Por Rita Azevedo, Valor — São Paulo
11/09/2023 15h14 Atualizado há uma hora
Um dos fundos imobiliários mais populares listados na B3, o HCTR11, da Hectare, teve forte queda nesta segunda-feira, alcançando a mínima histórica após a gestora anunciar a redução de 66% no valor de dividendos de agosto e uma mudança na maneira como os proventos serão pagos. O fundo encerrou o dia cotado a R$ 37, com desvalorização de 19,3%.
Na sexta-feira, a Hectare informou que pagará dividendos de R$ 0,17 por cota referentes ao mês de agosto. Em julho, o valor distribuído foi de R$ 0,50. Em comunicado enviado ao mercado, a gestora diz que a redução é “momentânea” e está relacionada a uma “restrição imposta pela diminuição do saldo contábil acumulado, em decorrência da remarcação em períodos anteriores de alguns ativos a valor justo pelas regras contábeis vigentes”.
Nas redes sociais, a Hectare deu mais detalhes da mudança. Em vídeo postado no Instagram, posteriormente excluído, o gestor e sócio Tales Silva diz que a medida foi tomada “atendendo a uma determinação da administradora do fundo” — a Vórtx. Segundo ele, os dividendos passarão a ter como base o resultado caixa do mês e só poderão superar esse patamar se o resultado contábil acumulado for maior que o distribuído desde 2018. “Essa regra tem como objetivo garantir a sustentabilidade das emissões”, afirma.
No comunicado, a Hectare afirma que, como a diminuição do dividendo “não teve sua causa originada na reprecificação do valor contábil”, o resultado da competência do mês passará a integrar o saldo contábil acumulado e irá compor, juntamente aos resultados a serem apurados, a base de cálculo dos rendimentos a serem distribuídos em períodos futuros, quando houver novamente resultado contábil acumulado e lucro caixa que permita a distribuição de rendimentos adicionais.
A notícia não foi bem recebida pelos cotistas. Em comentários no próprio vídeo, investidores fizeram críticas à redução do dividendo e sugeriram a troca da gestora. Um deles questionou também o motivo de a Vórtx ter exigido a regra sobre dividendos só agora. Outros cobraram a redução da taxa da administração do fundo.
O desgaste da relação entre a gestora e cotistas não começou agora. Em abril do ano passado, o fundo esteve sob escrutínio do mercado após comentários de investidores, analistas e influenciadores que questionavam conflitos de interesses em investimentos. Na época, a gestora negou.
O HCTR11 é um fundo “de papel”, termo que designa portfólios que investem principalmente em Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e outros títulos imobiliários. No HCTR11, uma parte dos CRIs que estão na carteira foi emitida pela Fortesec, securitizadora que faz parte do mesmo grupo que comanda a Hectare.
Os comentários negativos partiram também de influenciadores digitais ligados à Suno, o que gerou um embate entre a Hectare e a casa de análise. A gestora denunciou a Suno à Comissão de Valores Mobiliários por uma suposta campanha difamatória. A autarquia decidiu, em março deste ano, instaurar um inquérito administrativo para investigar o caso.
Também em março, o HCTR11 voltou a ser assunto entre investidores com a inadimplência de CRIs da Gramado Parks, do Rio Grande do Sul, que atua no setor imobiliário e de turismo, e de outros empreendimentos investidos.
A inadimplência da Gramado e de outras empresas investidas pelo fundo foi um dos motivos que levaram a firma de auditoria responsável pelas demonstrações financeiras do HCTR11 a se abster de dar opinião sobre os resultados de 2022. “Considerando as incertezas relevantes em torno da realização financeira dos CRIs, bem como as nossas limitações acerca do alcance de nossas revisões, ficamos impossibilitados de obter evidências de auditoria apropriadas e suficientes que nos permitissem assegurar a adequação dos valores dos CRIs do fundo em 31 de dezembro de 2022”, diz o relatório da Baker Tilly, com data de 3 de agosto.
Uma abstenção é um alerta grave — pior que um parecer com ressalva, por exemplo — já que o auditor não conseguiu sequer ter acesso a dados básicos que lhe permitissem chegar a uma conclusão sobre as demonstrações financeiras.
A Hectare foi procurada, mas não quis fazer comentários adicionais. A Vórtx disse em nota que atende estritamente às normas estabelecidas pela CVM, incluindo a distribuição dos resultados de FII, “notadamente a distribuição semestral de, no mínimo, 95% dos resultados do fundo”. A empresa informa ainda que “maiores esclarecimentos já foram divulgados via comunicado ao mercado em 08/09/2023, disponível no Fundos.net.”
Fonte: Valor Econômico

