Por Will Schmitt
Em Financial Times — Nova York
25/03/2024 23h13 Atualizado há 10 horas
Quase dois anos após o início de uma campanha entre os republicanos nos EUA para punir a BlackRock por insistir que as mudanças climáticas acarretam riscos financeiros, fundos de investimento de Estados governados pelo partido retiraram cerca de US$ 13,3 bilhões da maior gestora de ativos do mundo.
A cifra representa apenas cerca de um décimo de 1% dos US$ 10 trilhões em ativos que a BlackRock administra, e alguns fundos de pensão estatais republicanos ainda têm bem mais de US$ 20 bilhões depositados com a gestora. No total, a BlackRock registrou entradas líquidas de US$ 138 bilhões em toda a América no ano passado.
O total de US$ 13,3 bilhões já inclui o anúncio feito na semana passada pelo Texas Permanent School Fund de que retiraria US$ 8,5 bilhões no fim de abril, o maior saque feito até o momento por fundos de pensão geridos por republicanos.
A BlackRock tem tentado responder à campanha contra o uso de fatores ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) de várias maneiras. Em Washington, acrescentou à equipe um lobista veterano com ligações republicanas. No mês passado, organizou em conjunto com o vice-governador do Texas, Dan Patrick, uma cúpula em Houston sobre investimentos na rede de energia elétrica. Em ocasiões anteriores, Patrick manifestara “preocupações graves” sobre o fato de o grupo levar em conta fatores ESG ao investir.
Os ataques conservadores sobre questões relativas ao clima coincidiram com uma nova posição mais cautelosa da BlackRock e de outras gestoras a respeito de participar de alianças setoriais que procuram lutar contra as mudanças climáticas. A BlackRock reduziu seu compromisso com a Climate Action 100+, enquanto State Street, J.P. Morgan Asset Management, Pimco e Invesco se retiraram completamente.
Mas a BlackRock reagiu fortemente depois que o fundo do Texas fez seu anúncio. “Terminar uma parceria longa e bem-sucedida, que tem sido uma força positiva para milhares de escolas e famílias do Texas, de maneira tão irrefletida é irresponsável”, escreveu o vice-presidente da BlackRock, Mark McCombe, em carta a Aaron Kinsey, presidente do Conselho Estadual de Educação do Texas, em que pede que reconsidere a decisão.
A BlackRock não quis fazer comentários sobre o volume dos desinvestimentos relacionados a ESG nos Estados republicanos.
As saídas de dinheiro começaram em 2022, quando o secretário de Finanças de Virgínia Ocidental, Riley Moore, incluiu a BlackRock na primeira lista do país de firmas financeiras consideradas boicotadoras de empresas da área de combustíveis fósseis. Texas, Flórida, Missouri e outros Estados governados pelo Partido Republicano seguiram seus passos, com iniciativas anti-ESG e desinvestimentos.
Nesse período, investidores despejaram mais de US$ 355 bilhões em novos fluxos líquidos para produtos da BlackRock. A campanha de desinvestimento fracassou no Kentucky, onde as autoridades do setor previdenciário disseram que tirar bilhões de dólares da BlackRock e de outras empresas que usam fatores ESG violaria seu dever fiduciário de maximizar retornos.
Na Carolina do Norte, o secretário de Finanças, o republicano Dale Folwell, criticou publicamente a BlackRock ao mesmo tempo em que deixava US$ 18,4 bilhões com a gestora. Folwell disse que negociou comissões mais baixas e passou a exercer ele mesmo o direito a voto das participações do Estado em votações por procuração, em vez de deixar que a BlackRock o faça. Ele argumentou que não consegue encontrar uma gestora mais barata, ao mesmo tempo em que pediu a demissão de Larry Fink do cargo de executivo-chefe da BlackRock.
“Há apenas uma impressão digital em toda essa estratégia, e você sabe o quanto uma impressão digital é única — e essa impressão digital é a dele”, disse Folwell.
No Texas, empresas locais levantaram preocupações sobre as leis estaduais de “Acesso Justo”, que exigem que o governo estadual e os locais se desfaçam de firmas financeiras consideradas hostis a combustíveis fósseis e armas de fogo.
Um estudo publicado no mês passado por uma organização sem fins lucrativos associada à Câmara de Comércio do Texas concluiu que as leis podem minar os esforços do Estado para promover um clima favorável às empresas e custar US$ 37,1 milhões em receitas fiscais perdidas.
“Em termos simples, quando o governo tenta impor valores (não importa de que tipo) às empresas, o mercado perde e os contribuintes é que arcam com as consequências”, argumenta o estudo.
Fonte: Valor Econômico