Por Colby Smith, Financial Times — Washington
11/08/2022 12h28 Atualizado há 21 horas
Uma alta autoridade do Federal Reserve advertiu que é cedo demais para o banco central dos Estados Unidos “declarar vitória” em sua luta contra a alta inflação no país, depois de novos dados terem mostrado um alívio nas pressões sobre os preços ao consumidor.
Em entrevista ao “Financial Times”, a presidente da regional do Fed de San Francisco, Mary Daly, não descartou um terceiro aumento consecutivo de 0,75 ponto percentual na taxa na próxima reunião de política monetária, em setembro, embora tenha sinalizado apoio inicial à ideia de que o BC desacelere o ritmo de elevações dos juros.
Os comentários chegam em meio a um intenso debate sobre a velocidade com que o Fed apertará a política monetária no segundo semestre de 2022, depois de ter elevado os juros no ritmo mais rápido desde o início da década de 1980 ao longo do primeiro semestre do ano. A taxa, que estava perto de zero em março, agora está entre 2,25% e 2,50%.
“Há boas notícias nos dados da comparação mensal, de que consumidores e empresas estão tendo alívio, mas a inflação continua alta demais e não está perto de nossa meta de estabilidade de preços”, disse Daly, depois de o relatório mais recente do índice de preços ao consumidor não ter mostrado aumento de junho para julho e um acumulado anual mais lento, de 8,5%.
Ainda assim, houve aceleração na alta do “núcleo” da inflação, que exclui itens voláteis como energia e alimentos, puxada pelo aumento dos preços do setor de serviços, que, segundo Daly, mostrou poucos sinais de moderação.
“É por isso que não queremos declarar vitória de que a inflação está caindo”, disse. “Ainda não estamos nem perto de terminar.”
Na quarta-feira, Daly defendeu que os juros subam para pouco menos de 3,5% até o fim do ano, um patamar restritivo à atividade de empresas e consumidores. Ela ressaltou, porém, ser contra agir muito agressivamente para diminuir a demanda.
“Há muita incerteza, então dar um salto à frente muito confiantes de que [um aumento da taxa de 0,75%] é o que precisamos e ser prescritivos não seria a política ideal”. Ela detalhou por que um aumento da taxa em 0,50 ponto percentual em setembro é sua “linha inicial”.
Daly destacou que o Fed já apertou bastante a política monetária e que os efeitos integrais dessas ações ainda não se disseminaram pela economia. Outros bancos centrais pelo mundo também estão elevando com rapidez as taxas de juros de forma “sincronizada”, a ponto de já terem apertado drasticamente as condições financeiras internacionais, acrescentou Daly, ao mesmo tempo em que as perspectivas de crescimento nas economias de países desenvolvidos e emergentes pioraram.
“Temos muito trabalho a fazer. Eu só não quero fazer isso de forma tão reativa que nos vejamos prejudicando o mercado de trabalho”, afirmou Daly. Ela rejeitou as crescentes expectativas de investidores achando que o Fed irá reduzir os juros de forma abrupta em 2023.
“Se derrubarmos a economia e [as pessoas] perderem empregos, então não vamos realmente tê-las deixado em melhor situação.”
Até agora, o mercado de trabalho tem mantido seu forte ímpeto, com os Estados Unidos tendo criado 528 mil empregos em julho, em termos líquidos. Isso empurrou o índice de desemprego para seu ponto mais baixo desde a pré-pandemia de covid-19, de 3,5%.
O número de vagas começou a cair em relação aos recentes altos patamares e os pedidos de seguro-desemprego aumentaram, embora a partir de níveis muito baixos. Ainda assim, Daly não prevê que o desemprego suba para muito além dos 4%, enquanto o Fed combate a alta dos preços. Alguns economistas ressaltaram que o desemprego poderia precisar aumentar para mais de 5% para que o banco central consiga domar com sucesso a inflação.
Quando o Fed se reunir em setembro, as autoridades monetárias já contarão com os dados de mais um mês sobre o emprego e a inflação. Daly disse que acompanhará esses relatórios de perto para validar se é apropriado passar a um ritmo mais lento de elevação dos juros.
“O que precisamos não é de [apenas] um bom índice da inflação. É encorajador, mas não é evidência do objetivo que realmente queremos.” Em vez disso, Daly está observando os dados agregados para poder afirmar que o Fed está “no caminho de reduzir substancialmente a inflação” e atingir a “meta de estabilidade de preços”.
Fonte: Valor Econômico

