Depois de meses oferecendo retornos mais tímidos, os fundos de infraestrutura (FI-Infra) começam a chamar novamente a atenção dos investidores. E o motivo é óbvio: eles voltaram a pagar mais. O cenário ainda exige cuidado, já que os juros seguem elevados. Mas abre espaço para oportunidades em fundos que hoje negociam com desconto na bolsa.
Segundo a EQI Research, o mercado passou a exigir uma remuneração maior para investir em projetos de infraestrutura, como rodovias, saneamento, energia e telecomunicações. Na prática, significa que o investidor voltou a receber um ganho extra como compensação pelo risco de aplicar nesses ativos.
- Esse ganho adicional é o chamado prêmio, que representa o quanto o fundo paga além de um indexador, como o CDI (taxa de referência do mercado por acompanhar a Selic). Quando esse prêmio é baixo, o investimento fica menos atrativo. Por outro lado, quando sobe, sugere que o mercado voltou a remunerar melhor o risco assumido.
No início de 2025, esse ganho extra girava em torno de 1,6% ao ano acima do CDI. Ao longo do ano, porém, a forte procura por esses fundos reduziu a remuneração, que chegou a ficar próxima de 1% no pior momento. Desde novembro, esse patamar voltou a subir para a faixa de 1,3% a 1,4% ao ano, sinalizando uma melhora na relação entre risco e retorno.
Esse movimento acontece justamente quando muitas cotas de FI-Infra ainda são negociadas abaixo do valor real dos ativos, o que ajuda a explicar o interesse crescente por fundos mais seletos.
Menos dinheiro entrando ajuda a explicar a mudança
A melhora na remuneração também está ligada ao comportamento recente dos investidores. Dados apresentados pela gestora Sparta mostram uma desaceleração na entrada de recursos nos fundos de infraestrutura, com registros recentes de captação líquida negativa – ou seja, mais dinheiro saiu do que entrou nesses produtos.
Quando os resgates aumentam, os fundos precisam oferecer condições mais atrativas para continuar captando recursos. E isso contribui para a alta do prêmio pago ao investidor.
Caso essa tendência de saídas se intensifique, o ajuste nos retornos pode acontecer de forma mais rápida. Mesmo assim, João Zanott, analista da EQI, avalia que os níveis atuais inspiram cautela, já que o investidor precisa ser bem remunerado para assumir riscos.
Por que ainda é preciso cautela
Apesar da melhora nos retornos, o especialista reforça que o momento não é de compra indiscriminada. Com a Selic ainda alta, aplicações mais conservadoras seguem competindo com os FI-Infra, o que reduz o apetite por investimentos de longo prazo ligados a crédito.
Além disso, nem todos os fundos oferecem a mesma qualidade de ativos ou estratégia de gestão. Por isso, a recomendação é olhar com atenção para o preço da cota, o tipo de projeto financiado e a postura do gestor antes de investir.
Onde estão as oportunidades
Mesmo com esse cenário mais seletivo, a EQI identifica boas oportunidades em fundos que hoje negociam com desconto relevante em relação ao valor patrimonial. É o caso de BDIF11 e BODB11, que operam com descontos próximos de 15% e têm perfil de risco considerado intermediário.
Outro ponto que chama atenção é o nível de renda mensal projetada. A EQI estima que vários fundos do setor podem entregar rendimentos entre 12% e 16% ao ano, com destaque para IFRI11, CPTI11, IFRA11, KDIF11 e JURO11, além dos dois fundos negociados com desconto mais acentuado.
Fundos de infraestrutura sob cobertura da EQI
| Fundo | Gestora | Ganho extra médio da carteira (%) | Retorno em dividendos esperado (%) | P/VP | Preço teto (R$/cota) | Nº de cotistas |
| KDIF11 | Kinea | 1,13% | 12,22% | 0,99 | 129,6 | 43.654 |
| JURO11 | Sparta | 0,70% | 11,90% | 0,99 | 103,2 | 91.194 |
| BDIF11 | BTG Pactual | 1,45% | 14,78% | 0,84 | 87,5 | 32.760 |
| CPTI11 | Capitânia | 2,02% | 14,82% | 0,88 | 98,0 | 37.367 |
| IFRA11 | Itaú | 0,85% | 13,11% | 0,92 | 101,3 | 34.471 |
| BODB11 | Bocaina | 2,26% | 15,65% | 0,86 | 9,5 | 23.945 |
| CDII11 | Sparta | 0,91% | 12,25% | 1,05 | 111,6 | 48.713 |
| IFRI11 | Itaú | 0,83% | 14,11% | 0,95 | 109,1 | 12.049 |
Fonte: EQI Research
Gestores estão mais defensivos
Olhando para a indústria como um todo, vários gestores venderam ativos, reduziram exposição a alguns créditos e aumentaram as posições de caixa nos últimos meses.
“Essa estratégia busca garantir mais proteção e também maior flexibilidade para aproveitar melhores oportunidades mais à frente”, destaca Zanott.
Do ponto de vista setorial, o analista afirma que as carteiras seguem bem diversificadas, com maior presença de ativos ligados a rodovias, saneamento, transmissão de energia, geração solar, telecomunicações, portos, aeroportos e óleo e gás. “São setores considerados essenciais e com entrada previsível de receitas”, explica.
Em geral, a EQI reforça que o momento exige mais critério na escolha dos ativos, mas também oferece boas chances de retorno para o investidor que souber aproveitar os fundos com desconto e geração consistente de caixa.
Fonte: Valor Investe


