Por Demetri Sevastopulo e John Reed, Financial Times — Washington e Nova Delhi
22/06/2023 15h48 Atualizado há 13 horas
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, recebeu o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, na Casa Branca nesta quinta-feira (22) para uma visita de Estado em que os dois anunciaram acordos nas áreas de defesa e tecnologia, entre eles a compra de drones espiões americanos.
Modi e Biden conversaram no Salão Oval antes de dar uma entrevista coletiva – um evento raro, já que o primeiro-ministro indiano não participa de uma faz anos. Biden disse aos jornalistas que a parceria entre os EUA e a Índia está “mais forte, mais estreita e mais dinâmica do que em qualquer outro momento da história”, enquanto Modi falou de um “novo capítulo” na relação estratégica entre os dois países.
O primeiro-ministro da Índia falará ao Congresso e depois participará de um banquete de Estado na Casa Branca.
Antes, ao discursar diante de centenas de indo-americanos, Modi descreveu a cerimônia de boas-vindas como “uma honra e motivo de orgulho para [o] 1,4 bilhão de habitantes da Índia”.
“O 1,4 bilhão de indianos desejam comigo que a tricolor da Índia e a estrelas e listras dos EUA continuem sempre a voar cada vez mais alto”, disse Modi por intermédio de um tradutor, em uma referência às bandeiras dos dois países. Em seguida, o primeiro-ministro concluiu, em inglês: “Deus abençoe os EUA.”
Modi é apenas o terceiro governante estrangeiro a fazer uma visita de Estado aos EUA desde que Biden assumiu a Presidência. Seu discurso ao Congresso fará dele um dos poucos líderes do mundo a se dirigir à Câmara e ao Senado mais de uma vez.
Antes da visita, autoridades dos EUA disseram que a Índia se comprometeria a comprar drones armados MQ-9B SeaGuardian, que são produzidos pela empresa americana da área de defesa General Atomics. Biden e Modi também anunciarão que a fabricante de chips de memória Micron abrirá na Índia uma unidade de montagem e testes de semicondutores de US$ 2,75 bilhões, o que incluirá investimentos de US$ 800 milhões da empresa americana.
“Depois de anos de fortalecer laços em um contexto bipartidário, a parceria EUA-Índia é mais profunda e abrangente do que… nunca”, disse um alto funcionário dos EUA.
Biden e Modi também assinaram um acordo que resultará na coprodução, da General Electric, de motores de caças na Índia, coisa que o governo Biden descreveu como “iniciativa pioneira”.
Os acordos, que incluem esforços para fomentar a cooperação espacial, marcam um grande impulso da parte de Washington para atrair o governo indiano para a sua órbita, como parte da estratégia de trabalhar com aliados e parceiros para fazer frente à China.
Desde que assumiu o poder, Biden investe em aumentar a cooperação em defesa e segurança com Nova Delhi, inclusive por meio da ressurreição do grupo “Quad” de segurança (ou Diálogo Quadrilateral de Segurança) ,que inclui Índia, Japão e Austrália.
Embora a Índia mantenha uma política externa de não alinhamento, ela se aproximou dos EUA devido às crescentes tensões com a China.
A Índia e a China têm uma disputa não resolvida ao longo de sua fronteira de quase 3,5 mil quilômetros, que escalou pela última vez para a violência em maio de 2020, quando soldados chineses e indianos entraram em choque no Vale de Galwan.
Autoridades americanas disseram que o conflito aumentou a disposição da Índia de fazer parceria com Washington.
Autoridade do setor de defesa americano disse nesta semana que os acordos de segurança anunciados durante a visita elevarão o grau de interoperabilidade entre os dois aparatos militares.
Perguntado sobre que papel a Índia terá no caso de um conflito em torno de Taiwan, a graduada autoridade americana se recusou a entrar em detalhes, mas disse que os países estão operando de maneira mais estreita em torno de eventualidades marítimas e de outra natureza.
“Estamos planejando mais juntos, estamos treinando mais juntos”, disse ele.
“Estamos avaliando uma série de desdobramentos de cenários”, acrescentou. “Você vai ver a cooperação se ampliar cada vez mais, não apenas para o oceano Índico como também para o oceano Pacífico.”
Biden enfrenta críticas por conceder a Modi uma visita de Estado, diante das acusações dos críticos de que a democracia indiana está sendo ameaçada por restrições à liberdade de expressão e pela incitação à violência contra minorias muçulmanas e cristãs.
A alta autoridade americana disse que Biden discutirá direitos humanos com “certo grau de humildade” e não partirá para “a intimidação, lições de moral ou repreensões”. Após a reunião, Biden disse ter tido “uma boa conversa” com Modi sobre “valores democráticos” comuns aos dois países.
Modi acrescentou: “A democracia corre nas nossas veias, vivemos democracia”.
Fonte: Valor Econômico