Em 2025, o FMI reportou que, ao redor do mundo, empresas, famílias e países haviam acumulado US$ 251 trilhões em dívida. Olhando para o fim de 2026, o J.P. Morgan alertou que os juros sobre esses empréstimos estão prestes a disparar, em grande parte devido às populações declinantes e à disciplina fiscal decrescente.
Em nota divulgada ontem, Joyce Chang e a equipe do JPMorgan destrincharam os “seis D’s” que moldarão a economia global: Déficits, desregulação, descarbonização, despopulação, desglobalização e desdolarização.
Desses fatores, dois em particular exercerão pressão de alta sobre as taxas de captação [borrowing rates] ao redor do mundo: déficits e despopulação.
Voltando-se primeiro aos déficits, a equipe de pesquisa do JPM escreveu que “um colapso global na disciplina fiscal está ocorrendo em todos os cantos do mundo, e a dominância fiscal está eclipsando a política monetária. A dívida pública global atingiu US$ 100 trilhões, reduzindo o espaço fiscal, enquanto déficits elevados estão elevando os juros.”
Entre os economistas, há certo debate quanto à extensão em que os déficits impulsionam os juros. A teoria é que uma dívida nacional em expansão pode despertar temores de que o governo seja menos digno de crédito [creditworthy], e o Federal Reserve então aumentaria a oferta monetária [money supply] para reduzir o valor da dívida, criando, portanto, inflação.
Os governos apoiaram-se pesadamente em estímulo fiscal (via aumento de gastos ou cortes de impostos) durante a crise do Irã, reportou o FMI em sua mais recente atualização do World Economic Outlook [Perspectiva Econômica Mundial].
Esses aumentos nos déficits — ou reduções na receita governamental — ocorreram sem “compensações [offsets] bem identificadas, com poucos sinais de reconstrução do espaço fiscal”, escreveu o JPM. “Espaço fiscal” refere-se à capacidade de um governo de aumentar gastos ou reduzir impostos sem comprometer sua estabilidade financeira.
“Nos EUA, um estoque maior de dívida e juros mais altos, aliados à ausência de vontade política de alcançar consolidação fiscal em breve, apontam para um term premium [prêmio de prazo — retorno exigido por deter títulos de longo prazo] mais elevado”, acrescenta o JPM, referindo-se ao retorno que os credores esperam por deter títulos de longo prazo, demandando taxas mais altas em consequência. “O déficit fiscal insustentável dos EUA ainda não causou muitos danos à economia norte-americana, uma vez que os EUA têm muito mais espaço fiscal do que outros países”, acrescentou a equipe de Chang.
Os EUA permanecem o país mais seguro e mais forte em um momento de convulsão geopolítica, acrescenta a nota, sugerindo que o risco para as perspectivas da dívida virá de “quaisquer reveses militares, políticos, de segurança energética ou econômicos dramáticos que façam com que os EUA deixem de ser o mais seguro e mais forte”.
O problema populacional
As economias avançadas também enfrentam taxas de natalidade declinantes e populações envelhecidas. Em termos simples, essas economias terão uma oferta de trabalho [labor supply] menor para pagar pelos bens e serviços necessários a uma população mais velha e não trabalhadora.
A demanda por gastos com previdência e saúde crescerá em muitos países, observa o JPM, enquanto a demanda por investimentos públicos — como defesa, energia renovável e infraestrutura — também se intensifica. “Sem medidas compensatórias, tais como receitas governamentais mais altas, cortes em outros gastos públicos ou mudanças no diferencial entre juros e crescimento [interest rate-growth differential], essas pressões de gasto implicam um aumento substancial na dívida pública em todas as jurisdições além de 2031”, acrescenta a pesquisa.
Atualmente, a Contagem Regressiva da Previdência Social [Social Security Countdown] do Committee for a Responsible Federal Budget [Comitê para um Orçamento Federal Responsável] — o ponto em que os benefícios terão de ser cortados — está em sete anos e 10 meses, e “não se espera que nenhum dos partidos políticos aja” até que esse abismo seja alcançado, prossegue o maior banco dos EUA.
“Não se espera que nenhum dos partidos políticos aja até que o abismo da Previdência Social se aproxime em 2032”, continua a nota do maior banco dos EUA. Ela acrescenta que cerca de US$ 600 bilhões em dívida precisariam ser emitidos para lidar com o rombo [shortfall], e potencialmente ainda mais cortes de gastos e impostos mais altos.
“Notamos também os desafios demográficos que reduzirão a poupança e destacamos o risco de que populações envelhecidas e a longevidade possam derrubar os retornos de equilíbrio [equilibrium returns], com até mesmo sistemas capitalizados [funded systems] enfrentando dificuldades”, acrescenta a equipe. “O dividendo demográfico que caracterizou os últimos 40 anos está terminando, e vemos a despopulação como um risco subestimado que reduzirá a poupança e contribuirá para juros mais altos.”
Fonte: Fortune


