Por Marcelo Osakabe — De São Paulo
20/07/2023 05h01 Atualizado há 6 horas
Os bombardeios russos a portos da Ucrânia após o fim do acordo para o escoamento de grãos ajudaram o preço do trigo e do milho a subir com força pelo segundo dia consecutivo no mercado internacional e colocaram no radar de parte dos analistas a possibilidade de que o evento possa ter repercussões para a inflação de alimentos no Brasil. Embora seja cedo para ser incorporar ao cenário base, o evento, que ainda se desenrola, pode ser um fator inesperado de pressão sobre os preços de alimentos já no fim deste ano.
O anúncio da retirada da Rússia do acordo que permitia à Ucrânia escoar sua produção de cereais foi inicialmente recebido com ceticismo por analistas – desde sua assinatura, no fim de julho do ano passado, ele já foi estendido três vezes. Nesta quarta-feira, 19, no entanto, os contratos futuros de trigo dispararam mais de 8% na bolsa de Chicago após dois dias de ataques russos a portos e centros de armazenagem ucranianos.
“A princípio não estávamos tão preocupados, porque também já teve especulações sobre o cancelamento do acordo em outros momentos. O problema é que hoje [quarta] saíram essas notícias de que bombardearam portos ucranianos, e está tendo mais uma pernada de alta dos preços dos grãos como um todo”, diz o economista sênior do Santander, Daniel Karp. A Ucrânia é grande produtora de trigo e milho, mas um salto inesperado em um produto, conforme a duração e intensidade, pode contaminar a negociação das demais commodities agrícolas.
Cálculos preliminares de Alexandre Lohmann, economista-chefe da Constância Investimentos, sinalizam que o fim do acordo poderia acrescentar 0,4 ponto porcentual na inflação de alimentos.
“É mais um exercício, visto que o evento é uma coisa meio fora do padrão e não sabemos ainda como vai se desenrolar. Quem sabe se outros paises aliados da Rússia a pressionam para voltar à mesa das negociações”, diz. “É um risco a mais em um cenário que já está preocupante por causa do El Niño.” A Constância projeta IPCA cheio fechando o ano em 5,10%, com 0,75 ponto vindo da categoria alimentos.
Lohmann ressalta que trigo e milho têm relevância pequena para a inflação brasileira (1,3% do IPCA), mas afetam indiretamente o preço da carne bovina e da carne industrializada, que têm peso maior, de 3,3%. Além disso, o fim do acordo pode impactar no comportamento das commodities agrícolas como um todo. “Se começarmos a ter alta dos preços de alimentos, que é o principal motor de desinflação nos Estados Unidos, a narrativa de juros mais altos lá ganha força, o que pode pressionar o câmbio aqui”, acrescenta.
Para Basiliki Litvak, da MCM, o fim do acordo é um risco que pode reverter a atual trajetória favorável de alimentação no produtor e varejo. A economista projeta variação zero para a alimentação em domicílio no IPCA deste ano. Ainda assim, muito depende de como essa situação irá ser desenrolar. “Se um novo acordo for fechado em breve, será o melhor cenário. Temos que aguardar como as negociações irão caminhar”, pondera.
Ela ressalta que um impasse pode trazer pressão adicional sobre commodities. “Uma eventual alta que se mostre mais persistente deve impactar mais rápido nos Índices de Preços ao Atacado, com reflexos mais a frente nos preços de produtos industrializados”, diz. Um evento do tipo poderia se materializar sobretudo no quarto trimestre deste ano.
A XP Investimentos minimiza o efeito do fim do acordo sobre os preços brasileiros neste momento. Segundo o economista Alexandre Maluf, o movimento não afeta o escoamento da produção russa, que é muito mais relevante.
“A própria Ucrânia também tem outros meios de escoar sua produção, como pelo norte da Europa e pela Romênia”, diz. “Não é algo que deve preocupar aqui, pelo menos no curto prazo.”
Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, a Ucrânia deve ser a sexta maior exportadora de trigo da safra 2023/ 2024, com 10,5 milhões de toneladas embarques, ranking encabeçado pela Rússia (47,5 milhões). No milho, a Ucrânia é o quarto maior exportador mundial, com 19,5 milhões de toneladas.
Karp avalia que o risco relacionado ao fim do acordo para escoamento de grãos aumentou, mas não a ponto de ser incorporado às projeções até o momento. O Santander espera deflação de 0,4% para o grupo alimentação em domicílio este ano e IPCA cheio de 4,9%.
“Aqui no Brasil, estamos com dificuldade de escoar e estocar a safra que foi meio grande, então meio que gerou sobreoferta, o que ajuda a manter a cotação, em reais, pressionada para baixo”, acrescenta. No mês, o preço do milho subiu cerca de 11% no exterior, enquanto no Brasil, a alta é de cerca de 7%.
Fonte: Valor Econômico