Por Katie Martin, Valor — Financial Times
05/02/2023 17h50 Atualizado há 15 horas
Os mercados financeiros não puderam exatamente seguir o planejado até esta altura do ano. Para desgosto dos grandes gestores de recursos, janeiro trouxe ganhos para os ativos de risco — um voto de confiança no discurso do pouso suave. Ao mesmo tempo, os mercados de títulos do governo mantiveram seus alertas de uma grave recessão à frente, com a demanda robusta por bônus de longo prazo comprimindo seus rendimentos para patamares inferiores aos dos papéis de curto prazo — formando a temida inversão da curva que tem sido o arauto de tantos quadros de desaceleração econômica.
“Algo me parece errado”, disse-me Greg Peters, co-diretor de investimentos da PGIM Fixed Income, no começo da semana passada. “Não dá para ter uma inversão de curva pronunciada, cortes de juros sendo precificados porque se presume que virá uma recessão e os ativos de risco não precificarem isso realmente. Tudo isso junto não pode ser verdadeiro.”
Ele tinha razão. Após a divulgação de dados, na sexta-feira (3), mostrarem que a economia dos EUA abriu mais de 500 mil novas vagas em janeiro, muito acima das 185 mil previstas, parece que a aposta de uma recessão simplesmente deve estar errada.
Essa é uma ótima notícia para o ser humano médio. Não é tão boa para economistas e gestores de fundos, que apontaram de forma quase unânime uma desaceleração econômica, a julgar pelo exercício anual da casa de investimentos Natixis de esquadrinhar milhares de páginas de projeções para o ano seguinte escritas pelos grandes bancos e gestoras de ativos (obrigada pelo serviço prestado, Natixis).
Essa análise mostra que os supostamente grandes cérebros do mercado estavam, como um todo, neutros em relação às ações americanas e absolutamente negativos com relação às da Europa. Essa perspectiva não funcionou até agora. Até o início de fevereiro, as ações avançavam cerca de 6% em ambos os mercados.
Mas a saúde aparentemente boa do mercado de trabalho dos EUA sugere que uma visão pessimista sobre as ações pode acabar se revelando correta, pelos motivos errados. Ela redefine completamente o principal risco para os mercados neste ano.
Agora, disse Mike Bell, estrategista de mercado global da J.P. Morgan Asset Management, “o grande risco para os mercados neste ano não é uma recessão, e sim um mercado de trabalho que permanece sólido. Isso significa que o Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA] não poderá promover os cortes de taxas de juros que o mercado está precificando”.
Para se ter uma ideia, quando as ações começaram a ser negociadas na sexta-feira (3), uma hora após a divulgação dos dados do nível de emprego, o índice S&P 500 dos EUA levou um tombo de 1% antes de recuperar algum equilíbrio.
O estrategista Alan Ruskin, do Deutsche Bank, destacou que os números estavam um tanto fora de esquadro. “Há a sensação de que o mercado de trabalho simplesmente não combina com vários outros sinais de crescimento fraco”, disse ele em nota aos clientes. “Isso é verdade.”
Ainda assim, acrescentou, “no mínimo os dados reforçam a percepção de que [vivemos] um ciclo extraordinário, que exige uma resposta extraordinária de política [monetária]. O cenário também acaba com os planos de muitos investidores para o ano, exatamente porque dá ao Fed uma oportunidade de ouro para aumentar as taxas de juros a patamares muitos mais elevados do que participantes do mercado previam anteriormente.
Mesmo antes da divulgação dos dados de emprego, alguns investidores já temiam que o rali das ações, que vem em curso desde outubro, se consumiria ao gerar excesso de exuberância e, em consequência, mais inflação. Mas os que apostam no mercado comprador estavam preparados para se aferrar a esse rali, em parte porque as autoridades que definem as taxas de juros não lhes disseram que estavam enganados.
Na semana passada, o Fed adotou um minguado aumento de 0,25 ponto percentual nas taxas de juros. O presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, disse à imprensa que há “um longo caminho a percorrer” para controlar a inflação. Mas, ao mesmo tempo, observou o surgimento de forças desinflacionárias e, mais importante, perdeu a oportunidade de dizer que mercados cheios de bolhas tinham ultrapassado a si mesmos.
Bom, e agora? Isso certamente é um desagravo aos que acreditavam que o rali dos ativos de risco, especialmente nos Estados Unidos, já tinha ido longe demais.
Entre eles está Iain Cunningham, codiretor de ativos da gestora Ninety One. Ele considera que a força completa do aperto monetário superagressivo de 2022 ainda não se refletiu adequadamente no “valuation” [avaliação de valor] dos ativos. “O que o Fed e o Banco Central Europeu (BCE) fizeram — esse grau de aperto, sem dúvida, vai machucar”, diz ele.
Cunningham acompanhava a sequência de altas das ações deste início de ano com descrença, convencido de que os riscos de recessão simplesmente não estavam sendo refletidos de forma correta. Mais uma vez, ele pode estar certo em relação ao mercado e errado sobre a recessão, mas o resultado é o mesmo: o ponto em que o mercado grita por cortes de juros e o Fed faz o contrário é um momento do qual “os ativos de risco não gostam nem um pouco”, diz ele.
Os investidores agora têm de voltar para a prancheta e pôr em ordem o que pensam sobre o que realmente impulsionará os mercados neste ano. Assim como o Fed, eles terão dificuldades para formular palpites sensatos sobre o futuro e precisarão, em vez disso, ser flexíveis entre uma divulgação de dados e a seguinte.
“Está bem claro que o mercado foi pego ‘em impedimento’ no que se refere aos negócios preferidos para este ano”, disse Ruskin, do Deutsche. “No mínimo, esses dados exigirão uma retirada e reagrupamento dos traders.” Pode ser que tenham também de abraçar a possibilidade de terem errado.
Fonte: Valor Econômico
