Enquanto escrevo, o Campeonato Mundial de Sinuca está chegando a seu clímax em Sheffield, na Inglaterra. Wu Yize, de 22 anos, enfrenta o britânico Shaun Murphy pela supremacia. Caso a vitória fique com Wu, ele será o segundo jogador chinês a ser coroado campeão mundial, na sequência da vitória de Zhao Xintong, em 2025.
Em uma jogada surpreendente do destino, China e Reino Unido emergiram como os dois centros de excelência mundial da sinuca. Sheffield, outrora a capital siderúrgica do mundo, tornou-se a capital da sinuca. Wu mudou-se para a cidade aos 16 anos com o pai e morou em uma acomodação sem janelas, enquanto lapidava seu jogo. Calcula-se que, hoje, existam 150 milhões de simpatizantes da sinuca na China. Peter Wilson, o embaixador do Reino Unido em Pequim, colocou uma mesa de sinuca em sua sala de estar, como tributo a essa improvável ligação.
O surgimento da China como uma superpotência da sinuca é uma pequena mostra de que o país começa a desenvolver seu “poder suave” ― o “soft power“, o tipo de prestígio cultural capaz de polir a imagem global de um país.
Por muitos anos, a China viu as formas modernas de “soft power” lhe escaparem. O Japão tinha o mangá. A Coreia do Sul tinha o K-pop. Esses fenômenos emergiram de dentro da sociedade, e não por decreto governamental ― o que pode ser um dos motivos pelos quais a China, sob o domínio sufocante do Partido Comunista Chinês (PCC) tinha dificuldades para competir nesse campo. A situação, contudo, vem mudando. Não é apenas a sinuca.
O sucesso voraz do aplicativo TikTok tem ajudado a criar memes culturais com ressonância internacional. A cidade de Chongqing, agora, ganha os holofotes mundiais por sua arquitetura “ciberpunk”, em que ferrovias passam através de prédios. A frase “um momento muito chinês em minha vida” tornou-se viral no TikTok e no Instagram. Pode significar qualquer coisa, desde usar chinelo dentro de casa até beber água quente.
É difícil desvendar a relação entre “soft power” e geopolítica ― mas, sem dúvida, ela existe. Os EUA e o resto do Ocidente triunfaram na Guerra Fria, em parte, porque a sociedade americana parecia muito mais atraente e dinâmica do que a rival soviética. O desejo do lado de dentro da Cortina de Ferro por jeans Levi’s e por rock era real e importava. Portanto, é possível que seja importante o fato de a China estar desenvolvendo poder suave justo no momento em que Donald Trump vem queimando o estoque de boa vontade mundial em relação aos EUA.
Uma pesquisa de opinião pública entre elites no Sudeste Asiático, divulgada em abril, questionou com quem os países da região deveriam se alinhar caso fossem forçados a escolher entre EUA e China. Pela primeira vez nos oito anos de história da pesquisa, a maioria, ainda que por pequena margem, optou pela China. Uma sondagem realizada no início de 2026 mostrou maiorias significativas na Alemanha, França, Reino Unido e Canadá sustentando que é “melhor depender da China do que dos EUA” ― um resultado notável, em se falando de aliados tradicionais dos americanos.
A rivalidade entre EUA e China gira cada vez mais em torno de qual país moldará o futuro econômico e tecnológico do mundo. Os demais países adotarão padrões tecnológicos chineses ou americanos? Os veículos elétricos chineses dominarão o mercado mundial de automóveis?
A imagem mundial de um país pode ter forte influência nessas escolhas. As vendas da Tesla entraram em queda livre na Europa em 2025, o que muitos atribuíram à forte associação entre Donald Trump e o fundador da empresa Elon Musk. A concessionária Tesla do meu bairro, no oeste de Londres, fechou recentemente e, agora, é um showroom de marcas chinesas de alto crescimento Omoda e Jaecoo.
Autoridades americanas costumam sustentar que adotar tecnologia chinesa pode expor os países em questão à espionagem chinesa. Há alguns anos, os EUA se empenharam com força total para persuadir seus aliados a não adotar redes sem fio 5G da Huawei, uma fornecedora chinesa. A campanha foi relativamente bem-sucedida. O Reino Unido, por exemplo, voltou atrás em sua decisão de usar a Huawei. Hoje, é duvidoso se campanhas americanas similares teriam sucesso.
O principal argumento dos EUA contra a Huawei foi que adotar sua tecnologia deixaria os países vulneráveis à vigilância e à coerção econômica pelos chineses. Hoje, entretanto, vivemos em um mundo em que a coerção econômica é um pilar da política externa americana, e em que autoridades da União Europeia são orientadas a levar celulares descartáveis para os EUA.
Ao mesmo tempo, Pequim vem fortalecendo seu poder suave. Muitos europeus, agora, podem viajar à China sem necessidade de visto. O modelo de inteligência artificial (IA) da chinesa DeepSeek tem código aberto, o que levou à sua rápida adoção ao redor do mundo. E, na semana passada, a China eliminou as tarifas de importação de praticamente todos os países africanos. O contraste foi gritante com o anúncio de Washington de que pretende impor tarifas de 25% sobre veículos da UE.
Os EUA há muito consideram a Índia um parceiro crucial na batalha para conter a influência chinesa. Trump, entretanto, parece estar se esforçando para afastar o governo de Narendra Modi ― impôs tarifas comerciais pesadas à Índia, elogiou o Paquistão , recentemente, compartilhou comentários nas redes sociais que descreviam a Índia como um “buraco infernal”. Em março, o governo Modi anunciou que passará a permitir um processo mais rápido de aprovação para investimentos tecnológicos que tenham participação minoritária chinesa em sete setores estratégicos.
A ironia é que os alertas dos EUA quanto aos perigos da dependência econômica da China têm certo mérito. Pequim já demonstrou disposição e capacidade de usar seu domínio sobre terras raras e minerais críticos como arma geopolítica.
Para combater o crescente poder econômico da China no mundo, os EUA precisarão construir parcerias internacionais. Isso exigirá reconstruir o estoque de “soft power” americano. De outra forma, Xi Jinping pode colocar Trump em uma verdadeira sinuca de bico.
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Fonte: Valor Econômico

