O risco geopolítico foi aliviado no curto prazo com o fim do conflito entre Irã e Estados Unidos, e a economia americana segue forte. Apesar dos questionamentos dos investidores sobre os preços dos ativos ligados à inteligência artificial, o ciclo de inovação para os próximos anos permanece saudável e deve sustentar esse crescimento, na visão de Bernardo Carvalho, diretor-executivo da Gávea Investimentos.
Esse cenário de bonança, calcado em investimentos bilionários em tecnologia, pode, no entanto, produzir um efeito indesejado para o Brasil: fortalecer o dólar e depreciar o real. A inflação tende a permanecer elevada nos Estados Unidos em um momento em que o ciclo de corte de juros parece encerrado, embora parte do mercado não descarte novas altas das taxas. Com isso, os EUA tendem a oferecer maior rentabilidade tanto na renda fixa quanto nas ações de tecnologia, voltando a atrair investidores.
Com menos incertezas provocadas pelo presidente Donald Trump por ora, podemos ver mais juros e crescimento nos EUA, o que valoriza a moeda americana
Bernardo Carvalho, diretor executivo da Gávea Investimentos
No último ano o comportamento do dólar foi extremamente benéfico para os países emergentes, aponta Carvalho. No Brasil, a cotação da moeda americana caiu de R$ 6,20 no fim de 2024 para R$ 4,90 em maio. Desde então, porém, o dólar voltou a se valorizar e atingiu o patamar atual, de R$ 5,22.
Não por acaso, o fluxo de capital estrangeiro para o País contribuiu para a valorização do real até março, mas perdeu força desde abril. Após liderarem um dos maiores ingressos de recursos dos últimos anos no primeiro trimestre, os investidores internacionais passaram a reduzir a exposição ao Brasil diante da recuperação das ações de tecnologia nos Estados Unidos, do aumento da aversão ao risco global e das incertezas domésticas.
Se esse movimento continuar a recuar nos próximos meses, pode prejudicar o Brasil e os investimentos de risco, conclui a Gávea.
O fator eleição
Também persiste no Brasil a incerteza em relação à eleição presidencial, cujo resultado muitos ainda consideram indefinido, e sobre as medidas que o próximo presidente adotará para enfrentar o desequilíbrio fiscal. Para Carvalho, a relação entre dívida e PIB está elevada, o crescimento econômico é baixo e a inflação continua bem acima da meta de 3% ao ano estabelecida pelo Banco Central.
A principal peça do quebra cabeça é: o novo governante terá ímpeto de realizar uma reforma do Estado, que passa por reavaliar benefícios excessivos? Já tivemos uma Reforma da Previdência, mas precisamos de uma nova rodada de ajuste
Bernardo Carvalho, diretor executivo da Gávea Investimentos
Com o mercado projetando juros reais de 8% ao ano para os títulos de prazo de 10 anos, um nível que Carvalho considera “extremamente alto”, o “único remédio” é resolver a questão fiscal. “Se houver um esforço para garantir a sustentabilidade da dívida, há espaço para que os juros caiam no futuro”, afirma o executivo.
Como investir
O nível elevado dos juros tende a atrair capital e apreciar o câmbio, mas esse movimento depende do apetite global pelo dólar. Assim, em um cenário de maior atratividade da economia americana, o impacto sobre a Bolsa brasileira tende a ser negativo.
A perspectiva para as ações depende, em grande medida, do comportamento dos juros no médio prazo, já que as empresas tendem a adiar investimentos em um ambiente de taxas elevadas. Carvalho avalia que os preços atuais das ações embutem bastante risco, o que pode representar uma oportunidade para o investidor. Ainda assim, a Gávea mantém uma postura cautelosa, pois vê a possibilidade de os juros permanecerem elevados por um período prolongado.
E na renda fixa? O diretor-executivo considera o retorno de juros reais de 8% ao ano por mais de 10 anos “espetacular”, caso não seja tributado ao longo do tempo.
Já no crédito privado, Carvalho vê distorções nos preços. Algumas empresas e setores sofrem mais com o patamar elevado dos juros. Por outro lado, medidas expansionistas, como a nova edição do Programa Desenrola, do governo federal, e benefícios para motoristas de aplicativos, favorecem determinados setores e companhias. A recomendação de Carvalho é separar aquelas que são beneficiadas por políticas públicas das que não são.
Fonte: E-Investidor

