Os países da União Europeia (UE) não descartavam ontem impor tarifas de €93 bilhões aos EUA ou restringir o acesso de empresas americanas ao mercado do bloco em resposta a ameaças de Donald Trump aos aliados europeus que se opõem à sua campanha para anexar a Groenlândia.
A medida representa a crise mais grave nas relações transatlânticas em décadas e representantes europeus estavam reunidos em Bruxelas ontem para calibrar a reação da região.
Ao fim da reunião, embaixadores da UE reafirmaram seu apoio à Dinamarca – que detém a soberania sobre o a ilha do Ártico – e se dispuseram a aplicar um mecanismo drástico de retaliação conhecido como “Instrumento Anticoerção”, ou ACI, elaborado em 2023 e que inclui restrições ao investimento e pode limitar as exportações de serviços, como os prestados por grandes empresas de tecnologia americanas na UE.
A medida visaria a dissuadir o presidente dos EUA, Donald Trump, de impor tarifas de 10% sobre os países europeus a partir de 1º de fevereiro – que podem chegar a 25% em junho, caso os aliados da Dinamarca colaborem com o esforço americano de tomar posse da Groenlândia.
A França, de Emmanuel Macrom, é a maior defensora da aplicação do ACI.
As medidas de retaliação estão sendo elaboradas também para dar aos líderes europeus poder de barganha em reuniões cruciais com o presidente dos EUA no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta semana, disseram autoridades envolvidas nos preparativos.
A Europa busca encontrar ainda um meio-termo que evite uma ruptura profunda na aliança militar ocidental, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o que representaria uma ameaça existencial à segurança do continente.
Uma lista de tarifas de retaliação às taxas de Trump já tinha sido elaborada pela UE no ano passado, mas suspensa até 6 de fevereiro para evitar uma guerra comercial em grande escala. Sua reativação foi discutida ontem pelos 27 embaixadores da UE, juntamente com a possível aplicação do ACI.
Trump, que exige que a Dinamarca ceda o controle da Groenlândia, sob a alegação de questões de segurança, anunciou a possível imposição de tarifas no sábado à noite sobre produtos do Reino Unido, Noruega e seis países da UE que enviaram tropas para a ilha ártica para um exercício militar esta semana.
“Existem instrumentos claros de retaliação à disposição caso isso continue. [Trump] está usando métodos puramente mafiosos”, disse um diplomata europeu envolvido na discussão. “Ao mesmo tempo, queremos pedir publicamente calma e dar a ele a oportunidade de baixar seu tom.”
Paris e Berlim estão coordenando uma resposta conjunta, com seus respectivos ministros das Finanças programados para se reunirem hoje em Berlim, disse um assessor do ministério francês. “A questão também terá que ser abordada com todos os parceiros do G7 [as sete economias capitalistas mais desenvolvidas] sob a presidência francesa”, disse a fonte.
Embora muitos outros Estados-membros da UE tenham manifestado apoio à exploração de como o ACI poderia ser utilizado contra os EUA, a maioria defendeu o diálogo com Trump antes de se fazerem ameaças diretas de retaliação, disseram ao Financial Times diplomatas a par das discussões.
“Precisamos baixar a temperatura”, disse outro diplomata da UE.
Trump, que estará presente no fórum de Davos na quarta e na quinta-feira. Espera-se que ele mantenha conversas privadas com líderes europeus, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, além de participar de uma discussão mais ampla entre os países ocidentais que apoiam a Ucrânia.
“Queremos cooperar e não somos nós que procuramos o conflito”, afirmou Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca.
Conselheiros de segurança nacional de países ocidentais se reunirão em Davos na tarde de hoje.
As conversas, inicialmente focadas na guerra na Ucrânia e nas negociações de paz em andamento para pôr fim à invasão da Rússia ao país, foram reformuladas para incluir a discussão da crise na Groenlândia, segundo dois funcionários a par dos preparativos.
Fonte: Valor Econômico

