Por Thomas Escritt — Reuters, de Berlim
19/01/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
Os europeus diminuíram o aquecedor neste inverno, aparentemente seguindo as recomendações das autoridades para poupar energia em meio à crise da Ucrânia. Dados mostram que muitas pessoas optaram por diminuir a potência e atrasar em quase um mês a ligação dos aparelhos em comparação a outros invernos.
O número de centenas de milhares de casas com termostatos inteligentes instalados em casas europeias pela empresa Tado, de Munique, mostra que, à medida que as temperaturas foram caindo, as famílias se atentaram para o aumento do custo do aquecimento.
Pessoas e empresas passaram a instalar mais desses termostatos inteligentes para acompanhar melhor o consumo de gás. Esses dispositivos, às vezes, estão vinculados a algum plano tarifário de empresas de energia para reduzir demanda e custo nas horas de pico.
A Alemanha tornou-os obrigatórios nos novos imóveis. No inverno de 2022-23, a proporção de residências com o aquecimento ligado em toda a Europa só passou da marca de 90% em 28 de novembro. Nos três anos anteriores, esse limite havia sido ultrapassado semanas antes, em 7, 12 e 5 de novembro, respectivamente, de acordo com dados da Tado.
Autoridades alemãs reduziram as temperaturas em seus escritórios para 19º C. Na universidade da cidade de Frankfurt an der Oder, fronteira com a Polônia, os funcionários receberam cobertores para se aquecerem. Os dados da Tado mostram como as famílias também reduziram o consumo. Neste inverno, em média, os aquecedores residenciais foram configurados a temperaturas quase 1° C abaixo dos anos anteriores.
Depois de um período de tensão, os reguladores do setor energia ficaram mais aliviados quanto às perspectivas de abastecimento de gás da Europa.
“Com o que se poupou, com as remessas de gás e os bons níveis de armazenamento, estamos muito, muito otimistas de que não teremos mais de nos preocupar com a escassez de gás neste inverno”, disse Klaus Mueller, chefe da agência reguladora de gás alemã, nesta semana. Antes ele tinha alertado os consumidores sobre a necessidade de cortes no consumo para evitar interrupções no fornecimento.
A União Europeia (UE) importa 80% do seu gás, sendo que o combustível representa 22% do consumo de energia da Europa e atende a 32% das necessidades energéticas das residências. No entanto, foram feitos grandes esforços para reduzir a dependência em relação ao gás russo e aumentar as importações de produtores de gás europeus como a Noruega e a Holanda.
Os preços do gás na Europa tiveram forte queda em relação ao pico de agosto, quando a corrida para abastecer os estoques empurrou o mercado para cima.
Os dados da Tado são baseados em leituras de 340 mil termostatos inteligentes em toda a Europa, conectados à nuvem, e são relativamente pouco influenciados pelas variações das condições climáticas dos quatro anos medidos, uma vez que registram as temperaturas desejadas, definidas pelas famílias. Essas temperaturas mostram variações regionalmente, mas também um caminho claro.
As famílias holandesas reduziram as temperaturas desejadas em 0,99° C, em média, em comparação ao ano anterior, enquanto os consumidores espanhóis as cortaram em 0,29° C. No Reino Unido, 79,6% das residências conectadas à Tado abaixaram suas configurações de temperatura, enquanto na Noruega, rica em gás, apenas 47% o fizeram. As configurações de temperatura na Noruega caíram 0,2° C para 20,8° C e no Reino Unido em 1° C para 18,3° C.
Os governos europeus, incluindo o da Alemanha, concederam bilhões de euros em auxílio para que pessoas e empresas arcassem com o aumento das contas de energia.
A Tado tem três milhões de termostatos instalados, mas as comparações só podem ser feitas entre dispositivos instalados no mesmo local há quatro anos consecutivos. Dessa forma, apenas 10% deles podem ser usados nos dados.
Há também um “efeito riqueza”. Na Europa Ocidental, as faixas de renda que instalam os termostatos são bem variadas.
Os dados são menos representativos em países do Leste Europeu, onde as residências com termostatos inteligentes tendem a ser as mais ricas. Na Bulgária, os clientes da Tado reduziram as temperaturas em 0,28% em média.
“Cerca de 79% do consumo de energia em uma casa particular se refere ao aquecimento e à água quente”, disse o diretor administrativo da Tado, Christian Deilmann. “A TV, as refeições e a iluminação não são tão importantes.”
Os reguladores alemães temem que os preços mais baixos do gás levem os clientes a se preocupar menos com a conservação. Ainda é cedo para dizer, a partir dos dados, se a disciplina energética das famílias começou a diminuir.
“Temos que começar a pensar em 2023-24”, tuitou Mueller, da agência alemã. “Temos de continuar poupando gás, sendo mais eficientes em termos energéticos, crescendo nas energias renováveis e abastecendo os estoques.”
Fonte: Valor Econômico

