Por Alex Ribeiro
A fala do diretor de política monetária do Banco Central, Bruno Serra Fernandes, em evento ontem do banco Goldman Sachs, reduz muito as chances de a alta de juros básicos seguir além de 13,25% ao ano.
Ele tratou a extensão do ciclo de alta de juros na próxima reunião, de junho, como algo provável, e não líquido e certo. Também reconheceu abertamente que considera duas opções para conter o surto inflacionário atual: subir mais os juros ou adiar os cortes da Selic previstos para o ano que vem.
Outro sinal de pouca disposição para seguir além dos 13,25% ao ano foi ele ter afirmado que o Banco Central considera a taxa de sacrifício, ou seja, o preço pago em termos de atividade econômica para desinflacionar mais rápido a economia – embora tenha enfatizado que pese mais do lado de combater a inflação.
Por fim, ele fez uma defesa da projeção de inflação de 2023, o principal guia para o tamanho do ciclo de aperto monetário, que se encontra em 3,4%, bem abaixo dos 4,1% estimados pelos analistas privados na reunião de maio do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Os analistas do mercado financeiro estão divididos sobre a sinalização dada pelo Copom na última reunião. Uma parte acha que o BC sinalizou subir os juros de 12,75% ao ano para 13,25% ao ano e parar por aí. Outros, que deixou a sinalização em aberto, sem se comprometer com nada, e que vai seguir apertando a taxa de juros.
Aparentemente, a sinalização está no meio do caminho. O cenário econômico da reunião de maio deu suporte a uma provável extensão do ciclo de alta para junho, indo além da taxa final de 12,75% indicada anteriormente, na reunião do Copom de março. O provável, dentro do cenário observado no Copom de maio, é parar em 13,25%. Mas, como sempre, a sinalização é condicional, e a decisão vai depender da evolução do cenário econômico até a reunião de junho.
A fala de Serra, porém, traz mais elementos sobre a própria sinalização do Banco Central e sobre os requisitos que levariam a uma possível extensão do ciclo de aperto para além de 13,25% ao ano. Eles parecem bem altos.
Um ponto importante é Serra ter tomado o cuidado de enfatizar que o Banco Central sinalizou uma “provável” extensão do ciclo. Foi o que o Copom escreveu no seu comunicado e na ata, mas alguns analistas entenderam que provável, na verdade, não era a extensão do ciclo, mas um movimento de alta de menor magnitude.
Ou seja, o que o Copom sinalizou, mas sem cravar, é a possibilidade de extensão do ciclo. Serra enfatizou, no evento, todas as incertezas ao redor das projeções de inflação e também o tom de cautela adotado pelo BC.
Seguramente, o ponto mais importante na fala de Serra foi a indicação de que o Copom avalia duas alternativas para chegar na meta de inflação: subir os juros a um pico maior ou adiar o ciclo de baixa precificado para o próximo ano.
Ou seja, mesmo que, pelas circunstâncias do cenário, o Banco Central conclua que vai ter que dar uma dose a mais de juros, não é certo que a alternativa seja seguir subindo. O aperto adicional poderá vir por meio de um adiamento do corte de juros.
Ao responder a uma das perguntas, Serra se atrapalhou e mencionou um possível adiamento do cumprimento da meta de inflação para depois de 2023. Logo em seguida, se corrigiu. Ele se referia a um adiamento do ciclo de cortes.
A rigor, não houve engano algum: se a opção for adiar o corte de juros previsto para 2023, em vez de subir mais agora, na verdade o BC estará deslocando seu alvo para 2024, dadas as defasagens da política monetária.
O próprio diretor do BC disse, numa live mais para o começo do ano, que havia pouco espaço para combater a inflação de 2023 com o adiamento de corte de juros. Hoje, esse espaço é menor.
Serra também discutiu a taxa de sacrifício da política monetária. É um tema um pouco diferente da preocupação com a atividade citada no balanço de riscos da última reunião do Copom. Naquela oportunidade, o BC se referia ao risco baixista para a inflação de uma eventual surpresa negativa da atividade econômica. Desta vez, Serra falou diretamente sobre o preço, em termos de atividade, pago para desinflacionar a economia.
Nas suas considerações, Serra disse que a escolha do BC deve pender para o lado da inflação, pois a sociedade exige isso no momento atual, no mundo todo. Mas, de qualquer forma, ele colocou na pauta a preocupação com a atividade, um objetivo apenas secundário no mandado do BC.
Por fim, Serra defendeu as projeções de inflação do BC. Isso já havia sido feito na ata do Copom, divulgada na semana passada. Ele citou vários fatores que explicam por que a projeção do Copom está abaixo das de mercado.
Isso é importante porque, se o Banco Central estivesse revendo as suas premissas para se aproximar do consenso de mercado, encontraria uma projeção de inflação maior. De novo, isso iria exigir uma dose de juro mais alta. Deve-se lembrar que o Copom tirou a assimetria altista de suas projeções de inflação, dentro de seu balanço de riscos.
No geral, a fala de Serra vai na direção de não subir os juros além de 13,25%, embora ele não tenha fechado as portas totalmente, já que manteve o caráter condicional das sinalizações de política monetária.
Serra é considerado um integrante da ala mais “dovish” do Copom, ou seja, menos inclinada a subir os juros. Por isso, será necessário acompanhar os pronunciamentos de outros membros do colegiado para aferir a direção da política monetária.
Fonte: Valor Econômico
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