evitarem restrições injustificadas, como limites à exportação, constituição de estoques excessivos de produtos agrícolas e outras medidas que possam ampliar a atual insegurança alimentar.
No fim de semana, os ministros do Exterior do G-7 afirmaram que buscam urgentemente “rotas alternativas” para a exportação de grãos da Ucrânia para evitar uma “crise de fome” internacional.
Dezenas de navios, incluindo os que transportam cargas de alimentos para o Oriente Médio e África, foram afetados pela invasão da Ucrânia por forças russas. Os EUA e seus aliados dizem estar trabalhando com a Organização Marítima Internacional (OMI) para pressionar a Rússia a fim de estabelecer corredores seguros para o transporte marítimo, de forma que produtos agrícolas perecíveis possam alcançar seu destino.
O Brasil também apresentou na OMC uma proposta para a criação de corredores de urgência para assegurar o fluxo contínuo de alimentos, de matérias-primas essenciais e insumos para a produção de alimentos agrícolas, incluindo fertilizantes.
A dificuldade no acesso a cereais, grãos oleaginosos, óleos e insumos agrícolas – essenciais para a segurança alimentar – terá impacto sobre populações mais vulneráveis. O Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas calcula que 811 milhões de pessoas sofrem cotidianamente de fome.
Em evento organizado ontem em Genebra pelo Grupo de Cairns, coalizão de 19 países exportadores, que inclui o Brasil e a Argentina, o presidente da Associação de Grãos da Ucrânia, Nikolay Gorbatchov, relatou que seus agricultores continuam produzindo, apesar da invasão que já dura três meses.
O problema é que a Ucrânia só consegue exportar por vias férreas para a Europa, porque seus portos estão paralisados com os bombardeios russos. Gorbatchov denunciou que Moscou rouba a produção de trigo ucraniana e tenta exportar como sendo russo.
Gorbatchov previu que na safra atual, mesmo sob bombardeio, a Ucrânia poderá produzir 30 milhões de toneladas de grãos. Com isso, totalizará 55 milhões de toneladas para exportação, que não poderão chegar aos mercados internacionais e podem piorar a situação do abastecimento global.
Por sua vez, o diretor-executivo do Conselho Mundial de Grãos, Arnaud Petit, previu ligeira queda de 0,6% na produção mundial, em 2023. Também o Departamento de Agricultura dos EUA estima que o fornecimento global para a próxima safra de trigo poderá cair pela primeira vez em quatro anos.
Gary McGuigan, presidente da Archer Daniels Midlands Company, porém, observou que há grãos suficientes no mundo. O maior problema é a distribuição, ainda mais com as dificuldades de escoamento no porto de Odessa.
McGuigan reclamou que há países que apostam em resolver seus próprios problemas acumulando estoques e freando exportações de alimentos. Ele observou que Rússia e Ucrânia restringiram as vendas de fertilizantes, com o Brasil sendo um dos mais afetados.
Os limites da OMC são claros sobre tentativa de evitar uma crise alimentar global nos próximos meses. O máximo que os países na entidade podem fazer é conclamar por moderação máxima para que não sejam impostas restrições à exportações. Outra medida é de transparência, para quando os países forem adotar restrições, avisarem com antecedência para que a informação chegue rapidamente aos operadores comerciais. (Com agências internacionais)
Fonte: Valor Econômico
